terça-feira, junho 11, 2019

NATATORIALOGIA

11.06.2019
O jovem professor coleccionava títulos académicos como especulador de bolsa acções da banca. Merecia, sem dúvida, estudava bastante e era muito inteligente. Era dos poucos em toda a Índia que dominava à-vontade e por inteiro as mais ousadas hipóteses das altas ciências.
Os seus alunos deliciavam-se a ouvi-lo dissertar sobre Física Quântica, Relatividade, Buracos Negros e outros hermetismos que tais; nisto especulava muito, que na bolsa não.
Um dia, empreendeu uma viagem num vetusto navio de cabotagem, com a finalidade de ir dar uma palestra numa cidade próxima. Instalou-se num pequeno camarote, notando que da parte dos marinheiros a reverência era enorme. Ele não ouvia, mas os marinheiros murmuravam entre si:
– É muito jovem, mas é um verdadeiro sábio…
Um velho marinheiro, de longas barbas e pele curtida por ventos e marés, deslocava-se bem mais do que o necessário ao camarote do jovem professor, zelando pelo seu bem-estar. Demorava-se ali quanto podia para lhe beber as belas e sábias palavras, e dizia para consigo: «que erudição, santo Deus».
Certa noite, pergunta o Professor ao velho marinheiro:
– Ancião, já alguma vez estudaste Geografia?
– Não, senhor. De que se trata?
– É ciência que estuda a Terra na sua forma, acidentes físicos, clima, produção, populações, divisões políticas, etc.
– Não, meu senhor, eu mal sei juntar as letras…
– Ancião, fica sabendo que por isso desperdiçaste um quarto da tua vida.
Noutra noite, depois de uma longa prosa, o professor pergunta:
– Ancião, por acaso estudaste Oceanografia?
– Oceanografia? O que é isso, meu senhor?
– É a ciência descritiva do oceano, dos seres que o povoam e dos seus produtos; tu que ganhas a vida no mar devias saber. Assim, sempre te digo que desperdiçaste outro quarto da tua vida.
O velho marinheiro cofiava a barba branca e farta e murmurava:
– Pois é, senhor professor, foi assim que desperdicei metade da minha vida. Não estudei não senhor.
Na noite seguinte, depois de mais uma longa conversa de sentido único, diz o professor:
– Sabes Ancião, se este barco fosse uma partícula atómica, nunca saberíamos em que lugar se encontrava, qualquer lugar que lhe atribuíssemos era apenas uma probabilidade de entre infinitas outras. E mais: podia estar em dois portos diferentes ao mesmo tempo. E por falar em tempo: se este barco fosse um submarino, o tempo corria para nós mais depressa à superfície do que no fundo do mar. Nunca estudaste Relatividade, Física Quântica, Princípio da Incerteza.
– Não, meu Senhor, eu sou um analfabeto. Eu nem sequer frequentei a escola, aprendi a juntar as letras com o meu pai…
– Ancião, lamento, mas desperdiçaste outro quarto da tua vida.
Triste, acabrunhado, o velho marinheiro saiu dali amargas reflexões. Se aquele professor tão sábio, tão erudito dizia que ele tinha desperdiçado três quartos da vida é porque era verdade. É uma grande tristeza não sabermos todos estas coisas tão elevadas.
Passados uns dias, já a poucas milhas do destino, levanta-se uma terrível tempestade e o barco começa a meter água. O velho marinheiro corre para o camarote do jovem erudito gritando:
– Senhor Professor, Senhor Professor, por acaso aprendeu na natatorialogia?
– Que diacho é isso, Ancião?
– É a ciência de aprender a nadar. O barco bateu numa rocha, está a afundar-se, quem souber nadar alcança facilmente a praia, mas quem não souber vai afogar-se. Se não sabe nadar, lamento, mas acaba de desperdiçar cem por cento da sua vida.
ABDUL CADRE
Inspirado numa história oriental inserida no livro The Art of Living, de William Hart

quarta-feira, abril 03, 2019

EREMITAS, EREMITÉRIOS E MOSTEIROS

A ideia que formei acerca do assunto resultou dos seguintes pressupostos: se os humanos não tivessem crescido em número – lembremos o crescei e multiplicai-vos – não nos teríamos organizado em grupo, obviamente; sem o grupo (sem os grupos) não teríamos desenvolvido a fala, a linguagem, criado idiomas; sem a fala e os idiomas, instrumentos de comunicação por excelência não teríamos desenvolvido a razão – os raciocínios seriam idênticos aos dos primatas – e assim não construiríamos conceitos partilhados, nem saberes comuns, nem ideias, nem crenças. Se for atendível quanto acabo de expor, convenhamos que não só não falávamos de Deus – para afirmar ou negar – como não tínhamos religiões e, por maioria de razão, não precisaríamos de mosteiros, seria um absurdo. Se eremitas houvesse, não seria para buscar e encontrar Deus, mas por misantropia. Entendo que o homem se desenvolve humanamente em cooperação, que deve a todos os outros – aos que estão no mundo e aos que já não estão – tudo aquilo que é e tudo o aquilo que será.

Num livro meu, que deve sair ainda este mês, escrevi o seguinte:

Os dedos arrepiam os segredos

que a pele esconde;

a natureza deplora

a freira que de manhã chora

o orgasmo da noite

que mais ninguém lembra.

Penso que isto resume bem a minha não simpatia para com modos de vida feitos em ambientes de clausura, concentracionários, presumidamente indutores claustrofóbicos.

