segunda-feira, agosto 03, 2015

MEDITAÇÃO

Histon, Cambridge, 02 AGO 2015

Com propriedade ou sem ela, há muita prática mental a que, não o sendo verdadeiramente, ou não o sendo no sentido do êxtase, da contemplação, é uso chamar de meditação,.
Muitas dessas práticas não ultrapassam o nível de exercícios de pacificação e condicionamento mental, caracterizando-se comummente pelo uso da auto-hipnose, do pensamento criativo, da reprogramação neuro-psíquica e toda a sorte de induções imagéticas.
Ora, todas estas práticas, independentemente do método ou sistema seguido têm um handy cap incontornável: carecem da liberdade essencial que constitui a não sujeição a modelos. Estabelecer ou aderir a condições prévias impede o verdadeiro estado meditativo, ou êxtase.
Contorcionismo, posições exóticas, mantras, música celestial podem induzir um relaxamento profundo, mas não nos livram da tagarelice da corrente do pensamento nem do desejo de alcançar algo, de ter um objectivo, quando o verdadeiro estado meditativo se caracteriza pela morte do eu que o pensamento inventou com a cumplicidade do tempo. Querer calar o pensamento é todavia pensar e esta mesma intenção é de qualquer forma um desejo, o assumir de um objectivo.
A meditação exige um estado contemplativo (um estado inclusivo de observador, observado e circunstância) proporcionado pelo silêncio e pela atenção; uma ausência de conflito, o qual é inevitável quando o pensamento joga a sua dialéctica do prazer e do remorso.
De meditação, sobram os gurus que a moda acomoda e sobram os processos ilusórios de fuga e rendição.
Faz alguns anos, naqueles encontros havidos na casa do Professor Agostinho da Silva, apareceu por lá um desses gurus em sobra, tido como destacado dirigente de um certo grupo esotérico (?) que resolveu, vejam bem, ensinar o Professor a meditar. «Ó Professor, faça assim, ponha as mãos assado». Até que o visado, incomodado com tanta presunção e estontearia, exclamou: «Ó homem, deixe-me! O que é que pensa que eu faço todo o dia?»
É isso. A meditação só pode ser o que fazemos todo o dia, tem de estar em todos os nossos actos, num modo de atenção e percepção que nos conduza ao autoconhecimento, porém, o autoconhecimento não é o que mais comumente se pensa que seja.
Ilude-se aquele que afirma conhecer-se – eu conheço-me muito bem – porque só se conhece quem não julga nem se julga, quem não projecta no eu os seus desejos e crenças, a sua sombra, na linguagem junguiana. No autoconhecimento não se fazem conjecturas nem juízos morais sobre o que somos ou não somos, apenas se percebe o que somos com todas as nossas características indivisíveis em conceitos de vícios e virtudes.

Não há meditação sem autoconhecimento nem este sem aquela. Sem autoconhecimento, o que quer que se entenda ou faça como meditação é do domínio do ilusório, da sujeição aos caprichos, aos modelos, às crenças, às superstições, tudo coisas que nos limitam, quando a verdadeira meditação, que podemos chamar de êxtase, ou de contemplação implica liberdade plena. Tal liberdade exige romper com o fluxo do pensamento e quebrar as cadeias do próprio conhecimento, todo ele feito de memórias encadeadas e raciocínios tramados pelo tempo passado. Todo o conhecimento produzido pelo intelecto é uma arqueologia, um reviver do passado, uma coisa morta – todo o passado é morte – uma negação da eternidade. Damos de barato que é a nossa circunstância, mas contrapomos que não é a nossa natureza mais íntima, a qual só perscrutamos quando o tempo se dissolve, o pensamento se detém e a mente se aquieta.
Abdul Cadre

quarta-feira, janeiro 07, 2015

A CONSCIÊNCIA

Vendas Novas, 06 JAN 2015

  • A ciência, aquela abstracção a que chamamos ciência real ou concreta, é sempre como aquelas casas para cuja ampliação se aproveita cantaria de outras.

Agostinho da Silva

Há conceitos que se usam com o maior dos à-vontades como se fosse pacífica a sua invocação e unívoco o seu entendimento. Tal é o caso, entre muitos outros, de «consciência». Afinal, quando dela falamos, de que falamos verdadeiramente?

