terça-feira, junho 11, 2019

NATATORIALOGIA

11.06.2019
O jovem professor coleccionava títulos académicos como especulador de bolsa acções da banca. Merecia, sem dúvida, estudava bastante e era muito inteligente. Era dos poucos em toda a Índia que dominava à-vontade e por inteiro as mais ousadas hipóteses das altas ciências.
Os seus alunos deliciavam-se a ouvi-lo dissertar sobre Física Quântica, Relatividade, Buracos Negros e outros hermetismos que tais; nisto especulava muito, que na bolsa não.
Um dia, empreendeu uma viagem num vetusto navio de cabotagem, com a finalidade de ir dar uma palestra numa cidade próxima. Instalou-se num pequeno camarote, notando que da parte dos marinheiros a reverência era enorme. Ele não ouvia, mas os marinheiros murmuravam entre si:
– É muito jovem, mas é um verdadeiro sábio…
Um velho marinheiro, de longas barbas e pele curtida por ventos e marés, deslocava-se bem mais do que o necessário ao camarote do jovem professor, zelando pelo seu bem-estar. Demorava-se ali quanto podia para lhe beber as belas e sábias palavras, e dizia para consigo: «que erudição, santo Deus».
Certa noite, pergunta o Professor ao velho marinheiro:
– Ancião, já alguma vez estudaste Geografia?
– Não, senhor. De que se trata?
– É ciência que estuda a Terra na sua forma, acidentes físicos, clima, produção, populações, divisões políticas, etc.
– Não, meu senhor, eu mal sei juntar as letras…
– Ancião, fica sabendo que por isso desperdiçaste um quarto da tua vida.
Noutra noite, depois de uma longa prosa, o professor pergunta:
– Ancião, por acaso estudaste Oceanografia?
– Oceanografia? O que é isso, meu senhor?
– É a ciência descritiva do oceano, dos seres que o povoam e dos seus produtos; tu que ganhas a vida no mar devias saber. Assim, sempre te digo que desperdiçaste outro quarto da tua vida.
O velho marinheiro cofiava a barba branca e farta e murmurava:
– Pois é, senhor professor, foi assim que desperdicei metade da minha vida. Não estudei não senhor.
Na noite seguinte, depois de mais uma longa conversa de sentido único, diz o professor:
– Sabes Ancião, se este barco fosse uma partícula atómica, nunca saberíamos em que lugar se encontrava, qualquer lugar que lhe atribuíssemos era apenas uma probabilidade de entre infinitas outras. E mais: podia estar em dois portos diferentes ao mesmo tempo. E por falar em tempo: se este barco fosse um submarino, o tempo corria para nós mais depressa à superfície do que no fundo do mar. Nunca estudaste Relatividade, Física Quântica, Princípio da Incerteza.
– Não, meu Senhor, eu sou um analfabeto. Eu nem sequer frequentei a escola, aprendi a juntar as letras com o meu pai…
– Ancião, lamento, mas desperdiçaste outro quarto da tua vida.
Triste, acabrunhado, o velho marinheiro saiu dali amargas reflexões. Se aquele professor tão sábio, tão erudito dizia que ele tinha desperdiçado três quartos da vida é porque era verdade. É uma grande tristeza não sabermos todos estas coisas tão elevadas.
Passados uns dias, já a poucas milhas do destino, levanta-se uma terrível tempestade e o barco começa a meter água. O velho marinheiro corre para o camarote do jovem erudito gritando:
– Senhor Professor, Senhor Professor, por acaso aprendeu na natatorialogia?
– Que diacho é isso, Ancião?
– É a ciência de aprender a nadar. O barco bateu numa rocha, está a afundar-se, quem souber nadar alcança facilmente a praia, mas quem não souber vai afogar-se. Se não sabe nadar, lamento, mas acaba de desperdiçar cem por cento da sua vida.
ABDUL CADRE
Inspirado numa história oriental inserida no livro The Art of Living, de William Hart

quarta-feira, abril 03, 2019

EREMITAS, EREMITÉRIOS E MOSTEIROS

A ideia que formei acerca do assunto resultou dos seguintes pressupostos: se os humanos não tivessem crescido em número – lembremos o crescei e multiplicai-vos – não nos teríamos organizado em grupo, obviamente; sem o grupo (sem os grupos) não teríamos desenvolvido a fala, a linguagem, criado idiomas; sem a fala e os idiomas, instrumentos de comunicação por excelência não teríamos desenvolvido a razão – os raciocínios seriam idênticos aos dos primatas – e assim não construiríamos conceitos partilhados, nem saberes comuns, nem ideias, nem crenças. Se for atendível quanto acabo de expor, convenhamos que não só não falávamos de Deus – para afirmar ou negar – como não tínhamos religiões e, por maioria de razão, não precisaríamos de mosteiros, seria um absurdo. Se eremitas houvesse, não seria para buscar e encontrar Deus, mas por misantropia. Entendo que o homem se desenvolve humanamente em cooperação, que deve a todos os outros – aos que estão no mundo e aos que já não estão – tudo aquilo que é e tudo o aquilo que será.

Num livro meu, que deve sair ainda este mês, escrevi o seguinte:

Os dedos arrepiam os segredos

que a pele esconde;

a natureza deplora

a freira que de manhã chora

o orgasmo da noite

que mais ninguém lembra.

Penso que isto resume bem a minha não simpatia para com modos de vida feitos em ambientes de clausura, concentracionários, presumidamente indutores claustrofóbicos.

No Ocidente, os conventos (nomenclatura herdada do Império Romano), ou mosteiros (na etimologia grega monastetérion – latina monasteriu) têm a sua origem nas experiências ditas místicas dos padres do deserto, no Egipto, no século III da nossa era. Na Europa a prática acabou por ganhar adeptos, mas, faltando-lhe os desertos, sítios ermos, longe dos centros buliçosos, especialmente nas montanhas e nas florestas serviram perfeitamente para o fim pretendido, o isolamento proporcionador do silêncio, meditação e contemplação. Mas havia um obstáculo, a impossibilidade de conciliar a solidão total com as exigências vitais do corpo. surge a ideia de comunidade, surgem os cenobitas, a solidão dos cenobitas, solidão em comum, embrião dos conventos.

Falar-se de padres eremitas ou cenobitas parece-me paradoxal, pois é suposto que o padre esteja junto dos fiéis para os acompanhar, guiar e aconselhar. Padre significa pai e não é suposto que um pai abandone os seus filhos.

No Oriente, especialmente entre hindus, cultiva-se ainda a ideia de que o homem avisado deve corresponder a três etapas sucessivas da sua vida: uma primeira voltada para a maturação e a aprendizagem, uma segunda para constituir família e servir a sociedade, e a terceira para meditar e preparar-se para o momento de abandonar o corpo.

Os chamados «homens santos» da Índia parece que desprezavam todas as etapas de crescimento e realização, sendo vulgar dedicarem-se ao mais rigoroso ascetismo, sendo o ascetismo de muitos de uma violência inaudita sobre si próprios. Buda percorreu todos os caminhos de busca do seu tempo e lugar, inclusive o mais severo ascetismo, vindo a concluir que todos esses caminhos eram uma inutilidade. Ao abandoná-los, ao desistir de toda a busca, rendeu-se à vida, sentou-se à sombra da árvore baniana e, dizem os seus seguidores, nesse preciso momento atingiu a iluminação.

Krishnamurti dizia amiúde, e um dos seus livros tem precisamente esse título, que a Verdade é uma terra sem caminhos. Para Buda, a finalidade da vida era fazer cessar todo o sofrimento, pôr termo ao Samsara, o fluxo incessante dos renascimentos.

Os eremitas cristão parece que não terão entendido devidamente a essência da ideia cristã: amar o próximo como a nós mesmos, amar o próprio inimigo. Não entenderam que para isto é fundamental estar no mundo, o que não implica pertencer-lhe. Viver, estar no mundo, não fugir, não se esconder. Erro grave foi autoconvencerem-se que se escondiam do mundo por boas razões, para encontrar Deus, mas não foi por isso exactamente, foi sobretudo para fugir aos apelos da carne, mormente o desejo sexual, que a patrística transformou em pecado, dando desta forma ao mundo dois deuses: o do corpo, que era o diabo e o outro das boas coisas, o Bom Deus.

Dizia Goncourt (1822-1896) que «de todas as aberrações sexuais a mais singular talvez seja a castidade».

Não vale a pena fugir do mundo, porque o mundo nos encontra, inexoravelmente, mesmo que nos escondamos no mais secreto dos eremitérios. De qualquer forma, é certamente em profunda solidão que nos encontramos a nós próprios e expandimos a consciência. Ao expandi-la, paradoxalmente, não estamos sós, dado que nos sentimos um com todos os seres. É aqui que corremos o grande perigo de entrarmos na grande ilusão de Deus, quando o desejável seria o fim de todas as ilusões, e todas inclui a ilusão de Deus, o fim de toda a separatividade. Tal desiderato, num convento, num ermitério pode – quem sabe? – ser possível, mas duvido, porque o que me parece evidente é que a grande possibilidade é a loucura, a alienação.

Quando falo na ilusão de Deus, que fique claro que se trata do que nos habituaram a crer. Tudo o que se diga de Deus não é o que se sabe, é apenas o que se diz, é aquilo em que fomos condicionados. É preciso acabar com a submissão aos modelos, porque os modelos são apenas antolhos que nos impedem de ver quem somos, de ser quem somos.

Pessoa dizia – e isto não é um modelo para aceitar, mas ideias para reflexão – que para atingir a iluminação seria necessário vencer o mundo, a carne e o diabo. Diabo entenda-se como a força em nós que nos divide, como seja a separação da Razão e do Coração. A carne é tudo aquilo que nos vem dos baixos instintos, que são o inferno, e que devemos sublimar, se queremos ser humanos e não bichos. O mundo é tudo o que não nos deixa ser quem somos, a ilusão do ter, o não nos apercebermos que o que temos nos tem igual e reciprocamente.

Podemos expandir a nossa consciência – e se calhar não o podemos de outra maneira – no mundo concreto e dolorido, na nossa particular circunstância; meditar no meio do ruido, sentir por dentro a multidão, mas não pertencer ao mundo nem à. multidão.