No Ocidente, os conventos (nomenclatura herdada do Império Romano), ou mosteiros (na etimologia grega monastetérion – latina monasteriu) têm a sua origem nas experiências ditas místicas dos padres do deserto, no Egipto, no século III da nossa era. Na Europa a prática acabou por ganhar adeptos, mas, faltando-lhe os desertos, sítios ermos, longe dos centros buliçosos, especialmente nas montanhas e nas florestas serviram perfeitamente para o fim pretendido, o isolamento proporcionador do silêncio, meditação e contemplação. Mas havia um obstáculo, a impossibilidade de conciliar a solidão total com as exigências vitais do corpo. surge a ideia de comunidade, surgem os cenobitas, a solidão dos cenobitas, solidão em comum, embrião dos conventos.

Falar-se de padres eremitas ou cenobitas parece-me paradoxal, pois é suposto que o padre esteja junto dos fiéis para os acompanhar, guiar e aconselhar. Padre significa pai e não é suposto que um pai abandone os seus filhos.

No Oriente, especialmente entre hindus, cultiva-se ainda a ideia de que o homem avisado deve corresponder a três etapas sucessivas da sua vida: uma primeira voltada para a maturação e a aprendizagem, uma segunda para constituir família e servir a sociedade, e a terceira para meditar e preparar-se para o momento de abandonar o corpo.

Os chamados «homens santos» da Índia parece que desprezavam todas as etapas de crescimento e realização, sendo vulgar dedicarem-se ao mais rigoroso ascetismo, sendo o ascetismo de muitos de uma violência inaudita sobre si próprios. Buda percorreu todos os caminhos de busca do seu tempo e lugar, inclusive o mais severo ascetismo, vindo a concluir que todos esses caminhos eram uma inutilidade. Ao abandoná-los, ao desistir de toda a busca, rendeu-se à vida, sentou-se à sombra da árvore baniana e, dizem os seus seguidores, nesse preciso momento atingiu a iluminação.

Krishnamurti dizia amiúde, e um dos seus livros tem precisamente esse título, que a Verdade é uma terra sem caminhos. Para Buda, a finalidade da vida era fazer cessar todo o sofrimento, pôr termo ao Samsara, o fluxo incessante dos renascimentos.

Os eremitas cristão parece que não terão entendido devidamente a essência da ideia cristã: amar o próximo como a nós mesmos, amar o próprio inimigo. Não entenderam que para isto é fundamental estar no mundo, o que não implica pertencer-lhe. Viver, estar no mundo, não fugir, não se esconder. Erro grave foi autoconvencerem-se que se escondiam do mundo por boas razões, para encontrar Deus, mas não foi por isso exactamente, foi sobretudo para fugir aos apelos da carne, mormente o desejo sexual, que a patrística transformou em pecado, dando desta forma ao mundo dois deuses: o do corpo, que era o diabo e o outro das boas coisas, o Bom Deus.

Dizia Goncourt (1822-1896) que «de todas as aberrações sexuais a mais singular talvez seja a castidade».

Não vale a pena fugir do mundo, porque o mundo nos encontra, inexoravelmente, mesmo que nos escondamos no mais secreto dos eremitérios. De qualquer forma, é certamente em profunda solidão que nos encontramos a nós próprios e expandimos a consciência. Ao expandi-la, paradoxalmente, não estamos sós, dado que nos sentimos um com todos os seres. É aqui que corremos o grande perigo de entrarmos na grande ilusão de Deus, quando o desejável seria o fim de todas as ilusões, e todas inclui a ilusão de Deus, o fim de toda a separatividade. Tal desiderato, num convento, num ermitério pode – quem sabe? – ser possível, mas duvido, porque o que me parece evidente é que a grande possibilidade é a loucura, a alienação.

Quando falo na ilusão de Deus, que fique claro que se trata do que nos habituaram a crer. Tudo o que se diga de Deus não é o que se sabe, é apenas o que se diz, é aquilo em que fomos condicionados. É preciso acabar com a submissão aos modelos, porque os modelos são apenas antolhos que nos impedem de ver quem somos, de ser quem somos.

Pessoa dizia – e isto não é um modelo para aceitar, mas ideias para reflexão – que para atingir a iluminação seria necessário vencer o mundo, a carne e o diabo. Diabo entenda-se como a força em nós que nos divide, como seja a separação da Razão e do Coração. A carne é tudo aquilo que nos vem dos baixos instintos, que são o inferno, e que devemos sublimar, se queremos ser humanos e não bichos. O mundo é tudo o que não nos deixa ser quem somos, a ilusão do ter, o não nos apercebermos que o que temos nos tem igual e reciprocamente.

Podemos expandir a nossa consciência – e se calhar não o podemos de outra maneira – no mundo concreto e dolorido, na nossa particular circunstância; meditar no meio do ruido, sentir por dentro a multidão, mas não pertencer ao mundo nem à. multidão.

É importante que estejamos aqui, mas não é importante que saibam que estivemos. Se queremos acordar, ou se julgamos estar já despertos, não precisamos de fazer nada que se veja ou que se saiba, basta que adoptemos a postura do catalisador. Nos processos químicos, o catalisador não faz parte da composição, mas sem ele a composição não se faz.

quarta-feira, janeiro 09, 2019

UM OLHAR SOBRE A CONTINGÊNCIA

Limitados Sentidos Temos

"Nossa psicologia pessoal é apenas uma pele física, uma ondulaçãozinha na superfície do oceano da psicologia colectiva. 0 factor poderoso, o factor que nos modifica toda a vida, que modifica a superfície do nosso mundo conhecido, que faz história, é a psicologia colectiva, e o inconsciente colectivo. move-se de acordo com leis inteiramente diferentes das que nos regem a ' consciência".