Elaborados ou não, vários são os entendimentos. Por exemplo, confunde-se bastas vezes carácter com consciência quando, se atentarmos bem, o primeiro refere-se à disposição habitual e à reposta comportamental típica consequente ao temperamento e à sensibilidade, enquanto a última é aceite geralmente como significando a percepção do dever, o sentido do bem e do mal.

Mas temos mais.

Perante um acto impensado e perigoso, diz um amigo ao outro: és um inconsciente; daquele que trabalha com muito esmero e responsabilidade, diz-se que é um trabalhador muito consciente; da vítima gravemente ferida num acidente de automóvel poderá dizer-se: está ainda encarcerado, mas perfeitamente consciente...

Em português, consciente tanto pode querer dizer «que sabe que existe» (autoconsciência), como «que sabe o que faz», que é cônscio, sabedor, ciente. É o «concienzudo» castelhano, que se pode traduzir por cuidadoso. E vale a pena lembrar que na língua castelhana, que muitos chamam língua espanhola, temos o termo «conciencia», que é a consciência conotada com a moral e o termo «consciência», que significa conhecimento. O interessante, como curiosidade divertida, é que muitos portugueses, conhecendo ou não o castelhano, em vez de pronunciarem consciência, pronunciam erradamente conciência, que é um termo que a língua portuguesa não regista nem está previsto nas tropelias da aberração conhecida como «acordo ortográfico».

É evidente que a polissemia do termo pode confundir a conversa e obnubilar o entendimento, e do que queremos falar é de consciência em sentido mais restrito do que o corrente mas de modo algum tão restrito que fique subsumido ao sistema individual de valores morais, ao certo e ao errado da conduta, sem prejuízo, no entanto, de querermos privilegiar a vertente metafísica do assunto, mas sem descurar os importantes e significativos aportes dos grandes investigadores da ciência académica da Psicologia.

Queremos também que não se confunda mente com consciência e se aceite que cada ser humano, sendo uma unidade de consciência, transporta em si, em cada célula, em cada órgão, unidades escalonadas dessa mesma consciência.

Para a ciência moderna, mente e consciência são produtos da actividade cerebral. Platão e Descartes não entendiam assim, defendiam mente e cérebro como entidades separadas. Se nos perguntamos se são os acontecimentos baseados no cérebro que causam a experiência consciente ou se é a experiência consciente que causa mudanças no cérebro, não raro somos empurrados para a velha história do ovo e da galinha. Entendemos perfeitamente que a ciência se preocupe apenas com o que ode pesar e medir e que reduza a consciência à electroquímica, às ondas e às localizações cerebrais. No nosso entendimento, que não é científico, tudo isso nos parece pouco, porque é apenas a parte visível (digamos assim) de um imenso iceberg; é a redução da consciência aos fenómenos do comportamento, da atenção e da percepção. Todavia, por mais que seja um handy cap não sermos cientista, e sem carregar excessivamente na perspectiva metafísica, diríamos que a consciência individual – o eu – é um processo potenciado pela consciência humana global, sendo esta infundida pela consciência cósmica que emerge da mente total e absoluta, que muitos designam por Deus. Como energia subtil, é universal; como função, é critério nos humanos e instinto de sobrevivência nos animais e no que em nós há de animal.

Eis então que a nossa assim delimitada consciência constitui um processo mental, certamente com implicações fisiológicas, mas não apenas, não meramente um processo fisiológico. Do nosso ponto de vista, não é um produto do cérebro, sendo que este é, sobretudo, um interface entre o soma e a psique. Veja-se, por exemplo, que as amibas não têm cérebro e todavia têm consciência, não ao nosso jeito, como é evidente, mas ao jeito delas.

É nossa convicção que não foi o cérebro que inventou o pensamento, mas que foi o pensamento puro – que é uma potência cósmica – que infundiu e desenvolveu essa estrutura em nós. A nossa mente é o reflexo em nós da mente cósmica, o que implica entendermos que tudo é mente, que o universo é mental. É por isso que a nossa mente (individualmente considerada) não é tão independente quanto comummente se julga, pois está mergulhada no mar imenso da mente humana colectiva de hoje e de ontem e nem sequer está apartada da sua infusão nos reinos vegetal e animal, dado sermos um com todos os seres.

