quinta-feira, outubro 27, 2011
UM OLHAR CIBERNÉTICO
terça-feira, julho 05, 2011
A CONCEPÇÃO MATERIALISTA DA VIDA
Por muito que possa entender-se paradoxal, o facto é que mais do que uma vez tivemos a oportunidade de nos referirmos a José Saramago como um místico materialista.
Para quem tome esta classificação como um disparate, lembramos de memória uma entrevista deste Nobel da literatura, aquando da publicação do seu Evangelho Segundo Jesus Cristo. Disse ele que, visitando a Feira de Frankfurt, lhe pareceu ver num escaparate um livro precisamente com aquele título. Quando foi por ele, com a ideia de o folhear, ou comprar, já não estamos certos, constatou que afinal tal obra não existia. «Pois, se não existia, então eu tinha de a escrever», concluiu na referida entrevista.
Coisa apenas insólita?
Então remetemos quem tenha interesse e oportunidade para a entrevista que Maria Leonor Nunes fez a Saramago (JL nº 994 de 5 @ 18 de Novembro de 2008), a propósito da publicação de A viagem do Elefante. Na referida, recordando os episódios do estado de coma por que passou, o escritor disse coisas assim: «… Durante um tempo, talvez umas horas, um dia ou dois, apresentou-se-me, por exemplo, uma imagem com um fundo negro e quatro pontos brancos formando um quadrilátero irregular (…) … Tive a certeza que esses pontos eram eu. (…) Não foi imaginação. Vi e soube que eu era aqueles quatro pontos. (…) … Não havia traços fisionómicos, apenas a consciência de que podia estar reduzido a esses quatro pontos. (…) … Uma espécie de total despersonalização. Eu tinha deixado de ser quem julgava que era, ao mesmo tempo que me reconhecia nesses quatro pontos (…).
Estranho?
Quando se houve
alguém afirmar: «só acredito no que vejo», logo surge quem pense estar na presença de um materialista. Não está. O materialismo é uma outra coisa e não será assim tão paradoxal encontrarmos místicos materialistas.
Aquele que só acredita
no que vê desmentir-se-á a si próprio se nos disser que a Terra anda à volta do Sol, porque o que ele vê é precisamente o contrário. Quem apenas acredita no imediatismo dos sentidos despreza a razão. Ora, o materialista caracteriza-se precisamente pelo uso da razão. Usa-a por vezes tão fortemente que ela toma contornos de divindade, a divindade suprema da religião chamada ciência. A divinização dos nossos entendimentos cega-nos de modo similar ao dos fanáticos de hoje e aos grandes conversores medievais, por mais que os sinais sejam contrários.
Por muito que a Ciência se proponha afastar a crença, há sempre um substrato de crença em toda a experimentação/comprovação.
Quando falamos, por exemplo, de Big Bang — fenómeno que poderá ter acontecido, mas não tem irrefutável demonstração — não explicamos de modo científico a existência dos mundos e da vida, apenas imaginamos um princípio que a si próprio se desmente. Não se trata, como é óbvio, do grande início, porque se há explosão alguma coisa previamente existente explode, havendo por detrás da explosão um "bombista" que acende o rastilho.
Apesar disto que acabamos de dizer é bom ter em conta que as convicções e explanações dos materialistas são tão válidas quanto as de sinal contrário, porque pensadas, reflectidas e interrogadoras da verdade, desiderato que não se pode atribuir a quem se limita a crer, porque assim o ensinaram de menino, nem muito menos às fantasias dos criacionistas, obcecados e cegos, que pretendem submeter a realidade às suas crenças empedernidas, esgrimidas sempre «com a palavra de Deus» na mão.
Os materialistas sabem que a matéria é eterna — e nisso concordam com os espiritualistas — e acreditam na antimatéria, presumidamente do mesmo jeito eterna. Não podem é admitir que haja outras coisas igualmente eternas, que afinal até não são coisas e por isso não podem ser analisadas, retalhadas, criogenizadas, etc.
Eles não se importariam que Deus existisse, desde que fosse rã e pudesse ser dissecado.
Vida para além da morte? Nem pensar!
Afinal, tudo se resolve com três badaladas e um balde de cal.