JUNG in, Psicologia Analítica

No passado dia 8, no programa televisivo CONVERSA AFIADA, de Joaquim Letria, o tema era Espiritismo, ou coisa semelhante. De quanto ali se disse bem se poderia resumir, utilizando as últimas palavras de um dos entrevistados, o Padre Fontes: "penso que as pessoas que tinham dúvidas ficaram com elas, ou com mais ainda. Eu penso o mesmo, mas estou convencido que tal não se deveu a falta de tempo para apresentar o assunto, antes a uma confusão de intenções, de que sobressaiu o confronto peregrino de duas coisas perfeitamente irreconciliáveis, pelo menos na época presente: Ciência e Religião. Queria o Dr. Divaldo Ferreira provar pelo positivismo científico a irrefutabilidade do espiritismo e do outro lado dizia o médico presente, de que não recordo o nome, que nada havia que provasse a existência da vida para além da morte. Para o Padre Fontes, visões são visões, não têm qualquer validade probatória, nem mesmo as de Lúcia, que só para eia eram válidas, já que nem o Francisco as teve, apesar de a acompanhar.

Pois é isto, sem sombra de dúvida, aquilo a que se pode chamar dialogo; monólogos intermináveis onde ninguém se converte e todos regressam da peleja com as mesmíssimas ideias com que para ié foram, frustrados talvez por não terem vencido o adversário, justificando com um sorriso amarelo o exercício das liberdades democráticas suportadas, ou desculpando-se mesmo, que o que é preciso é competir. Nem eles aprenderam, nem nós. Do meu ponto de vista, tal era inevitável, por uma razão muito simples: o espiritista não podia provar de ciência o que só ele subjectivamente experimentava; o padre não podia provar o que a Igreja condena e tão ferozmente perseguiu de Niceia até tempos bem recentes e o médico, que só acredita no que pesa ou no que corta, estava ali precisamente para dizer que tudo o que não é ciência é charlatanice. Ou seja: a paixão, que não se pesa, o amor, que não se corta e a saudade que não se mede, são coisas perfeitamente inexistentes, porque o equivoco fundamental é querermos provar racionalmente o que é do domínio do irracional. Eis a tendência persistente e doentia de nos limitarmos: não damos a César o que é de Cesar, fazemos exclusões. Isto é valido para a discussão em apreço, para outras similares que na pantalha têm passado e é válido para as nossas discussões filosóficas. Nestas, os argumentos e contra-argumentos só nos devem servir no sentido da conversão e como exercício insubstituível para uma desejável e profícua abertura de mente.

De qualquer forma, se me permitem um conselho, não tentem convencer ninguém da verdade da reencarnação. nem nela acrediteis pelos argumentos dos livros. Tomai as opiniões que puderdes, mas procurai sobretudo encontrar a vossa, sem esquecer que de nada vale ser como São Tomé, porque mesmo vendo e apalpando não temos a garantia de que os sentidos nos não enganem. Fizeram-se estudos experimentais em universidades norte-americanas onde se pedia a grupos de estudantes voluntários para caminharem ao longo dum comprido corredor e que parassem sempre que se acendesse uma lâmpada e metade dos estudantes paravam convencidos de terem visto uma luz acender-se. Também se utilizaram máquinas fictícias, isto e, máquinas a que se atribuíam efeitos de calor ou de passagem de corrente eléctrica completamente inexistentes e noventa por cento dos estudantes confirmavam os "efeitos". Há miragens e alucinações. Há o desejo de ver e o desejo de não ver.

Será que o encarnado existe? Quem tem razão, nós ou os daltónicos? Que sabemos nós do funcionamento das nossas portas privilegiadas de acesso ao mundo de relação?

II

Ora vejamos. Se colocarmos um par de auscultadores, sendo que de um lado recebemos uma mensagem in­coerente e do outro uma mensagem devidamente organizada, a nossa atenção só capta aquela que a nossa educação preconce­beu. 0 nosso pequeno eu material é um produto histórico con­dicionado entre o medo e a recompensa. Neste plano, como muito bem disse Pavlov, somos reflexo condicionado: agimos como nos mandam, como mos amestraram e os homens acordados são tão poucos que dificilmente se cruzam dois numa vida. Para despertar, talvez seja bom não nos embriagarmos de certezas obtidas através dos nossos limitados sentidos, antes saber da amplitude de tais limitações através do exer­cício da razão. Mas à razão limita-a o frio da lógica e condiciona-a o mundo das necessidades e utilidades. Depois, a nossa tilinte é dupla e dificilmente se alcança o plano do pensamento puro. Esta dificuldade não advém dos tais nove décimos do cérebro que não se utilizam. Convém, desmistificar essa história: cérebro é cérebro e mente é mente; são órgãos (digamos assim, para facilitar) que pertencem a planos claramente diferenciados do ser. O cérebro tem o desenvolvimento perfeitamente adequado para coordenar as funções que lhe são próprias e servir de emissor/receptor dos pensamentos que nos estão mais à mão. Contrariamente ao que muitos pensam, nunca foi estabelecida irrefutavelmente uma razão directa entre a inteligência e a cor ou o tamanho do cérebro, por mais que alguns homens de ciência argumentem utilizando o que não consideram válido quando na boca de parapsicólogos e quejandos. Mas, para analisarmos o fenómeno da inteligência, nada melhor do que uma história verdadeira que a ciência bem conhece.