Do ponto de vista esotérico, a mente é parte da alma e da personalidade, ressalvando-se desde já que a utilização destes termos e destes conceitos é tudo menos pacífica.

Também não será pacífico dizer-se que a razão, a intuição, a emoção, a imaginação, a criatividade e a erudição, por exemplo, são produtos básicos da mente. Assim sendo, então a consciência humana identifica-se claramente com este compósito, susceptível de conduzir quer à sabedoria, quer à santidade, ou ao contrário de uma e outra coisa, por inversão de polaridades.

Conclua-se então que os nossos órgãos físicos são estruturas desenvolvidas pelas necessidades funcionais, porque é a função que determina o órgão, não é o órgão que inventa a função.

Não foi a caneta que inventou o escritor, pois não?

Para interpretar o mundo terrestre e nele agir adequadamente, desenvolvemos os sentidos físicos que tal possibilitaram: cinco virados para o exterior e vários outros (virados para dentro), tendentes à protecção e conservação do corpo. Estes sentidos são assim faculdades objectivas ao serviço das nossas faculdades subjectivas, mormente da capacidade reflexiva.

Dando tudo isto como bom, facilmente entenderemos que a vida é a grande função de que o nosso soma é a estrutura global da nossa acção mundana, o nosso grande veículo neste plano de manifestação. Nesta estrutura, os sentidos (os órgãos dos sentidos) permitem-nos – permitem a todos os seres vivos – reagir no seio da nossa circunstância. Pela razão, – e a razão, como atrás dissemos, é um produto da mente – a nossa reacção torna-se racional e inteligente; a consciência, através dos sentidos, faz de nós seres sensíveis.

Todas as células do nosso corpo estão impregnadas de consciência, toda a nossa bioenergia a reflecte, porque, sendo um produto da alma, age sobre todo o ser e sobre todos os seres.

Então, está errada a ciência?

É evidente que não. Ela apenas se ocupa do que deseja ocupar-se e a metafísica não lhe diz respeito. Da consciência estuda a parte objectivamente constatável, os fenómenos que resultam da percepção, da memória, da razão, da inteligência funcional, do básico, digamos assim, daquilo a que os metafísicos chamam actividades da consciência objectiva, sejam elas automáticas ou voluntárias. O mais longe que a ciência académica se atreveu, aliás com bastante relutância, prende-se com as propostas despoletadas por Freud e por Jung, nomeadamente com a introdução do conceito de inconsciente, que é algo que afinal não se mede e nunca foi localizado, seja no cérebro, seja em qualquer outro lugar físico, o que constitui, naturalmente, uma grande contrariedade.

Como diria Schiller, a percepção sensorial e a autoconsciência manifestam-se independentemente da nossa própria vontade e do nosso conhecimento. E ainda bem, acrescentaríamos nós, para nossa segurança e comodidade. Todavia, sem a vontade, que é a consciência em acto, e sem o conhecimento, que é sobretudo evocar e relacionar campo da memória, não nos distinguiríamos dos animais tanto quanto nos distinguimos, ou nos julgamos distinguir.

Os automatismos inscritos na nossa consciência objectiva, actuando através do nosso sistema nervoso, dos nossos sentidos e coordenados pelo nosso cérebro, automatismos a que poderíamos chamar pré-consciência, ou consciência elementar, podem e devem ser condicionados pela vontade e pelo propósito, pois que o descontrolo desta consciência elementar constitui uma alienação e, sob o ponto de vista dos costumes, leva à corrosão dos critérios do bem, do belo e do justo; sob o ponto de vista da sanidade física e mental, conduz à neurose e mesmo à loucura.

Para finalizar, por mais redundantes que possamos ser nesta exposição, julgamos que o que importa reter é que a consciência humana – colectiva ou individual – é um reflexo (uma infusão) da consciência cósmica global, não reside no cérebro, contrariamente ao entendimento maioritário dos cientistas. Ela é um atributo da Alma, agindo nas dimensões corpóreas e incorpóreas do ser humano, utilizando o corpo físico por inteiro e não apenas o cérebro, embora este tenha privilégios de comando e coordenação.

O cérebro é, com certeza, uma grande obra da nossa evolução; enorme, porém, é a função que o determinou e requer.