ABDUL CADRE
quinta-feira, junho 02, 2011
PARA ESCONJURAR O MEDO
sábado, janeiro 01, 2011
SANTIDADES
Da rubrica FADO CORRIDO, no Diário do Sul, reproduz-se aqui a seguinte crónica
Vendas Novas, 01 de Janeiro de 2010
SE acaso podemos chamar de santo àquele que não peca, então não será exagerado presumirmos que a santidade sirva sobretudo ao santo. Por outro lado – é o prejuízo dos mais –, pode dizer-se que o pecador se enche de remorsos, que é coisa que dói muito na alma e talvez não compense o prazer que o pecado sempre dá. Além disso, numa etimologia possível, remorso significará morrer uma vez mais...
Dum ponto de vista pragmático, bom seria que a santidade fosse social e humanamente útil; que mais do que não praticar o mal fosse sobretudo praticar e ser o bem; que santidade fosse algo de contagiante, de epidémico, sem hipótese de vacina que a debelasse. Que a santidade nunca ficasse fora de moda, que fosse coisa de que todos pudessem servir-se, servindo, sem que tempo algum sobrasse para mortes repetidas, isto é, para o remorso.
Os leitores que me desculpem, mas de santos do ocidente cristão e dos seus congéneres orientais, por mais de que por eles não tenha vindo mal ao mundo, será simpático recordar-lhes os nomes em folhas de calendário, mas creio que pouco mais lhes devemos. Evidentemente que foi bom não terem contribuído – os que não contribuíram – para os males do mundo, mas certamente haverá alguns que melhor fora rasgarmos a folha do dia que os invoca.
Muitos dos aureolados são-no devido aos caprichos humanos, já que o céu não se pronuncia – não pode nem deve – e passaram por aqui como se nunca tivessem existido. Se na renúncia, na omissão, no amor a Deus fora do amor aos homens houver alguma libertação, talvez esses santos, inexistentes fora do nosso remorso, se tenham libertado a si próprios. Talvez! Mas desprezaram a sua e a nossa humanidade. Sobretudo, desprezaram o nosso desterro e não tiveram em conta a nossa própria incomparável e insubstituível libertação. As vias friamente piedosas que escolheram, por intransmissíveis, tornaram-se para nós recordações inúteis e armas de arremesso e constrangimento nas línguas desatadas de pregadores tristes em domingos equivocados. São, objectivamente, instrumentos cruéis do nosso remorso sempre crescente.
Eis porque me é tão cara aquela crença sufi de que bem melhor do que o santo é o sábio, servido este por uma santidade superior que partilha com os mais. O sábio que ascende ao saber real e distribui quanto pode aos famintos de espírito e aos dotados de boa vontade do quinhão que lhe cabe do maná celeste, que é a inteligência pura, é uma semente prodigiosa de humanidade e de futuro.
O sábio mostra, enquanto o santo esconde. O santo vem e o santo vai e só o nome fica, quando fica; pela passagem do sábio muda o mundo, muda o homem e até a matéria bruta se torna um pouco mais compassiva.
O altruísmo do sábio é o contraponto do egoísmo do santo.
A PROPÓSITO DE CAIM
Crónica publicada no Diário do Sul
Vendas Novas, 4 de Novembro de 2009
OS AMORES e os desamores que Saramago concita alimentam-se muito mais da sua assumida militância político-partidária do que da sua qualidade indiscutível e originalidade de escrita, sendo que a generalidade das críticas e diatribes que lhe são dirigidas provêm invariavelmente de bocas e penas de quem o não lê ou o faz apenas com ligeireza.
Não posso deixar de recordar aqui que o «originalíssimo ex-ministro Lara lhe censurou o Evangelho Segundo Jesus Cristo, sem o ter lido sequer, e que aquele ilustre desconhecido a quem calhou a sorte de ser deputado europeu, o tal que nega a Saramago a qualidade de português, declarou urbi et orbi que não leu Caim, nem o fará, pela desrazoada razão de ser católico, embora não praticante. Feitios.
Se alguém diz: «sou nadador mas não sei nadar», não será levado a sério, mas português comum adora dizer que é católico sem praticar... e ninguém se ri. Como consegue tal proeza é para mim um enorme mistério.