É importante que estejamos aqui, mas não é importante que saibam que estivemos. Se queremos acordar, ou se julgamos estar já despertos, não precisamos de fazer nada que se veja ou que se saiba, basta que adoptemos a postura do catalisador. Nos processos químicos, o catalisador não faz parte da composição, mas sem ele a composição não se faz.

quarta-feira, janeiro 09, 2019

UM OLHAR SOBRE A CONTINGÊNCIA

Limitados Sentidos Temos

"Nossa psicologia pessoal é apenas uma pele física, uma ondulaçãozinha na superfície do oceano da psicologia colectiva. 0 factor poderoso, o factor que nos modifica toda a vida, que modifica a superfície do nosso mundo conhecido, que faz história, é a psicologia colectiva, e o inconsciente colectivo. move-se de acordo com leis inteiramente diferentes das que nos regem a ' consciência".

JUNG in, Psicologia Analítica

No passado dia 8, no programa televisivo CONVERSA AFIADA, de Joaquim Letria, o tema era Espiritismo, ou coisa semelhante. De quanto ali se disse bem se poderia resumir, utilizando as últimas palavras de um dos entrevistados, o Padre Fontes: "penso que as pessoas que tinham dúvidas ficaram com elas, ou com mais ainda. Eu penso o mesmo, mas estou convencido que tal não se deveu a falta de tempo para apresentar o assunto, antes a uma confusão de intenções, de que sobressaiu o confronto peregrino de duas coisas perfeitamente irreconciliáveis, pelo menos na época presente: Ciência e Religião. Queria o Dr. Divaldo Ferreira provar pelo positivismo científico a irrefutabilidade do espiritismo e do outro lado dizia o médico presente, de que não recordo o nome, que nada havia que provasse a existência da vida para além da morte. Para o Padre Fontes, visões são visões, não têm qualquer validade probatória, nem mesmo as de Lúcia, que só para eia eram válidas, já que nem o Francisco as teve, apesar de a acompanhar.

Pois é isto, sem sombra de dúvida, aquilo a que se pode chamar dialogo; monólogos intermináveis onde ninguém se converte e todos regressam da peleja com as mesmíssimas ideias com que para ié foram, frustrados talvez por não terem vencido o adversário, justificando com um sorriso amarelo o exercício das liberdades democráticas suportadas, ou desculpando-se mesmo, que o que é preciso é competir. Nem eles aprenderam, nem nós. Do meu ponto de vista, tal era inevitável, por uma razão muito simples: o espiritista não podia provar de ciência o que só ele subjectivamente experimentava; o padre não podia provar o que a Igreja condena e tão ferozmente perseguiu de Niceia até tempos bem recentes e o médico, que só acredita no que pesa ou no que corta, estava ali precisamente para dizer que tudo o que não é ciência é charlatanice. Ou seja: a paixão, que não se pesa, o amor, que não se corta e a saudade que não se mede, são coisas perfeitamente inexistentes, porque o equivoco fundamental é querermos provar racionalmente o que é do domínio do irracional. Eis a tendência persistente e doentia de nos limitarmos: não damos a César o que é de Cesar, fazemos exclusões. Isto é valido para a discussão em apreço, para outras similares que na pantalha têm passado e é válido para as nossas discussões filosóficas. Nestas, os argumentos e contra-argumentos só nos devem servir no sentido da conversão e como exercício insubstituível para uma desejável e profícua abertura de mente.

De qualquer forma, se me permitem um conselho, não tentem convencer ninguém da verdade da reencarnação. nem nela acrediteis pelos argumentos dos livros. Tomai as opiniões que puderdes, mas procurai sobretudo encontrar a vossa, sem esquecer que de nada vale ser como São Tomé, porque mesmo vendo e apalpando não temos a garantia de que os sentidos nos não enganem. Fizeram-se estudos experimentais em universidades norte-americanas onde se pedia a grupos de estudantes voluntários para caminharem ao longo dum comprido corredor e que parassem sempre que se acendesse uma lâmpada e metade dos estudantes paravam convencidos de terem visto uma luz acender-se. Também se utilizaram máquinas fictícias, isto e, máquinas a que se atribuíam efeitos de calor ou de passagem de corrente eléctrica completamente inexistentes e noventa por cento dos estudantes confirmavam os "efeitos". Há miragens e alucinações. Há o desejo de ver e o desejo de não ver.

Será que o encarnado existe? Quem tem razão, nós ou os daltónicos? Que sabemos nós do funcionamento das nossas portas privilegiadas de acesso ao mundo de relação?

II

Ora vejamos. Se colocarmos um par de auscultadores, sendo que de um lado recebemos uma mensagem in­coerente e do outro uma mensagem devidamente organizada, a nossa atenção só capta aquela que a nossa educação preconce­beu. 0 nosso pequeno eu material é um produto histórico con­dicionado entre o medo e a recompensa. Neste plano, como muito bem disse Pavlov, somos reflexo condicionado: agimos como nos mandam, como mos amestraram e os homens acordados são tão poucos que dificilmente se cruzam dois numa vida. Para despertar, talvez seja bom não nos embriagarmos de certezas obtidas através dos nossos limitados sentidos, antes saber da amplitude de tais limitações através do exer­cício da razão. Mas à razão limita-a o frio da lógica e condiciona-a o mundo das necessidades e utilidades. Depois, a nossa tilinte é dupla e dificilmente se alcança o plano do pensamento puro. Esta dificuldade não advém dos tais nove décimos do cérebro que não se utilizam. Convém, desmistificar essa história: cérebro é cérebro e mente é mente; são órgãos (digamos assim, para facilitar) que pertencem a planos claramente diferenciados do ser. O cérebro tem o desenvolvimento perfeitamente adequado para coordenar as funções que lhe são próprias e servir de emissor/receptor dos pensamentos que nos estão mais à mão. Contrariamente ao que muitos pensam, nunca foi estabelecida irrefutavelmente uma razão directa entre a inteligência e a cor ou o tamanho do cérebro, por mais que alguns homens de ciência argumentem utilizando o que não consideram válido quando na boca de parapsicólogos e quejandos. Mas, para analisarmos o fenómeno da inteligência, nada melhor do que uma história verdadeira que a ciência bem conhece.

Há uma espécie de vespa que alimenta as suas larvas exclusivamente duma dada espécie de tarântula. Põe muito poucos ovos, mas por cada um que está para pôr sai à caça duma dessas enormes e venenosas aranhas. Ora, a tarântula é várias vezes mais corpulenta que a vespa e perfeitamente apta a enfrentá-la com êxito, tendo ainda a seu favor uma consistente e impenetrável carapaça. No entanto, não se sabe porque prodígio, a vespa consegue enterrar o seu ferrão com precisão cirúrgica num ponto frágil onde se articulam as patas e atingir a vítima num ponto vital, causando-lhe atordoamento e paralisia momentâ­nea, não a matando, porque de nada lhe serviria morta. Previamente, a destemida caçadora havia aberto uma cova de cerca de vinte e cinco centímetros de profundidade, onde enfia a tarântula de modo a que fique impossibilitada de se mover passado o atordoamento. Depois, calmamente põe o seu ovo e prende-o ao abdómen da vítima. Mais tarde, quando a larva sai do invólucro, tem um manjar fresco à sua disposi­ção, como frescos estão os líquidos do corpo da sua hospedeira, que vai devorando sabiamente sem lhe causar a morte durante as longas semanas do seu desenvolvimento. Deixa para o fim os órgãos vitais. Quando completa o seu desenvolvimento, sai em voo pronta com o seu ferrão para quando chegar a hora de nova caçada.

Quem ensinou estes prodígios à vespa, que não pode falhar?

Se esta espécie tivesse falhado, não tinha chegado aos nossos dias e teríamos eventualmente o registo fóssil da sua passagem como modelo falhado de vida. Temos tendência para, sem mais lobrigarmos que o mais denso de nós, por aí nos julgarmos o centro de tudo, só porque nos cabe a ilusão de gerirmos autonomamente uma inteligência muito própria, com que remendamos os nossos erros, mas não está garantido que um deles não seja fatal, vindo outra mais apta forme do anjo caído estudar o fóssil que por aí fique como recordação e aviso.

In ALVORADA

Nº 1 – 1992 Equinócio da Primavera

domingo, dezembro 23, 2018

OS ANIMAIS TERÃO SENTIMENTOS?

Histon, 23 DEZ 2018

Para respondermos à epígrafe, é forçoso começar por estabelecer um pano de fundo e tornar claros os pressupostos do nosso entendimento.

Queremos seguir o velho conceito hermético de que tudo é mente, que o universo é mental, mas acrescente-se, como bastas vezes temos feito em outros escritos, que a mente é o papel onde o processo cósmico de consciência se inscreve. Aqui, há que deixar claro que, no entendimento rosacruciano, o Cósmico não é um lugar, é um estado, uma condição global de ordem, a consciência absoluta, a inteligência divina, as forças criativas de Deus. Etimologicamente, cosmos significa ordem e caos é o seu contrário.

Na Psicologia não cabe a visão englobante que atrás expressámos e a consciência é entendida como tendo como característica mais relevante a atenção. Os psicólogos tradicionais definem-na como variação que vai da subconsciência até à perfeita e intensa representação dos estados de atenção. Os teólogos entendem-na como o sentido de certo e do errado e muitos deles ainda acreditam que este sentido é inato no ser humano, coisa que a Psicologia nega, considerando tal sentido como aprendido. Freudianos e junguianos identificam a consciência como o superego ou o conjunto de valores morais e éticos introprojectados, que foram adquiridos dos pais, acrescentando aos processos de consciência conceitos como inconsciente colectivo e inconsciente pessoal. Para Jung a consciência é o eu.

Os esoteristas em geral falam de consciência objectiva, ligada aos sentidos físicos; consciência subjectiva, referente a sentimentos e pensamentos, e consciência supra-sensível, de carácter muito pouco comum, referente ao êxtase e à projecção psíquica consciente. Quanto à mente, na forma em que nos é acessível conhecer, consideram-na uma elaboração e expansão do fenómeno da consciência, que só é possível em um determinado meio, um organismo complexo como é o humano. Pensamos que este entendimento é um tanto restritivo, pois tende a excluir os animais em geral, não atendendo devidamente aos que nos são próximos, mas não podemos deixar de relevar a enorme especificidade do ser humano: no homem, a mente infunde-se-lhe como alma e como personalidade.