Há uma espécie de vespa que alimenta as suas larvas exclusivamente duma dada espécie de tarântula. Põe muito poucos ovos, mas por cada um que está para pôr sai à caça duma dessas enormes e venenosas aranhas. Ora, a tarântula é várias vezes mais corpulenta que a vespa e perfeitamente apta a enfrentá-la com êxito, tendo ainda a seu favor uma consistente e impenetrável carapaça. No entanto, não se sabe porque prodígio, a vespa consegue enterrar o seu ferrão com precisão cirúrgica num ponto frágil onde se articulam as patas e atingir a vítima num ponto vital, causando-lhe atordoamento e paralisia momentâ­nea, não a matando, porque de nada lhe serviria morta. Previamente, a destemida caçadora havia aberto uma cova de cerca de vinte e cinco centímetros de profundidade, onde enfia a tarântula de modo a que fique impossibilitada de se mover passado o atordoamento. Depois, calmamente põe o seu ovo e prende-o ao abdómen da vítima. Mais tarde, quando a larva sai do invólucro, tem um manjar fresco à sua disposi­ção, como frescos estão os líquidos do corpo da sua hospedeira, que vai devorando sabiamente sem lhe causar a morte durante as longas semanas do seu desenvolvimento. Deixa para o fim os órgãos vitais. Quando completa o seu desenvolvimento, sai em voo pronta com o seu ferrão para quando chegar a hora de nova caçada.

Quem ensinou estes prodígios à vespa, que não pode falhar?

Se esta espécie tivesse falhado, não tinha chegado aos nossos dias e teríamos eventualmente o registo fóssil da sua passagem como modelo falhado de vida. Temos tendência para, sem mais lobrigarmos que o mais denso de nós, por aí nos julgarmos o centro de tudo, só porque nos cabe a ilusão de gerirmos autonomamente uma inteligência muito própria, com que remendamos os nossos erros, mas não está garantido que um deles não seja fatal, vindo outra mais apta forme do anjo caído estudar o fóssil que por aí fique como recordação e aviso.

In ALVORADA

Nº 1 – 1992 Equinócio da Primavera

domingo, dezembro 23, 2018

OS ANIMAIS TERÃO SENTIMENTOS?

Histon, 23 DEZ 2018

Para respondermos à epígrafe, é forçoso começar por estabelecer um pano de fundo e tornar claros os pressupostos do nosso entendimento.

Queremos seguir o velho conceito hermético de que tudo é mente, que o universo é mental, mas acrescente-se, como bastas vezes temos feito em outros escritos, que a mente é o papel onde o processo cósmico de consciência se inscreve. Aqui, há que deixar claro que, no entendimento rosacruciano, o Cósmico não é um lugar, é um estado, uma condição global de ordem, a consciência absoluta, a inteligência divina, as forças criativas de Deus. Etimologicamente, cosmos significa ordem e caos é o seu contrário.

Na Psicologia não cabe a visão englobante que atrás expressámos e a consciência é entendida como tendo como característica mais relevante a atenção. Os psicólogos tradicionais definem-na como variação que vai da subconsciência até à perfeita e intensa representação dos estados de atenção. Os teólogos entendem-na como o sentido de certo e do errado e muitos deles ainda acreditam que este sentido é inato no ser humano, coisa que a Psicologia nega, considerando tal sentido como aprendido. Freudianos e junguianos identificam a consciência como o superego ou o conjunto de valores morais e éticos introprojectados, que foram adquiridos dos pais, acrescentando aos processos de consciência conceitos como inconsciente colectivo e inconsciente pessoal. Para Jung a consciência é o eu.

Os esoteristas em geral falam de consciência objectiva, ligada aos sentidos físicos; consciência subjectiva, referente a sentimentos e pensamentos, e consciência supra-sensível, de carácter muito pouco comum, referente ao êxtase e à projecção psíquica consciente. Quanto à mente, na forma em que nos é acessível conhecer, consideram-na uma elaboração e expansão do fenómeno da consciência, que só é possível em um determinado meio, um organismo complexo como é o humano. Pensamos que este entendimento é um tanto restritivo, pois tende a excluir os animais em geral, não atendendo devidamente aos que nos são próximos, mas não podemos deixar de relevar a enorme especificidade do ser humano: no homem, a mente infunde-se-lhe como alma e como personalidade.

Os vários graus ou aspectos da consciência de que podemos falar, seja sob o ponto de vista psicológico, sociológico ou esotérico devem ser entendidos, pensamos nós, como fenómenos da filtragem ou redução pelo meio, mais ou menos desenvolvido, onde a consciência se infunda e vibre: na matéria bruta como simples reflexo energético, insusceptível de mudanças por si e em si; na vertente biológica, do mais simples ser unicelular à enorme complexidade que é o ser humano, como aprendizagem e conhecimento… Ora, a ser assim, torna-se evidente que os animais, todos os animais, pelo facto de estarem vivos, têm consciência, isto é, recebem e apropriam-se da dose de consciência de que precisam, de acordo com a sua espécie; os animais de companhia apropriam-se de um nível de consciência que lhes permite uma inteligência instintiva e funcional de aprendizagem e correcção dos insucessos, todavia sem capacidade de reflexão, pelo que os seus raciocínios são simplesmente lineares. Nos animais, por mais evoluídos, não se lhes detecta nenhum sinal de consciência moral.

Em termos latos, e pelos padrões humanos, parece que não podemos atribuir aos animais a que nos afeiçoamos sentimentos. Quando nos parece que os têm, quando vemos algumas atitudes e reacções nos nossos animais de companhia, seria bom colocarmos a hipótese de algum mimetismo, de lhes estarmos a induzir tais comportamentos, de estarmos a “contagia-los”.

Também seria bom termos a noção claro do que são sensações, percepções, emoções e sentimentos. Sobretudo, distinguir emoção de sentimento. Os sentimentos são estados afectivo pouco intensos, estáveis, e, ao contrário das emoções, predominantemente espirituais e de fraca repercussão orgânica. Samuel Sagan diz que «um critério essencial para distinguir uma emoção de um sentimento é que a emoção é uma reacção, enquanto um sentimento não o é

O psicólogo estruturalista Eduard Bradford Titchener considerava que a dimensão mais importante do sentimento é o agrado-desagrado. Exagero de estruturalista. O facto de m animal gostar ou não gostar de nós é, de um modo geral, reflexo condicionado, apego e dependência. A aversão resultará do medo e do incómodo de lhe violarmos o território, de se sentirem em perigo. Mas convenhamos que os mais rudes de nós também são assim.