Bom, indo ao que mais interessa: Saramago, que produz a sua ficção utilizando invariavelmente o método de partir do irreal para o real, do impossível para o lógico realizável, lembrou-se de pegar na Bíblia, catar, no Antigo Testamento, uns episódios dos mais popularizados e submetê-los todos a Caim. Episódios estes tomados completamente à letra, sem direito a qualquer possibilidade metafórica, numa leitura mais restrita que de advogado a decreto-lei, que sempre falará do seu espírito. A partir daí, vá de negar coisas em que ninguém acredita, mas que ele julga que são a essência doutrinal condicionadora das múltiplas crenças que se inspiram na Bíblia. Nada de concessões à lenda, ao mito e ao maravilhoso. Nada de se preocupar com aquilo que podemos chamar de níveis de interpretação de um texto, seja pela perspectiva histórica, seja pela perspectiva filosófica.
Ora, sendo a Bíblia uma obra literária produzida ao longo de milhares de anos pela pena de inúmeros e díspares autores, é evidente que teria de reflectir as suas vivências e entendimentos, naturalmente com os condicionalismos resultantes de cada lugar e momento. Não podemos, ou antes, podemos mas não devíamos, ater-nos à letra que mata, fazer interpretações restringidas ao mais primário literalismo e o pior de tudo: ver o ontem com os olhos de hoje, como faz Saramago, passando à margem de qualquer alegoria, símbolo ou contingência moral segundo o circunstancialismo histórico e geográfico.
Quando se confronta o laureado escritor com estas insuficiências, ele diz que não tem de interpretar, só tem de ler o que lá está em letra de forma. Neste aspecto, não será abusivo dizer-se que, por razões inversas, pede meças aos prosélitos das Testemunhas de Jeová e torna merecedores de crédito os fundamentalistas cristãos, todos tomando a Bíblia como a palavra de Deus, em vez de a ver como a palavra os homens a tentar explicar o que não sabem para dar consistência ao que crêem.
De qualquer forma, lido Caim, não se percebe onde está o escândalo nem o motivo das polémicas desbragadas que por aí se agitam. Digamos que o livro é bastante divertido – mais no sentido sarcástico do que no humorístico –, não distorce o texto bíblico, mas é uma obra menor que fica uns pontos abaixo das tolices do Dan Brown. Tem algumas imprecisões. Os amores de Caim e Lilith não têm suporte bíblico e parecem introduzidos para dar algum sabor erótico à novela. Segundo a tradição judaica, Lilith era um demónio que foi a primeira esposa de Adão, antes que Eva fosse criada.
O capítulo mais interessante do livro – o 13º e último –, parodia o Dilúvio. Por curiosidade se diga que este mito não é original, é uma adaptação de um texto bem mais antigo: A Epopeia de Gilgamesh.
Para terminar, é bom que se diga que todos os remoques que têm sido debitados gratuitamente sobre as tentativas de Saramago provar a inexistência de Deus são completamente descabidos. O homem limita-se, dentro de um direito que ninguém lhe pode negar, a justificar o seu ateísmo e merece que o julguemos suficientemente inteligente. Uma pessoa inteligente não procura provar nem a existência nem a inexistência de Deus. Crenças e descrenças não podem ser levadas à retorta.
SE ME DISSER O QUE É DEUS...
Da minha rubrica Fado Corrido, no Diário do Sul , transcrevo aqui a seguinte crónica:
Vendas Novas, 12 de Novembro de 2009
TENDO ainda como referência as espúrias polémicas reactivas à última obra de Saramago, não me parece todavia que exista uma guerra entre ateus e não ateus, por mais que os seguidores de Richard Dawkins aluguem autocarros para garantirem que Deus não existe ou um qualquer aiatola lance uma fatwah contra os incréus. O que há, como é saudável, é discussão entre lídimas filosofias antitéticas.
Bertrand Russel, um dos fundadores da lógica moderna, , no seu livro Porque não Sou Cristão, explicava porque não se afirmava ateu, mas sim agnóstico. Ser ateu é ter uma fé, uma religião que defende o mistério da não existência de Deus.
E curioso. Fé é algo que se tem ou não se tem, não é do domínio do racional, mas a crença, sua irmã menor, é sem dúvida racional (ou racionalizável), mesmo que inviamente, porque crer é dar crédito ao que nos dizem.
Cada crente, atrevo-me a dizer, imagina Deus à imagem e semelhança do pai que lhe faz falta; discutir depois se Deus existe ou não existe, é algo de redondo, gratuito e mesmo inútil, uma ociosidade desvirtuada pelo enorme paradoxo de racionalizar a fé.