Os vários graus ou aspectos da consciência de que podemos falar, seja sob o ponto de vista psicológico, sociológico ou esotérico devem ser entendidos, pensamos nós, como fenómenos da filtragem ou redução pelo meio, mais ou menos desenvolvido, onde a consciência se infunda e vibre: na matéria bruta como simples reflexo energético, insusceptível de mudanças por si e em si; na vertente biológica, do mais simples ser unicelular à enorme complexidade que é o ser humano, como aprendizagem e conhecimento… Ora, a ser assim, torna-se evidente que os animais, todos os animais, pelo facto de estarem vivos, têm consciência, isto é, recebem e apropriam-se da dose de consciência de que precisam, de acordo com a sua espécie; os animais de companhia apropriam-se de um nível de consciência que lhes permite uma inteligência instintiva e funcional de aprendizagem e correcção dos insucessos, todavia sem capacidade de reflexão, pelo que os seus raciocínios são simplesmente lineares. Nos animais, por mais evoluídos, não se lhes detecta nenhum sinal de consciência moral.

Em termos latos, e pelos padrões humanos, parece que não podemos atribuir aos animais a que nos afeiçoamos sentimentos. Quando nos parece que os têm, quando vemos algumas atitudes e reacções nos nossos animais de companhia, seria bom colocarmos a hipótese de algum mimetismo, de lhes estarmos a induzir tais comportamentos, de estarmos a “contagia-los”.

Também seria bom termos a noção claro do que são sensações, percepções, emoções e sentimentos. Sobretudo, distinguir emoção de sentimento. Os sentimentos são estados afectivo pouco intensos, estáveis, e, ao contrário das emoções, predominantemente espirituais e de fraca repercussão orgânica. Samuel Sagan diz que «um critério essencial para distinguir uma emoção de um sentimento é que a emoção é uma reacção, enquanto um sentimento não o é

O psicólogo estruturalista Eduard Bradford Titchener considerava que a dimensão mais importante do sentimento é o agrado-desagrado. Exagero de estruturalista. O facto de m animal gostar ou não gostar de nós é, de um modo geral, reflexo condicionado, apego e dependência. A aversão resultará do medo e do incómodo de lhe violarmos o território, de se sentirem em perigo. Mas convenhamos que os mais rudes de nós também são assim.

Perguntar-se-á: então o medo e a aversão não são sentimentos? Pelo critério que atrás referimos e levando bem em conta a citação de Sagan, não são. Claro que uma multidão de psicólogos poderá não estar de acordo. Ao medo e à aversão preferimos chamar reacções instintivas, pulsões, sem descurar que é a partir destas e de outras que a consciência vai produzir sentimentos nos seres habilitados para os desenvolver.

Os sentimentos têm uma componente cultural e social muito relevante; adquirem-se, desenvolvem-se e evoluem ao longo dos tempos, fazem parte do processo evolutivo da humanidade. Presumidamente, geram-se em um nível do ser que podemos chamar de personalidade da alma, que usa o corpo psíquico como laboratório. Pode dizer-se que a personalidade da alma é o cérebro do corpo psíquico.

Do nosso ponto de vista, o corpo psíquico depende de duas instâncias do ser: o corpo físico (instrumento receptor/reactor) e a personalidade da alma (instrumento intemporal da memória e da aprendizagem, instância para a expansão da consciência).

Aqueles que acham que o corpo psíquico (ou astral) é susceptível de, por si só, gerar sentimentos tenderão a dizer: ora aí está, se os animais têm corpo psíquico – e têm, pelo menos os mamíferos (e eventualmente as aves) – então têm sentimentos. Julgamos que não têm, por limitações da sua própria individualidade. O equivalente à personalidade da alma do ser humano tem, nos animais, carácter colectivo, ao que se supõe.

segunda-feira, novembro 20, 2017

DILUCIDAÇÕES

A mente humana – objectiva e subjectiva – é, em nós, uma limitação da mente total e absoluta a que os rosacruzes chamam de Mente Cósmica. É por virtude desta potência e disposição que sentimos infundidas em nós todas as capacidades mentais que nos caracterizam como humanos. Um pouco mais aquém e eramos bichos, na melhor das hipóteses animais de companhia.

Há quem chame à mente objectiva mente concreta e à mente subjectiva mente abstracta, o que me parece nomenclatura pouco feliz. Todavia, é bom que se saiba que não existem tais mentes como realidades separadas, trata-se do entendimento de funções, de funcionalidades, porque a mente é só uma, não fraccionável. As ondas não fraccionam o mar, levam apenas a que a nossa atenção se aperceba dos pormenores.

Funcional, porquê? Vejamos: a mente objectiva permite-nos atravessar a rua sem sermos atropelados, mas é um instrumento limitado de simbolização, pois só pode socorrer-se do que já foi, usando com a eficácia possível o pensamento dedutivo, sendo por isso simplesmente racional, nem mais se lhe pode exigir; a mente subjectiva, por outro lado, alimenta-se das sensações, das emoções, das intuições e dos sentimentos, usando privilegiadamente o pensamento indutivo e o pensamento analógico.

Há racionalistas empedernidos que se vangloriam de usarem exclusivamente a mente racional. Iludem-se. Felizmente para eles – e para todos nós – tal não é possível. A sê-lo, cuidado, que a inteligência artificial está aí, disponível para as substituições.

quinta-feira, novembro 16, 2017

KABIR – 1440-1518

Bhagat Kabir Yi (San Kabir), ou simplesmente Kabir, ganhava o sustento como tecelão, mas foi um poeta, músico, místico e reformador religioso, que merece bem ser considerado como uma das vozes mais profundas e conseguidas do misticismo indiano expresso em verso.

Venerado ainda hoje como santo por muçulmanos, hindus e siks, teve como mestre espiritual (guru) Ramananda, também este um dos grandes santos-poetas da Índia medieval.

O pensamento de Kabir sofreu necessariamente as fortes influências do seu tempo e lugar, onde muito pesava a filosofia dos grandes místicos persas Sadi e Hafiz. Kabir foi um conciliador dos misticismos islâmicos e hindus; as suas expressões metafóricas comportam por igual crenças hindus e muçulmanas.

Ao ter adoptados as crenças no Karma e na reencarnação e repudiado a idolatria, o ascetismo e o sistema de castas, não é possível dizer-se se Kabir era sufi, vedantista ou vishunista, pese embora o seu nome a denotar claramente ascendência islâmica. Ele próprio se dizia filho de Alá e de Rama; os muçulmanos chamavam-lhe santo sufi e os hindus brahman.

Pregava a religião mística do amor, de idênticos contornos dos grandes poetas árabes e persas; uma pregação exigente, que requeria um grau de cultura espiritual muito elevado, susceptível de contrariar as crenças e as filosofias do seu tempo e lugar, o que lhe valeu muitas perseguições, que soube contornar.

Desprezava a santidade profissional dos ascetas e louvava «o gozo e a beleza derramados no mundo pela “Unidade Infinita”».

«Deus não está nem no templo nem na mesquita, está com todos os que o buscam», proclamava Kabir, concitando o espírito persecutório do poderoso clero de Benares, sua cidade natal.

Kabir

«Onde me procuras, meu servidor?

Repara: estou junto a ti.

Não estou no templo,

não estou na mesquita,

não estou no santuário de Meca

nem na morada das divindades hindus.

Não estou nos ritos,

não estou nas cerimónias,

não estou no ascetismo nem nas suas renúncias.

Se me buscas de verdade,

então me verás e há de chegar o momento

em que por fim me encontres.»

KABIR

(Versão portuguesa de Abdul Cadre)

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«O Senhor está em mim,

O Senhor está em ti,

como a vida está em cada semente.

Renuncia ao falso orgulho

e procura em ti o teu Senhor.

A Sua luz tem os raios de um milhão de sóis.» ​

KABIR

Versão portuguesa de

Abdul Cadre

quarta-feira, maio 17, 2017

AGOSTINHO DA SILVA - O PARADOXO E A VIDA CONVERSÁVEL

 

«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!» AGOSTINHO DA SILVA

Chegou a este lado da vida no ano de 1906, desembarcou na cidade do Porto sob o signo de Aquário e entendeu deixar-nos no Domingo de Páscoa de 1994. Neste entretanto, foi o mais que numa só vida se pode ser: filósofo (no mais profundo do conceito), professor contagiante, escritor polifacetado, conferencista, educador, poliglota, viajante, fundador de institutos e universidades…

À semelhança de Fernando Pessoa, usou vários heterónimos, não para produzir um drama em gente, como dizia aquele, mas como matriz de uma vida conversável.

Se quiséssemos um nome para o seu pensamento, podíamos chamar-lhe «filosofia da vadiagem». Em que consiste? Tornarmo-nos na criança que se maravilha com tudo o que observa, poetas à solta e arranjarmos maneira de criar as condições adequadas para cumprir o nosso destino (que é a nossa liberdade) de contemplar o mundo tornado conversável, isto é, pacífico, fraternal e solidário. Como fazê-lo? Ser cada um aquilo que verdadeiramente é e tornar-se contagiante. Contagiar pelo exemplo e não fazer batota com o vírus que o torna humano, que é a fala, não esquecendo que esta lhe vem do céu; o que se ganha ao nascer é a voz.

O seu pensamento místico profundo, ao convergir com o entendimento de várias escolas do campo do esoterismo, tornavam-no atracção dessas mesmas escolas, sendo visitado por alguns dos seus dirigentes. Agostinho da Silva tinha então o cuidado de sublinhar ser um místico e não propriamente um esoterista, ou um hermetista.

Quando alguém se referia ao seu discurso como o “seu pensamento”, logo ele retorquia não saber se o pensamento era dele; era bem possível que o pensamento andasse por aí e que o seu mérito teria sido encontrá-lo…

Nascido português – nacionalidade que só readquiriu em 1992 – naturalizou-se brasileiro, na sequência do exílio a que se viu obrigado, por razões políticas. Foi por isso no Brasil que desenvolveu a maior parte da sua longa vida académica e deu largas à sua produção literária e filosófica, onde nenhum género lhe foi estranho. Quando nos deixou, tinha dupla nacionalidade, a sua pátria era a língua portuguesa e a sua religião a dos fiéis do amor.

A riquíssima bibliografia de George Agostinho Baptista da Silva, de seu nome completo, pode consultar-se em http://www.agostinhodasilva.pt/. Nestas linhas, vamos tão-somente tentar interpretar a figura daquele que entre amigos e admiradores era chamado apenas de «Professor». Dizemos interpretar, sabendo bem que toda a interpretação implica limitação e parcialidade. Professor, aureolado de mistério, rodeado de alunos e de pombos, sob uma frondosa árvore, no Largo do Príncipe Real, em Lisboa, é também como é referido no romance Casa da Rússia, do escritor britânico John Le Carré, que o visitou um dia no nº 7 da Travessa do Abarracamento de Peniche, a bem conhecida morada, situada na 7ª colina de Lisboa, onde acorriam em peregrinação permanente os muitos amigos e admiradores, que tinham por ele uma atracção quase religiosa.