Perguntar-se-á: então o medo e a aversão não são sentimentos? Pelo critério que atrás referimos e levando bem em conta a citação de Sagan, não são. Claro que uma multidão de psicólogos poderá não estar de acordo. Ao medo e à aversão preferimos chamar reacções instintivas, pulsões, sem descurar que é a partir destas e de outras que a consciência vai produzir sentimentos nos seres habilitados para os desenvolver.

Os sentimentos têm uma componente cultural e social muito relevante; adquirem-se, desenvolvem-se e evoluem ao longo dos tempos, fazem parte do processo evolutivo da humanidade. Presumidamente, geram-se em um nível do ser que podemos chamar de personalidade da alma, que usa o corpo psíquico como laboratório. Pode dizer-se que a personalidade da alma é o cérebro do corpo psíquico.

Do nosso ponto de vista, o corpo psíquico depende de duas instâncias do ser: o corpo físico (instrumento receptor/reactor) e a personalidade da alma (instrumento intemporal da memória e da aprendizagem, instância para a expansão da consciência).

Aqueles que acham que o corpo psíquico (ou astral) é susceptível de, por si só, gerar sentimentos tenderão a dizer: ora aí está, se os animais têm corpo psíquico – e têm, pelo menos os mamíferos (e eventualmente as aves) – então têm sentimentos. Julgamos que não têm, por limitações da sua própria individualidade. O equivalente à personalidade da alma do ser humano tem, nos animais, carácter colectivo, ao que se supõe.

segunda-feira, novembro 20, 2017

DILUCIDAÇÕES

A mente humana – objectiva e subjectiva – é, em nós, uma limitação da mente total e absoluta a que os rosacruzes chamam de Mente Cósmica. É por virtude desta potência e disposição que sentimos infundidas em nós todas as capacidades mentais que nos caracterizam como humanos. Um pouco mais aquém e eramos bichos, na melhor das hipóteses animais de companhia.

Há quem chame à mente objectiva mente concreta e à mente subjectiva mente abstracta, o que me parece nomenclatura pouco feliz. Todavia, é bom que se saiba que não existem tais mentes como realidades separadas, trata-se do entendimento de funções, de funcionalidades, porque a mente é só uma, não fraccionável. As ondas não fraccionam o mar, levam apenas a que a nossa atenção se aperceba dos pormenores.

Funcional, porquê? Vejamos: a mente objectiva permite-nos atravessar a rua sem sermos atropelados, mas é um instrumento limitado de simbolização, pois só pode socorrer-se do que já foi, usando com a eficácia possível o pensamento dedutivo, sendo por isso simplesmente racional, nem mais se lhe pode exigir; a mente subjectiva, por outro lado, alimenta-se das sensações, das emoções, das intuições e dos sentimentos, usando privilegiadamente o pensamento indutivo e o pensamento analógico.

Há racionalistas empedernidos que se vangloriam de usarem exclusivamente a mente racional. Iludem-se. Felizmente para eles – e para todos nós – tal não é possível. A sê-lo, cuidado, que a inteligência artificial está aí, disponível para as substituições.

quinta-feira, novembro 16, 2017

KABIR – 1440-1518

Bhagat Kabir Yi (San Kabir), ou simplesmente Kabir, ganhava o sustento como tecelão, mas foi um poeta, músico, místico e reformador religioso, que merece bem ser considerado como uma das vozes mais profundas e conseguidas do misticismo indiano expresso em verso.

Venerado ainda hoje como santo por muçulmanos, hindus e siks, teve como mestre espiritual (guru) Ramananda, também este um dos grandes santos-poetas da Índia medieval.

O pensamento de Kabir sofreu necessariamente as fortes influências do seu tempo e lugar, onde muito pesava a filosofia dos grandes místicos persas Sadi e Hafiz. Kabir foi um conciliador dos misticismos islâmicos e hindus; as suas expressões metafóricas comportam por igual crenças hindus e muçulmanas.

Ao ter adoptados as crenças no Karma e na reencarnação e repudiado a idolatria, o ascetismo e o sistema de castas, não é possível dizer-se se Kabir era sufi, vedantista ou vishunista, pese embora o seu nome a denotar claramente ascendência islâmica. Ele próprio se dizia filho de Alá e de Rama; os muçulmanos chamavam-lhe santo sufi e os hindus brahman.

Pregava a religião mística do amor, de idênticos contornos dos grandes poetas árabes e persas; uma pregação exigente, que requeria um grau de cultura espiritual muito elevado, susceptível de contrariar as crenças e as filosofias do seu tempo e lugar, o que lhe valeu muitas perseguições, que soube contornar.

Desprezava a santidade profissional dos ascetas e louvava «o gozo e a beleza derramados no mundo pela “Unidade Infinita”».

«Deus não está nem no templo nem na mesquita, está com todos os que o buscam», proclamava Kabir, concitando o espírito persecutório do poderoso clero de Benares, sua cidade natal.

Kabir

«Onde me procuras, meu servidor?

Repara: estou junto a ti.

Não estou no templo,

não estou na mesquita,

não estou no santuário de Meca

nem na morada das divindades hindus.

Não estou nos ritos,

não estou nas cerimónias,

não estou no ascetismo nem nas suas renúncias.

Se me buscas de verdade,

então me verás e há de chegar o momento

em que por fim me encontres.»

KABIR

(Versão portuguesa de Abdul Cadre)

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«O Senhor está em mim,

O Senhor está em ti,

como a vida está em cada semente.

Renuncia ao falso orgulho

e procura em ti o teu Senhor.