Já experimentaram racionalizar o amor?
Quaisquer «provas» que se usem para afirmar a existência de Deus servem igualmente para negar.
Quem assistiu na televisão, faz já muito tempo, às celebradas Conversas Vadias, talvez se recorde desta pergunta de Esteves Cardoso a Agostinho da Silva: «Acredita em Deus?»
Ao que o mestre respondeu: «Se me disser o que é Deus, pode ser que eu acredite, ou que não acredite...»
domingo, novembro 13, 2005
domingo, março 27, 2005
Para o que vive atento e de propósito: pecar, sim, desde que não seja pouco e, sendo caso disso, arrepender-se, desde que não seja muito, porque o arrependimento nasce da desatenção ao propósito e o pecado é a ausência deste.
002
Toda a actividade humana deve assentar na colaboração, na entreajuda. Partilhar é a meta! Amar é o meio!
003
Recusa todas as formas de violência e toda a competição que não seja estritamente desportiva. A quem advogue a competitividade, não apertes a mão. Não o farias com outro qualquer mau carácter, pois não?
004
Presta toda a atenção à voz inconfundível da tua consciência e não te envaideças nem te angusties com os ecos da tua reputação, porque enquanto esta é tão efémera quanto o eco que a transporta, aquela é tão permanente quanto o teu desejo de respirar. Pela primeira te conheces, pela segunda te confundes...
005
É importante a água, é importante a nora e é importante a besta vendada que caminha para que os alcatruzes rodem. Porém, saciar a sede é que é o objectivo.
006
Todos os caminhos são circulares! Para cada um o seu caminho, que é uma senda de enganos em permanente construção. Todos os caminhos convergem no ponto ALFA e no ponto ÓMEGA e os percursos fazem-se na equidistância do centro. Caminhar é um enigma e todos os enigmas são invenções da labiríntica mente humana. Segredo é sentar-se o caminhante à sombra da árvore baniana. Abandonar as sandálias. Abandonar o labirinto. Pôr fim aos processos ilusórios. Mistério é a atracção do Centro. Morte é acreditar-se na caminhada, na periferia e no fim do caminho, sem cuidar de que a busca é desejar o centro e merecer a alma, enquanto caminhar é apenas cansaço e pés doridos. Encontra a tua figueira e colhe a tua serenidade.
007
Homens e mulheres, colunas vivas de entre terra e céu, androginato perfeito pela diferenciação, ruína do templo quando a dualidade da natureza se confunde. Pelos contrários se acende a chama e se invoca a vida; pelos semelhantes se acumula a cinza no vaso da solidão e entre os destroços do templo traído se fica a invocar a morte.
008
O homem, ao identificar-se com o tempo, o espaço e os três limites dimensionais da matéria, paga em morte o exercício da vida e em esquecimento a travessia do tempo. Isto é necessário para que a matéria se torne inteligente até ao ponto de criar os seus próprios enigmas. E é necessário para que o homem comungue do sortilégio da inteligência pura e goze do privilégio de ser mensageiro da divina intenção, que o mesmo é dizer ser alquimista capaz de fundir o Enigma, o Segredo e o Mistério.
009
Para cada ser humano uma religião à medida do seu sonho e do seu amor por si próprio, pelos outros, pela natureza e pela inteligência total que possibilita a vida, a luz e o amor.
010
O Universo é um grande útero, e por isso é feminino. Percorre-o um desejo ardente, como se fosse luz, como se fosse fogo e esse é o masculino do feminino. A mulher, reflexo do Grande Útero Universal, é depositária do grande segredo que é a vida e guardiã do mistério da união dos contrários na consecução duma coisa só. No mundo actual, a coisificação da mulher é a construção da fêmea, a deturpação do segredo e a alienação do mistério.
011
Precisamos reencontrar os caminhos da emoção, porque o pensamento autêntico tem a sua génese na inteligência emocional; a razão é apenas a sua criada de quarto. Não se confunda, porém, a abertura emocional com o recurso às sensações em bruto, ao sensualismo e ao desregramento dos sentidos, que esse é o caminho onde os jovens de hoje se desencontram e envelhecem sem crescerem. Esse é o caminho — o não caminho — onde nos alienamos do SER, rendidos ao reino do TER, sem sombra sequer de utopia, numa ilusão apagada, num perpétuo sono sem despertar nem adormecer.