Após uma série de entrevistas televisivas, subordinadas à designação Conversas Vadias, o pensamento do professor Agostinho da Silva chegou ao grande público, tornando-se conversa de café, nem sempre fiel, antes pelo contrário.

O seu magnetismo e a aura pública que ganhara eram tais que o número daqueles que não gostavam dele seria bem reduzido, poucos se atrevendo a criticá-lo negativamente. Um dos seus poucos detractores, o melhor que achou para dizer – citamos de cor – foi: «como filósofo, é uma fraude, mas o que mais me aborrece nele é aquela postura presunçosa e anacrónica de profeta». Todavia, tal remoque mais se destacou pelo azedume do que pela originalidade, pois é certo que alguns comentadores de boa vontade e respeito o designavam como um misto de filósofo grego e profeta bíblico.

Do muito que se dizia e comentava, diríamos nós que aqueles mais virados ao orientalismo chamavam-lhe Mahatma; os tocados pelo new age diziam que tinha vindo do futuro; os esoteristas queriam-no como mestre; os ateus lamentavam que ele não repudiasse a crença em Deus, os cristãos que ele fosse budista e os budistas que ele fosse cristão; os monárquicos queriam-no para alferes da pátria, os conservadores chamavam-lhe comunista, os comunistas chamavam-lhe intelectual burguês, os amigos do autoritarismo chamavam-lhe anarquista.

Que bom, para quem dizia que não tinha discípulos, porque quem puxa carroça é burro; que discutir, que etimologicamente significa sacudir, é bom, porque, mais do que despertar-nos, não nos deixa adormecer; que se a natureza quisesse que todos pensássemos igual não dava uma cabeça a cada um.

Ele nunca quis discípulos, apenas procurou despertar no outro a chama tímida ou ignorada com que veio a este mundo. Além disto, sendo certo que não desprezava os livros, nem o saber de que eles são depósito, prezava bem mais a vida, que ela sim é que é mestra.

Quando lhe perguntavam se se considerava um esoterista, ou um ocultista, dizia que não, que o Pessoa é que sim, ele seria simplesmente, se lhe quisessem pôr uma etiqueta, um místico, cuja principal característica é o amor no seu sentido mais lato, implicando naturalmente o amor ao saber. Dizia ele: «Talvez o maior amor seja o dos místicos, porque esse tem consigo a suprema qualidade de nunca ser plenamente realizável».[1]

Quando lhe diziam do quão utópicas eram as suas proposições, respondia que pois claro, pois que se referiam ao futuro. Não seriam utópicas se havidas no passado, pois que utopia é aquilo que ainda se não realizou, aquilo que ainda não teve lugar, segundo a própria etimologia. Não se trata de coisas impossíveis. A utopia de hoje é a realidade de amanhã.

É bom que se diga que as propostas de Agostinho da Silva, classificadas por muitos como utópicas, partiam de exigências bem simples, que ele invocava como a base da verdadeira sociologia e chamava do princípio dos três esses: o sustento, a saúde e o saber.

Depois, quando afirmava que não era pelo heterodoxo nem pelo ortodoxo, mas sim pelo paradoxo,[2] punha em tudo isto o cerne do mistério da Religião e da Ciência, bem como de todo o conhecimento. Veja-se o grande paradoxo da Geometria: o ponto, que não tem dimensão, desenha todas as dimensões, toda a geometria conhecida. Também Deus poderá ser visto como o supremo ser paradoxal, pois tem a fatalidade de ser livre, sendo assim o modelo de todos os paradoxos e o poeta à solta por excelência. Então, se o concebemos como modelo, fundamos necessariamente o nosso dever de ascender ao paradoxo. A conquista do paradoxo impede que nos acusemos mutuamente. Quem é que não sabe que é sempre um ortodoxo que acusa outro ortodoxo de ser heterodoxo?

O seu contacto com a cultura japonesa – foi bolseiro da UNESCO no Japão – despertou-lhe o interesse pelo xintoísmo e pelo Zen budismo. O seu apreço pelo paradoxo fê-lo dizer que podíamos definir o Zen como um sistema paradoxal por excelência, aquele que admite que alguma coisa seja sempre alguma coisa e o seu contrário. Se perigo existe nisto, é a impossibilidade de um verdadeiro código moral.

Tendo estudado profundamente várias religiões, incluindo os cultos afro-brasileiros – participou em rituais de candomblé – dizia do islão que o critério da submissão – etimologia de islam – não lhe era simpático, já que a liberdade é o nosso dever ser, mesmo que paradoxalmente se possa dizer que o nosso destino é a nossa liberdade e a liberdade o nosso destino. O seu fervor ia para o que se referia à Idade do Espírito Santo,[3] na sequência do pensamento de Joaquim de Flora[4] e das propostas de Francisco de Assis, cuja anunciação ritual e simbólica remonta em Portugal às acções da Rainha Santa Isabel[5]: as festas (culto) do Espírito Santo, a coroação do Menino Imperador do Mundo, a libertação dos presos, a vida gratuita.

A sua grande admiração pela Fé Bahá’í, levou algumas pessoas a pensar que ele seria membro desse culto, mas Agostinho da Silva, poeta à solta, não pertencia a nenhuma igreja instituída, nem a partido político ou grupo. Todavia, do seu ponto de vista, a Fé Bahá’í constituía uma atitude religiosa que valia a pena estudar, entender e praticar, pois enquadrar-se-ia nos valores constitutivos do Quinto Império.[6]

Não se confunda Quinto Império com qualquer mando ou poder mundano, conote-se sim com quinta-essência, Idade do Espírito Santo, Era de Aquário. Veja-se em Fernando Pessoa, veja-se na Ilha dos Amores.

E saiba-se que as propostas Bahá’í,[7] agostinianas e pessoanas têm imensos pontos convergentes e coincidentes com a «Utopia Rosacruz», conforme contida no manifesto Positio.

Voltemos então à vida conversável: «… a pluralidade e até a contradição de opiniões «obriga a pensar e a escolher e é pela escolha que se afirma a liberdade de cada um»[8]. Será, pois, pela via do conversável – da poesia à solta – que a vida se desenvolverá, «porque o mundo acaba sempre por fazer o que sonharam os poetas»,[9] sendo que «poeta é todo aquele que cria».[10] Afinal, «o mundo é só o poema em que Deus se transformou»[11]. Então, bastas vezes o professor dizia que há duas coisas muito importantes que devemos aprender: o quão extraordinário é o mundo e sermos por dentro tão amplos quanto possível, para que o mundo todo possa entrar, sem esquecer que um dos significados da palavra mundo é limpo. Por isso, devemos querer o mundo e não o seu contrário, que é o imundo. Todavia, «seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau; mas é nessa mesma maldade que devemos procurar o apoio em que nos firmarmos para sermos nós próprios melhores e, como tal, melhorarmos os outros»[12]. Este melhorar os outros, porém, exige muita empatia e um cuidado apurado quanto à intransigência. «Ser intransigente com os outros não tem grande sentido; eles são o que podem ser e creio que seriam melhores se o pudessem; a Natureza ou o meio lhes tiraram as condições que os levariam mais alto; não os devo olhar senão com uma íntima piedade.»[13]Afinal, «o mal que se vê é aguilhão para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de aço, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso.»[14]

Quando o tomavam por vegetariano, costumava dizer que evitava comer bicho, porque os bichos não tinham culpa de que ele precisasse de comer…

Mas um certo dia, em sua casa, um grupo alternativo condenava com paixão a crueldade dos caçadores. Ele ouvia, ouvia pacientemente e a dada altura remata: pois é, matar os pobres dos pássaros, que não fazem mal a ninguém… Claro, é cruel. Mas por outro lado, já viram quanta perícia é necessária para apontar a arma a um bicho assim tão pequenino e acertar-lhe em pleno voo?

Era a sua forma de ver as coisas pelo seu conflito intrínseco e a aplicação didáctica do princípio cristão de «não julgarás». Nisto, por vezes, chegava a ser desconcertante. Numa entrevista, dizia: «Não há homem algum que não possa ser elogiado; às vezes os assassinos têm pontaria excelente; e não existe homem algum que não possa ser censurado; houve santos que não tomavam banho».[15]

De ser desconcertante poderia falar aquele franciscano que fora convidado para dar início à ideia do professor de uma Faculdade de Teologia e que, quinze dias depois da chegada ao Brasil, vindo de Portugal, continuava à espera, sem nada para fazer. Foi ter com o professor: «então, a Teologia?». Responde-lhe o Professor: «Meu querido irmão, faça o seguinte, escolha um lugar sossegado onde ninguém o possa ver ou perturbar, sente-se numa pedra e pense em Deus, sem nunca se distrair, pelo tempo que possa».

A ideia de Agostinho da Silva para uma Faculdade de Teologia, era um lugar onde residiriam em permanência teólogos de várias religiões com a missão de investigarem, ensinarem e trocarem experiências teológicas. Nunca tal concretizou e o máximo que conseguiu foi uma Faculdade de Teologia restritamente católica, entregue aos dominicanos, com quem acabaria por se dar excelentemente. Foi por eles convidado para falar sobre o ateísmo e acabou por converter um deles às suas teses.

Uma das teses era de que alguns dos ateístas «tinham uma vida mística tão forte e tão sensível quanto a de qualquer homem religioso»[16]. Outra tinha a ver com as relações entre religiosidade e mística, pois entedia que «há milhões de pessoas religiosas cuja vida mística é nula, sendo praticamente uma vida comercial, visto comprarem um certo número de coisas por meio de certos actos e cerimónias e mais nada»[17].

Em Julho de 1986, entrevistando o professor Agostinho da Silva para o Diário de Notícias, a jornalista Antónia de Sousa dizia a dado passo: "O professor é contagioso...", ao que ele retorquia: "Se o contágio é bom, excelente! Se o contágio for considerado ruim, péssimo!".

É que há palavras que são vírus de matar a Graça, a charis. Por exemplo: competição, produtividade e rendibilidade, que são formas de negar a fraternidade, a liberdade e a igualdade. Tal trindade agnóstica dos economistas deste tempo que passa, envolve o desprezo do homem, da natureza e do sagrado. O homem tornado ser descartável, a natureza como uma serva e o sagrado como postura tola de poetas vagos e beatas serôdias. E assim a vida se nega pela assunção da morte e esta nos despreza, porque a escolhemos por engano.