A Sua luz tem os raios de um milhão de sóis.» ​

KABIR

Versão portuguesa de

Abdul Cadre

quarta-feira, maio 17, 2017

AGOSTINHO DA SILVA - O PARADOXO E A VIDA CONVERSÁVEL

 

«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!» AGOSTINHO DA SILVA

Chegou a este lado da vida no ano de 1906, desembarcou na cidade do Porto sob o signo de Aquário e entendeu deixar-nos no Domingo de Páscoa de 1994. Neste entretanto, foi o mais que numa só vida se pode ser: filósofo (no mais profundo do conceito), professor contagiante, escritor polifacetado, conferencista, educador, poliglota, viajante, fundador de institutos e universidades…

À semelhança de Fernando Pessoa, usou vários heterónimos, não para produzir um drama em gente, como dizia aquele, mas como matriz de uma vida conversável.

Se quiséssemos um nome para o seu pensamento, podíamos chamar-lhe «filosofia da vadiagem». Em que consiste? Tornarmo-nos na criança que se maravilha com tudo o que observa, poetas à solta e arranjarmos maneira de criar as condições adequadas para cumprir o nosso destino (que é a nossa liberdade) de contemplar o mundo tornado conversável, isto é, pacífico, fraternal e solidário. Como fazê-lo? Ser cada um aquilo que verdadeiramente é e tornar-se contagiante. Contagiar pelo exemplo e não fazer batota com o vírus que o torna humano, que é a fala, não esquecendo que esta lhe vem do céu; o que se ganha ao nascer é a voz.

O seu pensamento místico profundo, ao convergir com o entendimento de várias escolas do campo do esoterismo, tornavam-no atracção dessas mesmas escolas, sendo visitado por alguns dos seus dirigentes. Agostinho da Silva tinha então o cuidado de sublinhar ser um místico e não propriamente um esoterista, ou um hermetista.

Quando alguém se referia ao seu discurso como o “seu pensamento”, logo ele retorquia não saber se o pensamento era dele; era bem possível que o pensamento andasse por aí e que o seu mérito teria sido encontrá-lo…

Nascido português – nacionalidade que só readquiriu em 1992 – naturalizou-se brasileiro, na sequência do exílio a que se viu obrigado, por razões políticas. Foi por isso no Brasil que desenvolveu a maior parte da sua longa vida académica e deu largas à sua produção literária e filosófica, onde nenhum género lhe foi estranho. Quando nos deixou, tinha dupla nacionalidade, a sua pátria era a língua portuguesa e a sua religião a dos fiéis do amor.

A riquíssima bibliografia de George Agostinho Baptista da Silva, de seu nome completo, pode consultar-se em http://www.agostinhodasilva.pt/. Nestas linhas, vamos tão-somente tentar interpretar a figura daquele que entre amigos e admiradores era chamado apenas de «Professor». Dizemos interpretar, sabendo bem que toda a interpretação implica limitação e parcialidade. Professor, aureolado de mistério, rodeado de alunos e de pombos, sob uma frondosa árvore, no Largo do Príncipe Real, em Lisboa, é também como é referido no romance Casa da Rússia, do escritor britânico John Le Carré, que o visitou um dia no nº 7 da Travessa do Abarracamento de Peniche, a bem conhecida morada, situada na 7ª colina de Lisboa, onde acorriam em peregrinação permanente os muitos amigos e admiradores, que tinham por ele uma atracção quase religiosa.

Após uma série de entrevistas televisivas, subordinadas à designação Conversas Vadias, o pensamento do professor Agostinho da Silva chegou ao grande público, tornando-se conversa de café, nem sempre fiel, antes pelo contrário.

O seu magnetismo e a aura pública que ganhara eram tais que o número daqueles que não gostavam dele seria bem reduzido, poucos se atrevendo a criticá-lo negativamente. Um dos seus poucos detractores, o melhor que achou para dizer – citamos de cor – foi: «como filósofo, é uma fraude, mas o que mais me aborrece nele é aquela postura presunçosa e anacrónica de profeta». Todavia, tal remoque mais se destacou pelo azedume do que pela originalidade, pois é certo que alguns comentadores de boa vontade e respeito o designavam como um misto de filósofo grego e profeta bíblico.

Do muito que se dizia e comentava, diríamos nós que aqueles mais virados ao orientalismo chamavam-lhe Mahatma; os tocados pelo new age diziam que tinha vindo do futuro; os esoteristas queriam-no como mestre; os ateus lamentavam que ele não repudiasse a crença em Deus, os cristãos que ele fosse budista e os budistas que ele fosse cristão; os monárquicos queriam-no para alferes da pátria, os conservadores chamavam-lhe comunista, os comunistas chamavam-lhe intelectual burguês, os amigos do autoritarismo chamavam-lhe anarquista.

Que bom, para quem dizia que não tinha discípulos, porque quem puxa carroça é burro; que discutir, que etimologicamente significa sacudir, é bom, porque, mais do que despertar-nos, não nos deixa adormecer; que se a natureza quisesse que todos pensássemos igual não dava uma cabeça a cada um.

Ele nunca quis discípulos, apenas procurou despertar no outro a chama tímida ou ignorada com que veio a este mundo. Além disto, sendo certo que não desprezava os livros, nem o saber de que eles são depósito, prezava bem mais a vida, que ela sim é que é mestra.

Quando lhe perguntavam se se considerava um esoterista, ou um ocultista, dizia que não, que o Pessoa é que sim, ele seria simplesmente, se lhe quisessem pôr uma etiqueta, um místico, cuja principal característica é o amor no seu sentido mais lato, implicando naturalmente o amor ao saber. Dizia ele: «Talvez o maior amor seja o dos místicos, porque esse tem consigo a suprema qualidade de nunca ser plenamente realizável».[1]

Quando lhe diziam do quão utópicas eram as suas proposições, respondia que pois claro, pois que se referiam ao futuro. Não seriam utópicas se havidas no passado, pois que utopia é aquilo que ainda se não realizou, aquilo que ainda não teve lugar, segundo a própria etimologia. Não se trata de coisas impossíveis. A utopia de hoje é a realidade de amanhã.