012
Num mundo carregado de avessos, onde o sonho murcha e o maravilhoso se abastarda, vivemos o mimetismo da vida...Não a vida.
013
De sete em sete anos, cada um de nós é outro, permanecendo todavia o mesmo, eventualmente mais sábio, mas sem dúvida mais perto da morte do que no dia do nascimento. Esta é a reencarnação da memória, que é o elo de ligação entre o ontem e o hoje. Coisa frágil, a memória, toda ela feita de recordar e de esquecer!
014
Nenhuma espiritualidade merece esse nome se ofende a nossa inteligência; nenhuma religião se justifica em prejuízo da verdade; nenhuma ideia é digna de atençaõ se fere a dignidade da pessoa humana.
015
Há que estar prevenido contra a falsa humildade dos que se escudam com a «palavra de Deus» e a memória dos santos para condicionarem o comportamento dos outros e o destino do mundo. Como pode ser humilde aquele que se vangloria de ter do Alto procuração segura e verdadeira?
016
Inegáveis que sejam os impropriamente chamados poderes paranormais; por mais construtivos, por mais louváveis, por mais úteis que possam ou pareçam ser, que não fiquem dúvidas quanto a isto: eles são apenas e sempre marginais e acessórios, porque todos estes fenómenos (reais ou aparentes) e todas as técnicas que os induzam devem visar a auto-realização e não o feérico e o circense.
017
A imaginação, inventando, inventando, inventando na mais saudável das mentiras mais-que-verdade, debulha o caos e rejuvenesce o mundo, dá ao inexplicável dum momento coerências de descoberta e evidências inesperadas; depois, vem sobre ela a Ciência pesada e fria e ordena a particularidade efémera das coisas, despindo-as do segredo, alienando-as do mistério. Inexorável como um carrasco inevitável, ela explica como pode o que o tempo deixa. Na sua coerência e lógica tudo arruma e delimita rigidamente, exigindo à imaginação que se renda. Então se vê que um passo mais aquém fica a utilidade e um passo mais além a poesia, a religiosidade e até mesmo a loucura. E não nos iludamos: no meio não está a virtude, apenas a dormência da alma. Tenhamos a compreensão necessária para sabermos que é muita sorte a nossa existirem loucos e existirem poetas, que não deixam morrer a invenção dos dias sempre novos no canteiro dos sonhos sempiternos.
018
Há mais arte no rio que, de águas revoltas, nos faz imaginar e construir uma ponte entre as suas margens do que em todo o engenho posto na construção. Ligadas as duas margens, só voltaremos a ser estimulados pelo rio, a atendermos os seus apelos, quando o tempo que tudo consome ou a violência dos elementos derrubarem a construção. Aí saberemos quanto o nosso agir ficou aquém do induzido desejo. Saberemos também de atávicos receios que a boca vai calando e o orgulho mal disfarça.
019
Presta toda a atenção à voz inconfundível da tua consciência e não te envaideças nem te angusties com os ecos da tua reputação, porque enquanto esta é tão efémera quanto o eco que a transporta, aquela é tão permanente quanto o teu desejo de respirar. Pela primeira te conheces, pela segunda te confundes...
020
Quando o som e o silêncio se tornam indistintos, só o ruído cabe onde a música é impossível. Nos dias de hoje, onde só o mercado tem voz, não se procura na música a medida de ouro, mas sim o ouro sem medida.
021
Há quem entenda que morrer é nascer do outro lado da vida (e vice-versa) e que a morte é a forma possível para a matéria ter consciência de si própria. Ciências há que o querem demonstrar. De qualquer forma, se olharmos cada indivíduo como uma simples célula dum corpo maior (a Humanidade) e encararmos o fenómeno como idêntico ao duma célula do nosso corpo, etc., veremos que este é um processo de perenidade (para não dizer eternidade) e que aquilo a que se chama morte é apenas esquecimento.
022
Há uma generalizada ignorância de muita coisa que poderíamos dizer importante, ou mesmo essencial, o que não há é ignorância em geral. Os ignorantes com que nos cruzamos sabem sempre coisas que nós ignoramos. Eles e nós andamos por caminhos desencontrados e, quando nos cruzamos, até a simples saudação tem o sabor do constrangimento.
023
Aprender é repetir o que se ignora até que se saiba e o que se sabe até que se esqueça. Mas se o saber diz, a sabedoria cala