E há palavras que são vírus de enganar, como o moderno diálogo, que é o divórcio na fala pela emulação dos monólogos; a língua bifurcada com palavras de pontas aceradas, esperando a rendição. Falsamente polidas, envenenadamente sopradas. Eis o credo ainda insepulto e já cadáver, a sombra que passa. Diálogo que, como dizia o mestre, tem o mesmo prefixo que diabo, que é aquele que divide. Diabo que só existe quando lhe damos existência.

E há ainda palavras de ornamento, inúteis como togas, e outras de ruído que empapam a conversa. E há o discurso da promessa e do apelo, a ameaça e os esbirros de soslaio. Mas vem o menino imperador e diz: "basta!" Nem grades nem ornamentos. O menino tem o sorriso bondoso e matreiro do velho professor. Está como sempre esteve, no Príncipe Real, a dar milho aos pombos e palavras de eucaristia aos jovens atentos. Como o viu John Le Carré e quase assim o pôs na "Casa da Rússia" . O escritor só não viu que este era um ritual, um quase conjuro do grande banquete do Espírito Santo, que Isabel, influenciada por Joaquim de Flora, inventou para um dia – um dia de comer de graça para todos – e nós temos de ser capazes de em futuro mais ou menos próximo prolongar por todo o ano. E aí à mesa se conversa, que é o modo mais humano de comunhão dos alimentos do corpo e da alma.

Conversar sim, que é colocar-se a gente na posição do outro. Em conversão, que é um caminho de dois sentidos, uma postura de mútua descoberta.

NB:

Das obras mencionadas em rodapé consulte-se a bibliografia no site mencionado no corpo do testo


[1] “Sete Cartas a Um Jovem Filósofo”

[2] Uma das obras de Agostinho da Silva chama-se precisamente Reflexões, Aforismos e Paradoxos.

[3] Os esoteristas diriam Idade de Aquário

[4] Teoria das três idades: do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

[5] De educação e ascendência cátara, à Rainha Santa Isabel atribui a lenda o célebre milagre das rosas: teria transformado moedas de ouro nas mencionadas flores. O curioso é que à sua tia-avó, Isabel da Hungria, também a lenda diz o mesmo. De Santa Isabel, o que muito poderá despertar a curiosidade dos rosacruzes é a sua relação com o médico, astrólogo e alquimista Arnaldo de Vilanova. O túmulo da santa, com o seu corpo incorrupto, encontra-se no Convento de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra

[6] «Raízes Intemporais da Vida e da Alma de Agostinho da Silva», Ellys, editora Sete Caminhos, Lisboa, 2006.

[7] É bom esclarecer que os célebres colóquios «TRADIÇÃO E INOVAÇÃO – SUA UNIDADE EM AGOSTINHO DA SILVA», que tiveram lugar na Faculdade de Letras do Porto (1996-1999), se deveram ao grande empenhamento da associação agostiniana CADA, onde membros da AMORC e seguidores da Fé Bahá’í tiveram a iniciativa.

[8] “Carta Vária”

[9] “Conversação com Diodima”.

[10] “Conversas Vadias”, entrevistas televisivas. Foram publicadas em DVD

[11] “Quadras Inéditas”

[12] “Parábola da Mulher de Loth”

[13] “Diário de Alcestes”

[14] “Considerações”

[15] “Conversas Vadias”

[16] «Vida Conversável», textos organizados e prefaciados por Henryk Siewierski, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994

[17] Ibidem

sexta-feira, maio 12, 2017

DO ABSOLUTO EM IBN ARABI

 

 

Vendas Novas 13 de Novembro de 2013

Se é que não estou a deturpar o pensamento de Ibn Arabi, nele o ontológico prevalece sobre o teológico, o que, de certo modo, constitui uma heresia, se se tomar à letra o que diz o Alcorão. O seu entendimento de que Deus é uma forma fenoménica, isto é, manifestada, ou adaptada por algo precedente – O SER ABSOLUTO – levaria à histeria qualquer wahabita primário. Sorte de Ibn Arabi, porque Muhammad ibn 'Abd al-Wahhab veio ao mundo muitos séculos mais tarde.

Para Ibn Arabi, o Absoluto pode conceber-se em cinco planos: aquele que lhe é próprio – o da sua absolutidade – e mais quatro da sua manifestação (ou descida):

- O Absoluto manifestando-se como Deus;

- O Absoluto manifestando-se como o Senhor de tudo:

- O Absoluto manifestando-se como mundo sensível.

Este último plano é o dos minerais, vegetais, animais e humanos; é o plano da mundanidade.

O plano mais elevado, digamos assim, seria o do Uno, que em Ibn Arabi não significa nem conjunto de muitos nem o oposto a estes, dado que neste plano o conceito de oposição não faz qualquer sentido. Aqui, «uno» antecede qualquer manifestação, sendo, todavia, a sua fonte.

Todos estes planos, entendidos como uma descida até ao mundo onde vivemos e agimos, implicam a possibilidade de ascensão, cujo corolário é a chamada «união mística».

No pensamento de Ibn Arabi, o mais interessante, porém, é o conceito de perpétua criação, ou seja: o Universo não foi criado e pronto, está permanentemente a ser criado (ou recriado); ele existe e não existe a cada instante…

Trazendo à colação os conceitos rosacruzes de vibração e de teclado cósmico, podemos chegar também às metáforas de Agostinho Da Silva a este propósito e comparar a criação (atendendo a Ibn Arabi) com a feitura de um filme, que se constitui com imagens paradas, as quais, fazendo-se suceder (como sucedem as vibrações), produzem a sensação do movimento.

No filme da manifestação cósmica total, tudo se aniquila e recria a cada ínfimo instante, razão pela qual não podemos repetir a mesma vivência em momentos distintos; não podemos, nos dizeres de Hiraclito, banhar-nos duas vezes nas águas do mesmo rio.

Aceite este modo de pensar, pouco importarão as especulações à volta da natureza de Deus, da Sua vontade, ou da sua palavra na boca dos profetas – coisas da Teologia –, importará bem mais a descoberta dos caminhos de realização e ascensão, admitindo que cada instante de recriação cósmica permite novas e mais gradas qualidades.

Abdul Cadre

quarta-feira, maio 10, 2017

DIETA DO ASTRONAUTA

VIGIE A SUA SAÚDE CONTROLANDO O SEU PESO

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É um factor importante para a sua saúde

Na preparação dos Astronautas os problemas do controle do peso têm merecido a maior atenção Como resultado dessas preocupações foi criada uma tabela alimentar que permite muito facilmente um conhecimento, suficientemente exacto, do valor alimentar dos diferentes tipos de alimentos

O uso dessa tabela implica o conhecimento das seguintes regras:

1) As refeições devem ser tomadas a horas certas.

2) A manutenção do peso exige que não se ultrapassem 30 pontos diários.

3) Para perder peso devem somar-se diariamente o menor número possível de pontos, abaixo de 30.

4) Um regime alimentar, durante 20 dias, com pontuação nula, poderá proporcionar uma perda de peso à volta de 5 quilos.

Nota importante:

Não siga este regime alimentar se tiver problemas de saúde Só o médico poderá tratar o seu caso.

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terça-feira, março 28, 2017

A ALMA

Publicado primitivamente em VERSÍCULOS DO HOMEM

http://abdul.vhblog.zip.net/arch2015-03-08_2015-03-14.html#2015_03-14_18_25_21-100040881-0

 

«A fé não será mais do que uma superstição e uma loucura se não tiver por base a razão, pois não se pode supor o que se ignora sem ser por analogia com o que se sabe. Definir o que não se sabe é uma ignorância presunçosa; afirmar positivamente o que se ignora é mentir. » (Dogma e ritual da alta magia). Eliphas Lévi.

 

 

14/03/2015

Se observarmos neste nosso ocidente, seja dentro das fronteiras de um dado país, seja no concerto internacional, os meios espiritualistas como um todo, excluindo da observação as grandes religiões institucionalizadas, o que mais salta à vista, para além da enorme profusão de grupos místicos, esotéricos, ocultistas e afins é a multiplicidade das terminologias difíceis de conciliar e o excesso dos conceitos, por vezes pouco rigorosos, muitas vezes nada adiantando para o entendimento, mas pecando quase sempre no acrescento das confusões e das controvérsias. Pior ainda, no próprio seio de cada grupo específico, salvas as devidas proporções, como é evidente, o problema é similar.

As nomenclaturas excessivas são invariavelmente um prejuízo para a clareza das afirmações e dos entendimentos; tentar alcançar nomenclaturas convergentes e integrantes, sendo sem dúvida um esforço louvável, raramente é compensador.

De qualquer modo, cremos que o que mais agrava este problema é sobrarem os pretensos mestres e os portadores de certezas e escassearem, na mesma proporção, os verdadeiros buscadores com a humildade suficiente para perceberem que a “verdade” de cada um é apenas uma versão entre as inumeráveis versões possíveis. Diríamos assim que o verdadeiro buscador se caracteriza por esta humildade e por uma dedicação inexcedível à procura do propósito da vida. Por isso costumamos dizer que ele vive de propósito e se alimenta da incerteza, porque sem esta não há questionamento; todos aqueles pontos que outros julgam de chegada, para ele são invariavelmente de partida.

Para quem busca, perguntar é mais importante do que responder; responder é bastas vezes subsumir fenómenos plurais às causas únicas em que previamente se crê, justificando assim a crença. Ora, por mais que as crenças possam gerar lídimas expectativas, o que parece ser claro e insofismável é que tendem a criar e a enaltecer ilusões, a distorcer toda a experiência.

A crença alimenta o reducionismo e este é uma arma ideológica ao serviço das submissões organizadas, sejam elas políticas, religiosas ou simplesmente de poder. O reducionismo é o garrote mais tenaz nos fenómenos de empobrecimento intelectual. Mas adiante.

Para os idealistas desprevenidos que pretendem introduzir-se neste universo, por vezes delirante, dos saberes incomuns, onde a discussão sobre o sexo dos anjos se sobrepõe ao que é essencial, pode bem ser que quanto acabamos de dizer não seja coisa que mereça muita atenção nem constitua aviso sério ou sinal de perigo. De certo modo, pode até ser excitante, porque o pior talvez não seja isto, mas sim toda uma fancaria literária – especialmente a contaminada pelas perniciosas fantasias new age – que produz um sério envenenamento mental dos que não prestam atenção a que o papel aceita tudo o que lá se escreva. Nos carentes de espírito crítico, isto chega a produzir dependências similares às das drogas químicas.