É bom que se diga que as propostas de Agostinho da Silva, classificadas por muitos como utópicas, partiam de exigências bem simples, que ele invocava como a base da verdadeira sociologia e chamava do princípio dos três esses: o sustento, a saúde e o saber.

Depois, quando afirmava que não era pelo heterodoxo nem pelo ortodoxo, mas sim pelo paradoxo,[2] punha em tudo isto o cerne do mistério da Religião e da Ciência, bem como de todo o conhecimento. Veja-se o grande paradoxo da Geometria: o ponto, que não tem dimensão, desenha todas as dimensões, toda a geometria conhecida. Também Deus poderá ser visto como o supremo ser paradoxal, pois tem a fatalidade de ser livre, sendo assim o modelo de todos os paradoxos e o poeta à solta por excelência. Então, se o concebemos como modelo, fundamos necessariamente o nosso dever de ascender ao paradoxo. A conquista do paradoxo impede que nos acusemos mutuamente. Quem é que não sabe que é sempre um ortodoxo que acusa outro ortodoxo de ser heterodoxo?

O seu contacto com a cultura japonesa – foi bolseiro da UNESCO no Japão – despertou-lhe o interesse pelo xintoísmo e pelo Zen budismo. O seu apreço pelo paradoxo fê-lo dizer que podíamos definir o Zen como um sistema paradoxal por excelência, aquele que admite que alguma coisa seja sempre alguma coisa e o seu contrário. Se perigo existe nisto, é a impossibilidade de um verdadeiro código moral.

Tendo estudado profundamente várias religiões, incluindo os cultos afro-brasileiros – participou em rituais de candomblé – dizia do islão que o critério da submissão – etimologia de islam – não lhe era simpático, já que a liberdade é o nosso dever ser, mesmo que paradoxalmente se possa dizer que o nosso destino é a nossa liberdade e a liberdade o nosso destino. O seu fervor ia para o que se referia à Idade do Espírito Santo,[3] na sequência do pensamento de Joaquim de Flora[4] e das propostas de Francisco de Assis, cuja anunciação ritual e simbólica remonta em Portugal às acções da Rainha Santa Isabel[5]: as festas (culto) do Espírito Santo, a coroação do Menino Imperador do Mundo, a libertação dos presos, a vida gratuita.

A sua grande admiração pela Fé Bahá’í, levou algumas pessoas a pensar que ele seria membro desse culto, mas Agostinho da Silva, poeta à solta, não pertencia a nenhuma igreja instituída, nem a partido político ou grupo. Todavia, do seu ponto de vista, a Fé Bahá’í constituía uma atitude religiosa que valia a pena estudar, entender e praticar, pois enquadrar-se-ia nos valores constitutivos do Quinto Império.[6]

Não se confunda Quinto Império com qualquer mando ou poder mundano, conote-se sim com quinta-essência, Idade do Espírito Santo, Era de Aquário. Veja-se em Fernando Pessoa, veja-se na Ilha dos Amores.

E saiba-se que as propostas Bahá’í,[7] agostinianas e pessoanas têm imensos pontos convergentes e coincidentes com a «Utopia Rosacruz», conforme contida no manifesto Positio.

Voltemos então à vida conversável: «… a pluralidade e até a contradição de opiniões «obriga a pensar e a escolher e é pela escolha que se afirma a liberdade de cada um»[8]. Será, pois, pela via do conversável – da poesia à solta – que a vida se desenvolverá, «porque o mundo acaba sempre por fazer o que sonharam os poetas»,[9] sendo que «poeta é todo aquele que cria».[10] Afinal, «o mundo é só o poema em que Deus se transformou»[11]. Então, bastas vezes o professor dizia que há duas coisas muito importantes que devemos aprender: o quão extraordinário é o mundo e sermos por dentro tão amplos quanto possível, para que o mundo todo possa entrar, sem esquecer que um dos significados da palavra mundo é limpo. Por isso, devemos querer o mundo e não o seu contrário, que é o imundo. Todavia, «seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau; mas é nessa mesma maldade que devemos procurar o apoio em que nos firmarmos para sermos nós próprios melhores e, como tal, melhorarmos os outros»[12]. Este melhorar os outros, porém, exige muita empatia e um cuidado apurado quanto à intransigência. «Ser intransigente com os outros não tem grande sentido; eles são o que podem ser e creio que seriam melhores se o pudessem; a Natureza ou o meio lhes tiraram as condições que os levariam mais alto; não os devo olhar senão com uma íntima piedade.»[13]Afinal, «o mal que se vê é aguilhão para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de aço, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso.»[14]

Quando o tomavam por vegetariano, costumava dizer que evitava comer bicho, porque os bichos não tinham culpa de que ele precisasse de comer…

Mas um certo dia, em sua casa, um grupo alternativo condenava com paixão a crueldade dos caçadores. Ele ouvia, ouvia pacientemente e a dada altura remata: pois é, matar os pobres dos pássaros, que não fazem mal a ninguém… Claro, é cruel. Mas por outro lado, já viram quanta perícia é necessária para apontar a arma a um bicho assim tão pequenino e acertar-lhe em pleno voo?