Os que chegam aqui, desiludidos as mais das vezes com as velhas igrejas, mais não fazem que substituir uma ilusão gasta por ilusões que o hão de desgastar.

Não cabendo na presente exposição falar alongadamente da imensa confusão dos conceitos, provocada pela multiplicidade quase sempre desnecessária das designações e pela superficialidade das assimilações, nem muito menos – por falta de espaço – clarificar tudo isto que acabámos de referir à vol d'oiseau, queremos desde já prometer que nos esforçaremos por não aumentar a confusão criticada.

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Nesta oportunidade, é de alma que queremos falar, que é um conceito que todos pretendem entender, mas o facto é que o fazem de uma forma tão particular que não conseguem encontrar quem lhes diga: é isso mesmo. São tantas as imagens conceptuais que se inventam para a alma que, defini-la com precisão se torna uma tarefa impossível. Aliás, definir o que quer que seja é traçar limites, e bem dizia Heraclito que não encontraríamos tais limites, por mais caminhos que percorrêssemos, dada a sua profundidade.

Sendo assim, não esperamos, como é óbvio, a concordância do leitor, apenas lhe pedimos que reflicta sobre as muitas concepções a propósito, entre as quais a nossa. Verá, pensamos nós, que o entendimento não é unívoco e creia que a sua (ou a nossa) crença do momento não é defensável como sendo a crença definitiva para todos os momentos.

A plasticidade das ideias deriva do fluir do tempo. Os gregos pré-socráticos acreditavam na existência de duas almas: a alma alento (thymós), mortal, que usava privilegiadamente os pulmões e o coração e a alma intelecto (digamos assim), que actuava na cabeça e sobrevivia à morte do corpo físico: a psyché. Platão falava-nos, e Aristóteles também, de três almas. A nomenclatura das mesmas, para o primeiro era a seguinte: alma do desejo (produtora da concupiscência), alma do valor (donde nos vinham os impulsos elevados e a vontade) e a alma do entendimento (que nos conduziria à verdade e à compreensão). Na terminologia aristotélica, as três almas eram a alma vegetativa, a alma animal e a alma racional. Já Pitágoras não compartimentava a alma, que considerava de origem divina, diminuída, porém, pelo pecado original. A sua purificação far-se-ia pelo saber e pelas reencarnações.

Os chineses, na sua religiosidade popular, conseguem distinguir dez almas, organizadas em dois aspectos: o aspecto PO (mortal), contendo as sete emoções (cólera, desejo, medo, tristeza, júbilo, amor e ódio) e o aspecto HUN (imortal), composto pelo intelecto, a sensibilidade e a memória.

Quando a Psicologia era apenas uma introspecção – a chamada psicologia na primeira pessoa – tudo parecia claro a crentes e descrentes, aos que acreditavam na existência da alma e aos que negavam. Ligada ou não à herança grega, a teologia apontava para que a alma fosse uma entidade imaterial, que permaneceria para além da morte no céu, no inferno ou por aí. De qualquer forma o peso do significado do termo psicologia não podia ser aliviado. A Psicologia – ciência (ou estudo) da alma – era então uma disciplina integrada na Filosofia.

Com o advento da psicologia na segunda pessoa, o que mais mudou nas crenças e entendimentos foi a susceptibilidade de invadir intimidades, coisa muito apetecida por sacerdotes e conselheiros espirituais e que abriu a porta a terapias da alma e a cátedras inovadoras. Em consequência, para um grande número de pesquisadores, entendia-se a alma como um conjunto de qualidades emocionais, tidas como opostas às qualidades racionais e intelectuais.

Daqui até à psicologia na terceira pessoa foi um pulinho e o interesse pela alma em sentido espiritual desvaneceu-se; a «ciência da alma» afinal já não estudava a alma, mas sim o comportamento – até dos bichos – e, neste aspecto, não se lhe via qualquer vantagem ou distinção de relevo em relação à sociologia. Claro que, do ponto de vista académico, não se pode simplificar tanto, as coisas são um pouco mais complexas, pois várias são as escolas de psicologia e algumas tendem mesmo a repor certos valores próprios da metafísica. Tenhamos presentes os aportes da psicologia analítica de Jung, por exemplo. Mas deixemos isto.

O esoterista Louis Lucas, autor do livro Roman Alchimique, dizia que a alma é uma criação da nossa própria pertença, afirmação concordante com o seu contemporâneo Papus, para quem a vida é dada ao homem para que ele a transforme numa força mais alta: a alma. Para Papus, a alma não seria congénita ao ser humano, seria uma resultante: o produto da vontade bem dirigida e o efeito cuja causa está em nós.

A estes dizeres costumamos nós acrescentar que a alma humana é uma conquista, mas que a alma que nos ilumina é uma outorga, pelo que realizarmo-nos espiritualmente é fazer coincidir a conquista com a outorga.

É evidente que estas três concepções arrepiam completamente as crenças comuns de católicos e protestantes, para quem as almas são geradas por Deus uma a uma e de propósito para animar cada um que nasça…

De qualquer forma, nada disto nos diz de forma inequívoca o que é a alma e não ficamos mais esclarecidos se nos debruçarmos sobre os muito tratados produzidos a oriente e a ocidente sobre o assunto, até porque, muito do que se designa por alma se refere a realidades diversificadas. Por exemplo, Rodolfo Steiner chama alma ao que outros autores chamam corpo astral. E este será também o sentido que se pode retirar do que atrás referimos de Papus e Lucas.

Muitas das concepções sobre a alma, se as escalpelizarmos, negam o princípio de que partem, da sua “imaterialidade”, da sua invisibilidade. Isto dá aso a aparecerem nos meios de comunicação faits divers do género: descobriu-se quanto pesa a alma…

Neste sentido, no oriente não se pesam as almas, talvez porque se distingam muito acuradamente a alma humana (o verdadeiro eu – Atman), da alma universal ou Brahma.

Ao escrevermos atrás “imaterialidade”, entre comas, tínhamos em mente algo que não vamos desenvolver aqui. É que pode ter-se o entendimento de que tudo seja matéria em níveis diferentes de manifestação (ou de consciência). Neste caso – evidentemente – teríamos de assentar no que é que se entende por matéria. Veja-se que, para os pitagóricos, o homem representava uma unidade de contrários, uma harmonia entre o corpo finito e a alma infinita. Aliás, para eles, finito e infinito sustentavam-se mutuamente

Ultrapassando este quid pro quo e tendo em vista desembaraçarmo-nos de confusões improfícuas, caberá dizer-se que o nosso pensamento, contrariando muito do que é corrente no meio esotérico, vai no sentido de dizermos que existem dois – e apenas dois – planos de existência: o finito (mundano e objectivo), acessível às ciências académicas, e o infinito (espiritual ou metafísico), dito por vezes invisível. O que se queira conceber entre um e outro plano não poderá constituir um terceiro plano, mas uma twilight zone, uma zona onde o astral e o subatómico se misturam. Onde dissemos astral, poderíamos ter dito psíquico. Neste entendimento, falarmos de corpos, no invisível, só pode passar como retórica, estilo ou necessidade didática.

Os planos de existência catalogados pelos ocultistas não são lugares, mas tão-somente modos de ser e de estar. As concepções trinas, quaternárias, quinárias, septenárias (e outras) são tentativas de entender e explicar a existência fazendo uso de esquemas mentais simplificadores que, ao fim e ao cabo, mais confundem do que simplificam. Quando queremos falar da realidade mais profunda, podem sobrar as palavras – e elas são invariavelmente excessivas – mas o que elas signifiquem será sempre insuficiente e impreciso. Por outro lado, conceber-se um modelo para representar essa realidade, tem sempre o ónus de distorcê-la.

Quando se diz que o corpo humano se divide em cabeça, tronco e membros, estamos no campo da didática, queremos distinguir funções específicas, não estamos no campo da demonstração de três realidades diferentes. Separada que seja a cabeça do resto do corpo não será de corpo que se fala, mas de cadáver mutilado. Por maioria de razão, nada é separável no “invisível”, naquilo que é inconsútil por natureza. No invisível, isto é, no infinito o espaço não é concebível, a tridimensionalidade é um absurdo e o tempo perde o sentido. A seu respeito, o mais que podemos imaginar – por razão e por intuição – são escalas vibratórias. Mas cuidado com a imaginação, porque esta palavra não deriva apenas de imagem, também leva no ventre a palavra magia. E não há magia que nos faça ver nem imagem que se veja que nos desoculte o mistério, para além das crenças comuns de religiosos e esoteristas, de como é que o imaterial pôde manifestar o material, malgrado bem sabermos que o ponto (sem dimensão) deu origem a todas as dimensões, a toda a geometria conhecida, como diria Agostinho da Silva. Os cientistas, que detestam – e fazem bem – todo o mistério (no sentido de inexplicável), retorcem-se e não conseguem explicar como as partículas subatómicas se convertem em matéria, daí tanto se excitarem com o bosão de Higgs, popularizado como partícula de Deus, susceptível de aliviar tanto stress.

Pois bem. Chegados aqui, pedíamos ao leitor o seguinte esforço: tente aceitar, como puro exercício reflexivo, a concepção que mais abaixo tentaremos desenvolver, a qual não é apenas nossa, embora leve, obviamente, a nossa marca. É uma concepção muito grata aos rosacruzes dos altos graus que o leitor, se acaso tem facilidade de investigar psiquicamente, poderá comprovar por si. Se este for o caso, virá a concordar que as teorias dos cinco corpos, dos sete corpos e explicações semelhantes fazem parte de um modo de produção em que livros reproduzem livros, aos contos se acrescentam pontos, às crenças mais crenças e, da experiência, do estudo, da meditação pouco vem. Ou nada vem.

O exercício reflexivo é o seguinte: Vamos admitir que o Absoluto – a que podemos chamar Deus – contém em si tudo o que existe e tudo o que não existe e, sendo assim, toda a inteligência ali reside. Ao exercício dessa inteligência podemos chamar Consciência Cósmica, cuja manifestação e expansão se faz mediante um fluxo energético com duas polaridades: à polaridade negativa, de características pró-materiais, poderíamos chamar maré de vida; à polaridade positiva, de características imateriais, chamam os rosacruzes alma universal. Para os mesmos rosacruzes, este fluir, que designámos atrás por maré de vida conteria em si duas energias: a energia espírito e a força vital. Mas aqui surge uma pequena divergência da nossa parte às propostas tradicionais de base dos rosacruzes, que nem divergência será, mas apenas nuança, perspectiva e simplificação; nós, que somos estudantes apenas, identificamos a maré de vida com a própria energia espírito e estamos em crer que a força vital – o prana da tradição hindustânica ou Chi, segundo os taoistas – resulta da interacção com a alma universal. Não seria possível sem esta.

Nesta concepção, cabe referir algo que achamos muito interessante, que dizia Blavatsky: a matéria é espírito cristalizado e o espírito é matéria subtilizada. Isto levar-nos-ia à tal concepção de dizermos que tudo é matéria (ou que tudo é espírito).

Dado que nos temos referido a espírito e a espiritualidade – toda a pobreza resulta da imprecisão e insuficiência das palavras –, tenhamos cuidado, porque quando falamos de espiritualidade e dos valores e natureza espiritual do homem, não nos referimos propriamente à energia espírito, mas sim aos influxos superiores da Consciência Cósmica no homem. Acontece, porém, que falarmos destes influxos implica termos em mente que eles se exercem sobre alguma coisa, tal como em electricidade não podemos conceber o polo positivo sem o negativo, caso contrário não haveria corrente. Eis, nisto tudo, a dualidade nos seu esplendor,

É bem-sabido que para muitos entendimentos, verbo gratia religiosos, espírito e alma são a mesma coisa; para outros, nomeadamente para os rosacruzes, trata-se de duas essências igualmente divinas, mas de frequências vibratórias distintas: mais elevadas as da alma, mais baixas as de espírito, que por serem, digamos, mais densas manifestam-se primariamente nas formações subatómicas.

A alma, pela sua subtileza e altíssima vibração é indivisível e inseparável da sua fonte. Ela infunde no homem as características psíquicas e só psiquicamente se pode manifestar, nomeadamente como veículo de consciência. Esta é a razão dos campos intermédios, que referíamos atrás com a expressão pouco rigorosa de twilight zone. O corpo psíquico (nomenclatura rosacruz), o envoltório fluídico (nomenclatura martinista) o corpo astral (nomenclatura mais comum na literatura esotérica) é a ponte entre a alma e o corpo físico.

E não se veja contradição à nossa crítica atrás, de acharmos inapropriado falar de corpos no invisível, porque as vibrações mais baixas do astral, em certas condições, podem estimular os nossos sentidos objectivos, nomeadamente a visão. Se tivermos acesso a um bom microscópio não vamos dizer que os micróbios são invisíveis.

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Para terminar, diga-se então que o corpo psíquico (ou astral) não é a alma; aquele é mortal e esta é imortal, porque inseparável da fonte. Esta é a razão de costumarmos dizer em tom de brincadeira, mas que todavia é uma afirmação séria, que nós não temos alma, é a alma que nos tem. Temos, obviamente, o seu influxo, que produz na nossa personalidade um desejo de eternidade e um desejo de altura, que a leva a querer reflectir, a querer parecer-se com a alma. Daqui o conceito personalidade-alma (personalidade da alma ou alma personalidade), que pode justificar a afirmação de Louis Lucas de que a alma é uma criação da nossa própria pertença. Criação progressiva, diríamos nós, porque esta alma humana ascende e progride em sucessivas reencarnações.

quinta-feira, março 09, 2017

FALAR DE AMOR SEM RECURSO AO MANUAL

 

Falarmos de amor nem sempre se entende na dimensão que lhe queremos dar. A nossa sociedade hedonista pensa o amor em termos estritamente físicos e mundanos. Por virtude disto (ou defeito) ouve-se amiúde a estafada frase «fazer amor», como se o amor fosse uma espécie de artesanato. O que quem usa a frase quer dizer na sua é copular, ter relações sexuais, etc., e bem andam os jovens quando lhe chamam curtir. Mas isto não é amor? Não, não é, é curtir. Alimenta-se da energia global que chamamos amor, mas não é amor, é uma componente biológica deste, estreitamente ligada ao instinto de sobrevivência, ao repúdio da morte. Cabe na dicotomia Eros e Tanatos, não mais do que isso. Se não, qual a componente de amor relacional no sexo comprado? Qual o amor – se o ódio (sua inversão) o não assiste – da prostituta com o seu cliente?

Mas impõe-se que se diga que, no amor pessoal entre um homem e uma mulher, a sexualidade, para além da sua função reprodutora, tem um papel extremamente relevante na sintonia emocional e no equilíbrio fisiológico, mediante o princípio do prazer. Toda a energia gasta no acto é energia que se recupera em termos de saúde e saciedade, o que reforça o amor conjugal, por mais que se queira ver aí apego apenas. Sê-lo-á certamente se a condição de dádiva for prejudicada pela de posse.

Perguntar-se-á então o que se passa na homossexualidade. Do meu ponto de vista, o acto sexual entre pessoas do mesmo sexo estará inevitavelmente diminuído das principais componentes que tornam a sexualidade necessária e apaziguadora, por muito que possa ser gratificante.

A intimidade física, emocional e intelectual entre dois seres que mutuamente se atraem, envolvendo sexo u não, prendem-se com o que o amor impessoal tem de mais englobante e unificador da humanidade, que é o sentido libertador dos limites do eu. Uma expansão do eu, digamos assim. Aqui é preciso fazer notar que usamos o conceito «eu» como o usa a filosofia, a psicologia e o senso comum. Nada daquelas confusões ocultistas e dos navegantes nas fumaças New Age. O eu é o eu, a faculdade de dizer tu. Cresce quando somos capazes de dizer eu sou tu. Cresce ainda mais quando somos capazes de sentir sermos um com toda a humanidade, um com todos os seres, com todas as coisas.

Falamos de expansão da consciência.

sábado, dezembro 24, 2016

O EU E O EGO PELAS RUAS DA AMARGURA

 

Vendas Novas 20 de Outubro de 2016

Para os rosacruzes, o ego é o nosso eu objectivo, isto é, o «eu» com o qual nos identificamos quotidianamente. A alma é bem outra coisa, embora por vezes se lhe chame «Eu espiritual». Seguindo a tradição oriental, há quem lhe chame centelha divina, ou eu superior.

Os jargões próprios de cada área de conhecimento não conseguem ser, tanto quanto os seus utilizadores gostariam que fossem, pessoais e intransmissíveis. Uma ou outra área quase o consegue, mas a regra é a interpenetração. Já repararam como conceitos económicos são usados a propósito e a despropósito de tudo e de nada, como por exemplo mais valia?

E falar de quanta? É uma delícia. Não há quem confesse que não sabe do que se trata.

Nas conversas com os meus amigos ligados ao esoterismo (rosacruzes incluídos) muito me cansa, para além das confusões de nomenclaturas, o uso de certos convencimentos mecânicos e alguns preconceitos que roçam os complexos de superioridade. Por vezes encontro-me a pensar que levam pouco a sério a principal qualidade de um buscador: ser um ponto de interrogação que caminha, não um ponto de exclamação que se pavoneia.

No campo do esoterismo, pouco interessa a quantidade do que se possa saber; a forma, a qualidade, a especificidade do que se sabe é que importa. Encontrar aqui pretensas superioridades, dá que pensar. Antes de afirmarem coisas, seria bom procurarem múltiplas perspectivas e assimilarem a humildade de quem está em actualização permanente. Já viram o que acontece com os programas de computador? Sempre em actualização. Como dizia o grande vate, toda a vida é composta de mudança. Tudo muda quando mudamos. Ou muda o nosso entendimento. Ressalve-se que não deveríamos olhar o esoterismo como apenas um intelectualismo.

A falta de respeito que comummente se tem nestes meios pelo saber académico só tem comparação com a mesma falta de respeito que os meios académicos nutrem pelos conhecimentos esotéricos, mas creio que tal desprimor se justifica bem mais por parte destes do que daqueles, dado que uns – os académicos – se esforçam por saber e por mudar, enquanto os outros se agarram ao que julgam saber, sem se preocuparem com outros saberes, numa auto-suficiência imprópria de quem busca. Aquelas frases feitas de que os esoteristas sempre souberam, ou o saber oficial não entende são de uma pesporrência um tanto irritante. Pregar-se depois a humildade é de bradar aos céus. A humildade é coisa que só podemos exigir de nós próprios, não dos outros, desde que afinal não seja usada como o seu contrário. A humildade não cabe sequer em intenções, é uma prática de poucos, mas nestes poucos nem sempre é virtude.

Digamos então que o conhecimento não é nem pode ser um exclusivo das academias. Além disto, deve entender-se que o conhecimento não é a verdade, faz parte da sua busca, mas não é a verdade. A verdade é o horizonte e, como tal, nunca se alcança, apenas se persegue. Que se desiludam os esoteristas que pensam ter alcançado o horizonte. Lastimemo-los e lastimemos também os académicos que limitam o conhecimento estritamente ao mensurável, porque o que é verdadeiramente importante na vida não se mede, sente-se apenas.

Por vezes, um certo voluntarismo dos esoteristas ultrapassa o aconselhável bom-senso; o uso de jargões da ciência, deslocando-lhes o sentido ou dando-lhes sentido outro, justificar-se-iam se objectivasse a clareza ou o enriquecimento dos conceitos, mas invariavelmente é o contrário que acontece.

Já repararam, por exemplo, como à revelia da Psicologia, se persiste em distinguir Ego de Eu, o que faz Freud e Jung darem voltas na tumba, porque o que distingue verdadeiramente ego de eu é apenas a origem etimológica, respectivamente grega e latina. Assim, por razões específicas e necessárias é bom que o termo EGO fique entregue às ciências psíquicas e se deixe o EU para a linguagem comum e a literatura. Afinal, toda a gente sabe o que é o eu, mesmo que não seja capaz de o definir. Não há qualquer benefício em complicar e confundir: eu é o que nos permite tratar o outro por tu. É assim na Gramática, na Psicologia, na vida,

Querer distinguir ego de eu, para falar do objectivo e do subjectivo não aquenta nem arrefenta. Por outro lado, para referirmos acepções transpessoais, há sempre o recurso aos qualificativos. Podemos ver isso, por exemplo, ao falar-se de morte clínica, morte cerebral, etc. Assim, quando ouvimos alguém dizer «eu superior», percebemos evidentemente o que se quer referir. Todavia, se é alma que se pretende invocar, por que se não diz?

Por favor, meus amigos, deixem o ego, o self, o id e quejandos com aqueles a quem faz imenso jeito e não usurpem nem deturpem, porque não é necessário.

ABDUL CADRE

sábado, dezembro 10, 2016

PARTICULARIDADES COMUNS

 

Vendas Novas, 2 de Junho de 2005

Na vida só temos duas horas que são realmente nossas: a hora de nascer e a hora de morrer. Todas as outras são comuns, colectivas, mais dos outros do que de nós. E pouco importantes, nem sequer são horas, são minutinhos com as suas minudências.