Era a sua forma de ver as coisas pelo seu conflito intrínseco e a aplicação didáctica do princípio cristão de «não julgarás». Nisto, por vezes, chegava a ser desconcertante. Numa entrevista, dizia: «Não há homem algum que não possa ser elogiado; às vezes os assassinos têm pontaria excelente; e não existe homem algum que não possa ser censurado; houve santos que não tomavam banho».[15]

De ser desconcertante poderia falar aquele franciscano que fora convidado para dar início à ideia do professor de uma Faculdade de Teologia e que, quinze dias depois da chegada ao Brasil, vindo de Portugal, continuava à espera, sem nada para fazer. Foi ter com o professor: «então, a Teologia?». Responde-lhe o Professor: «Meu querido irmão, faça o seguinte, escolha um lugar sossegado onde ninguém o possa ver ou perturbar, sente-se numa pedra e pense em Deus, sem nunca se distrair, pelo tempo que possa».

A ideia de Agostinho da Silva para uma Faculdade de Teologia, era um lugar onde residiriam em permanência teólogos de várias religiões com a missão de investigarem, ensinarem e trocarem experiências teológicas. Nunca tal concretizou e o máximo que conseguiu foi uma Faculdade de Teologia restritamente católica, entregue aos dominicanos, com quem acabaria por se dar excelentemente. Foi por eles convidado para falar sobre o ateísmo e acabou por converter um deles às suas teses.

Uma das teses era de que alguns dos ateístas «tinham uma vida mística tão forte e tão sensível quanto a de qualquer homem religioso»[16]. Outra tinha a ver com as relações entre religiosidade e mística, pois entedia que «há milhões de pessoas religiosas cuja vida mística é nula, sendo praticamente uma vida comercial, visto comprarem um certo número de coisas por meio de certos actos e cerimónias e mais nada»[17].

Em Julho de 1986, entrevistando o professor Agostinho da Silva para o Diário de Notícias, a jornalista Antónia de Sousa dizia a dado passo: "O professor é contagioso...", ao que ele retorquia: "Se o contágio é bom, excelente! Se o contágio for considerado ruim, péssimo!".

É que há palavras que são vírus de matar a Graça, a charis. Por exemplo: competição, produtividade e rendibilidade, que são formas de negar a fraternidade, a liberdade e a igualdade. Tal trindade agnóstica dos economistas deste tempo que passa, envolve o desprezo do homem, da natureza e do sagrado. O homem tornado ser descartável, a natureza como uma serva e o sagrado como postura tola de poetas vagos e beatas serôdias. E assim a vida se nega pela assunção da morte e esta nos despreza, porque a escolhemos por engano.

E há palavras que são vírus de enganar, como o moderno diálogo, que é o divórcio na fala pela emulação dos monólogos; a língua bifurcada com palavras de pontas aceradas, esperando a rendição. Falsamente polidas, envenenadamente sopradas. Eis o credo ainda insepulto e já cadáver, a sombra que passa. Diálogo que, como dizia o mestre, tem o mesmo prefixo que diabo, que é aquele que divide. Diabo que só existe quando lhe damos existência.

E há ainda palavras de ornamento, inúteis como togas, e outras de ruído que empapam a conversa. E há o discurso da promessa e do apelo, a ameaça e os esbirros de soslaio. Mas vem o menino imperador e diz: "basta!" Nem grades nem ornamentos. O menino tem o sorriso bondoso e matreiro do velho professor. Está como sempre esteve, no Príncipe Real, a dar milho aos pombos e palavras de eucaristia aos jovens atentos. Como o viu John Le Carré e quase assim o pôs na "Casa da Rússia" . O escritor só não viu que este era um ritual, um quase conjuro do grande banquete do Espírito Santo, que Isabel, influenciada por Joaquim de Flora, inventou para um dia – um dia de comer de graça para todos – e nós temos de ser capazes de em futuro mais ou menos próximo prolongar por todo o ano. E aí à mesa se conversa, que é o modo mais humano de comunhão dos alimentos do corpo e da alma.

Conversar sim, que é colocar-se a gente na posição do outro. Em conversão, que é um caminho de dois sentidos, uma postura de mútua descoberta.

NB:

Das obras mencionadas em rodapé consulte-se a bibliografia no site mencionado no corpo do testo


[1] “Sete Cartas a Um Jovem Filósofo”

[2] Uma das obras de Agostinho da Silva chama-se precisamente Reflexões, Aforismos e Paradoxos.

[3] Os esoteristas diriam Idade de Aquário

[4] Teoria das três idades: do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

[5] De educação e ascendência cátara, à Rainha Santa Isabel atribui a lenda o célebre milagre das rosas: teria transformado moedas de ouro nas mencionadas flores. O curioso é que à sua tia-avó, Isabel da Hungria, também a lenda diz o mesmo. De Santa Isabel, o que muito poderá despertar a curiosidade dos rosacruzes é a sua relação com o médico, astrólogo e alquimista Arnaldo de Vilanova. O túmulo da santa, com o seu corpo incorrupto, encontra-se no Convento de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra

[6] «Raízes Intemporais da Vida e da Alma de Agostinho da Silva», Ellys, editora Sete Caminhos, Lisboa, 2006.

[7] É bom esclarecer que os célebres colóquios «TRADIÇÃO E INOVAÇÃO – SUA UNIDADE EM AGOSTINHO DA SILVA», que tiveram lugar na Faculdade de Letras do Porto (1996-1999), se deveram ao grande empenhamento da associação agostiniana CADA, onde membros da AMORC e seguidores da Fé Bahá’í tiveram a iniciativa.

[8] “Carta Vária”

[9] “Conversação com Diodima”.

[10] “Conversas Vadias”, entrevistas televisivas. Foram publicadas em DVD

[11] “Quadras Inéditas”

[12] “Parábola da Mulher de Loth”

[13] “Diário de Alcestes”

[14] “Considerações”

[15] “Conversas Vadias”

[16] «Vida Conversável», textos organizados e prefaciados por Henryk Siewierski, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994

[17] Ibidem