Os pingos de chuva são muito aborrecidos, porque parecem todos iguais; divertida é a paisagem que os pingos de chuva reverdecem; divertida por ser vária, por ser plural, por nunca se despedir de nós.

Nós é que nos despedimos da paisagem e isso acontece quando julgamos que não lhe pertencemos ou que somos os culpados da queda da folha.

Abdul Cadre

terça-feira, setembro 06, 2016

REFLEXÕES A-CIENTÍFICAS

 

V. N. 4 Set 2016

Querida Soror,

A sua exposição «postada» (como agora se diz) no FB, em 1 do corrente está muito bem-feita. Assim, o que se segue não é uma crítica nem suprimento para qualquer lacuna, trata-se tão-só de um conjunto de reflexões a partir dos seus pontos de vista.

A primeira reflexão é que um dos grandes problemas de quem se move no campo da espiritualidade é querer conciliar as nomenclaturas do que se crê e sabe neste campo com aquilo que o pensamento comum diz por dizer e o que a ciência com empenho prova. Desta forma, o termo consciência, por exemplo, para um espiritualista tem um significado incompreensível para as massas que falam pelo eco do que ouviram e um significado controverso para a ciência dos pesos e medidas.

Quando um popular diz para outro «és um inconsciente» ou diz de outro «fulano é muito consciente», não se refere à consciência como entendida pelos espiritualistas nem à consciência proposta pelos cerebristas das ciências de proveta, que muito sabem e dissecam mas não nos conseguem explicar por que as amibas, não tendo cérebro, todavia têm consciência, procuram alimento, nadam, reproduzem-se e aprendem.

Para colmatar este despropósito das nomenclaturas, pensam muitos que seria bom que os espiritualistas pudessem ter e usar jargões inequívocos, mas talvez isto não seja possível nem útil. As tentativas havidas que se conhecem têm saído goradas. Então, uma solução mais cómoda poderá ser esta: procurarmos usar a nosso favor os termos da psicologia, mais concretamente fazendo o percurso psicanálise, psicologia das profundidades, psicologia humanista e psicologia transpessoal, relegando, por razões óbvias tudo o que se prenda com o behaviorismo, dado que uma psicologia comportamental é um absurdo, contém uma contradição nos termos. Ficaria bem, talvez, na sociologia.

Também os modismos, new age ou outros, deverão merecer alguma parcimónia e, em muitos casos, a crítica ou mesmo a rejeição. Um modismo de grande uso acrítico é o de inteligência emocional, conceito atribuído a Wayne Payne, e que enfeitou a sua tese de doutoramento em 1985; daqui a crença no cientismo da coisa, Mas é muito pouco científico. Pascal conhecia muito bem a profunda separação que existe entre a inteligência e a emoção e afirmava que os dois principais sustentáculos da verdade – a razão e os sentimentos – «se enganam mutuamente» (Pensamentos – 1662). Com a sua apurada clarividência, Fernando Pessoa, que não era cientista, mas via mais de olhos fechados que a maioria, que se reivindica do saber científico, de olhos abertos, dizia que «Toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem, portanto, uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que se não sente». É por aqui que eu justifico os meus dizeres de que a palavra serve mais para mutuamente nos enganarmos do que para nos entendermos…

Mas, o que é a inteligência?

Uma brincadeira de psicólogos diz que inteligência é aquilo que os testes de inteligência medem. Sem brincadeira, uma das coisas que muitos psicólogos não conseguem entender é que, por exemplo, a estupidez não seja – porque para eles é – o contrário da inteligência. Custa-lhes aceitar que a estupidez faça parte da inteligência, que esteja nela contida; que seja uma deficiência, uma avaria na inteligência, que é o mesmo raciocínio de Santo Agostinho em relação ao bem e ao mal e que ecoa no pensamento rosa-cruz no dizer: «o mal é uma luz menor». A palavra de engano, como atrás referi, integra-se nesta lógica da deficiência, do defeito.

É evidente que isto só fará sentido para quem entenda que a inteligência, em termos absolutos, não nos pertence, embora esteja ao nosso dispor. Se aceitarmos que é assim, teremos de olhá-la como um desiderato, um desejo de perfeição que só a estupidez permite. Como é que alguém pode desejar ser inteligente se já for inteligente, ou querer ser perfeito se se julga perfeito? Só podemos querer ser inteligentes se o não formos. E aqui valem as teorias dos quanta: se por acaso observarmos a perfeição, ela deixará de estar onde a observámos. É como caminharmos para o horizonte: damos dois passos na sua direcção e ele afasta-se de nós os mesmos dois passos.

Então, recorremos às técnicas meditativas que, na maioria dos casos, não são verdadeiramente meditativas, mas reflexivas, actos de contrição, congeminações, discorrências, cogitações. A meditação exige que calemos a nossa estupidez para que a inteligência possa fluir sem tropeçar nos defeitos; exige que a nossa mente não se envenene com os nossos pensamentos. Aquilo a que chamamos evolução depende disto? Talvez. Basta que entendamos que evoluir é fazer com que a personalidade se identifique com a natureza da alma, pois que falar de evolução fora deste entendimento obriga a admitirmos o seu contrário, a involução, tal como falar de saúde implica aprendermos o que é a doença. E é assim que voltamos às explicações de Santo Agostinho sobre o bem e o mal: a doença só existe como deficiência da saúde, não tem autonomia, tal como a estupidez não tem autonomia.

De evolução também podíamos dizer, acompanhando Gurdjieff, que é passar do estado animal ao hominal, entendendo-se que o animal está condicionado pela necessidade e pelo medo, sensações que têm como resposta natural a agressão e a fuga. A mudança de estado – de reino da natureza – só é possível mediante a transformação do nosso condicionalismo bruto a uma etapa superior, onde seremos condicionados pelo amor, que é a força motriz do bem. O amor impessoal, note-se, não o apego nem a sexualidade, seus componentes menores, que aliás já nos condicionam por apelo simples e natural. Mas não se trata de aprisionar o animal que habitamos, mas de usá-lo adequada e inteligentemente.

Querida Soror, na sua exposição, o que me parece de argumentação mais frágil é o que concerne à felicidade e à identificação de mudança com a criação de consciência. Dizia Pessoa: «eu não evoluo, viajo»; e digo eu com frequência que felizes são os gatos com a barriga cheia na sua almofadinha de veludo, mas talvez não se sintam infelizes se perdem uma coisa e outra, vão em busca do conforto perdido, naturalmente.

A palavra felicidade, com a sua conotação romântica e burguesa traduz um conceito muito equívoco. Ela quer dizer o quê? Contentamento? Bem-estar? Alegria? Satisfação? Bem-aventurança? Júbilo? Plenitude? Beatitude? Felicidade ou momentos de felicidade?

No que concerne à consciência, sendo a inteligência um dos seus aspectos, teremos de argumentar como atrás fizemos para esta: a consciência é algo de global, não nos pertence; ela não evolui, ou antes, não podemos saber se sim ou não evolui, tal como o nosso gato, na sua almofadinha de veludo, não sabe se nós evoluímos ou não, porque o seu foco de consciência é a almofada, o conforto e a comida; o que ele poderá notar é se o conforto é maior ou menor que o habitual. Sendo nós a consciência que condiciona a sua consciência de gato – ambas consciências reflectidas, infundidas – o que ele julga de nós será mutatis mutandis o que nós pensamos da Consciência-Deus. Dito tudo isto de outro modo, a nossa consciência individual dizemo-la evoluindo e crescendo, ou melhor expandindo-se, quando viajamos mais e mais – como Pessoa – nesse mar inconsútil que é a Consciência Cósmica. O desejo dos rios é serem mar e o desejo do mar é acolher os rios. Este é, a meu ver, o processo de consciência e os pequenos rios que são as infusões individuais de consciência que chamamos nossa não evoluem, fluem e são mar quando podem, quando chegam ao mar, quando com o mar se identificam. E repetimos o que atrás dissemos: evoluir é fazer com que a personalidade se identifique com a alma.

Posto isto, vou tentar ser mais minucioso e preciso quanto ao meu entendimento de Alma, Consciência e, inevitavelmente de Mente. Este entendimento não será melhor do que outros bem pensados, mas parece-me bastante coerente e equilibrado. Não o tenho como proposta acabada, mas como tentativa de sintonizar os ensinamentos da ordem com as vertentes mais estritamente académicas e, em simultâneo, torná-los acessíveis a quem os procura movido pela espiritualidade.

Há muitos anos, quando nos liceus se ensinava Psicologia integrada na Filosofia, enaltecendo-se a metafísica, isto é, valorizando o conceito de alma mais do que as respostas comportamentais, dizia-se que as potências da alma eram memória, entendimento e vontade. Se a isto acrescentarmos o ensinamento rosa-cruz de que só há uma alma; que quando falamos da Alma do Homem – que é Deus no Homem – podemos estar a confundir o conceito ou a levar outros a confundirem-se. Por isso, havendo uma só Alma, teremos de vê-la como a Consciência Absoluta, a Consciência Vivente de Deus onde se aplica com todo o rigor e propriedade Memória, Entendimento e Vontade. É apropriando-nos destas três potências que logramos navegar pelos processos de consciência. Neles, podemos atender aos três graus básicos tradicionais das escolas iniciáticas: Aprendiz, Companheiro e Mestre:

- Aprendiz –» Consciência Objectiva –» sentidos físicos

- Companheiro –» Consciência Subjectiva –» pensamentos, sentimentos

- Mestre –» Consciência Supra-sensível –» êxtase, projecção psíquica

Como é evidente, o processo de consciência inicia-se pela autoconsciência, que é a reacção dos seres vivos aos influxos da Consciência Divina. É por aqui que surge o entendimento da generalidade das escolas iniciáticas de que a mente é uma elaboração e expressão do fenómeno da consciência. Eu prefiro dizer que a Mente é o papel onde a Consciência se escreve (ou inscreve).

Se tudo isto for como aqui se diz, a consciência individual (inseparável do todo que é a Consciência Cósmica) não cresce verdadeiramente e quando dizemos que se expande, ou falamos em processos alterados de consciência, o que queremos dizer – ciente ou não do facto – é que a nossa capacidade de leitura na cartilha paternal que é a Mente Cósmica cresce; que a nossa memória, o nosso entendimento e a nossa vontade se encontram em perfeita sintonia e se identificam com as potências da alma.

ABDUL CADRE