ABDUL CADRE

quarta-feira, outubro 08, 2014

DESTINO E LIVRE-ARBÍTRIO

«Não podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremo-lo no passado».

Fernando Pessoa

Vendas Novas, 8 de Outubro de 2014

Nos meios dados ao ocultismo, aceita-se com demasiada facilidade, com pouco espírito crítico crenças desconexas e até, em muitos casos, contraditórias. Digo intencionalmente ocultismo e não esoterismo porque tomo o primeiro como dogmático e o segundo com especulativo.

Por mais que se diga que acreditar não é saber, crê-se, sem prévia interrogação, no livre-arbítrio ao mesmo tempo que se aceita que os astros comandam o destino e que tudo se explica – sem explicar – pelo carma, defendido como uma lei mecânica – deste-me agora um pontapé como retribuição daquele que eu te dei numa vida anterior – e isto é rendermo-nos ao fatalismo, é demitirmo-nos do dever de agir. É, bem vistas as coisas, renegarmos o que afinal sempre acabamos por afirmar: carma, como acção e consequência, não é um perpétuo pontapear, é uma forma de ajustamentos compensatórios.

O fatalismo é curável, agindo inteligentemente; não pode compadecer-se com a falta de um propósito correcto, que é vivermos por vontade própria, não nos iludindo com o vão desejo de ser outro e não nós próprios.

É aqui que caberia dizer-se: cumpro o meu destino através da minha vontade esclarecida no seio da minha circunstância. Ou, recordando Agostinho da Silva: o meu destino é a minha liberdade.

Mas o que conviria dizer-se, mesmo que contrariando os adeptos de leituras da sina, é que o livre-arbítrio subverte qualquer fantasioso destino traçado, seja porque o vimos nas cartas, seja porque no-lo disseram escrito nos astros.

Como diz o provérbio antigo, quando estás à mesa, nada acontece à tua boca se a mão não ajudar. É que tudo se passa como se cada um de nós se integrasse num jogo de sueca: as cartas que temos na mão, o parceiro que escolhemos e os adversários que aceitámos são a nossa circunstância, isto é, as linhas do destino; a nossa contínua aprendizagem e experiência, a nossa intuição, a nossa habilidade, a nossa inteligência e a nossa vontade serão o cimento da nossa liberdade, constituirão o livre-arbítrio. É este que determina, em última instância, a sorte do jogo, contrariando ou não o que digam as cartas.

Não agir, como querem certos orientalismos, para não gerar carma, é uma completa estultícia. Quando não fazemos as coisas, são as coisas que nos fazem a nós e é batota desculparmo-nos com o destino, e que bem diziam as cartas, os astros, os búzios, etc.

E não vale a pena dizer-se – como disse um dia o sueco Stig Dagerman – que o que é perfeito labora em estado de repouso, porque é evidente que não somos perfeitos, por mais que nos esforcemos por isso. Crê-lo seria uma pesporrência tola. Aliás, os ocultistas não se cansam de dizer que andamos aqui para aprendermos. Ora, se a aprendizagem for apenas livresca, podemos recordar com proveito os dizeres de Tomás de Kempis: «quem muito lê e sabe, se não actua de acordo com o que aprendeu e sabe, é como se, convidado para mesa requintada e farta, se levantasse dela vazio e famélico». Porque, no dizer de Swami Vivekananda, «a teoria que não encontra aplicação na vida, é uma acrobacia do pensamento».

Pois bem, então estamos aqui para aprender. Muito bem. E o que significa aprender? Admitamos que aprender é ganhar experiência, o que não se deve confundir com adquirir perícia. Perito é aquele que repete o mesmo gesto tantas vezes que poucos se lhe igualam; não se trata de ser experiente, porque a experiência é plural, envolve conhecimento para além de qualquer específica habilidade. Convém chamar aqui Aldous Huxley: «a experiência não é o que aconteceu a um homem, mas o que um homem fez com o que lhe aconteceu».

Ou seja, a vontade e o livre-arbítrio sobrepõem-se ao destino.

Se chove, é bom que se abra o guarda-chuva.

Abdul Cadre

domingo, maio 06, 2012

A PROPÓSITO DA REENCARNAÇÃO

 

VENDAS NOVAS, 6 DE Maio de 2012

Escrevo a propósito da reencarnação, mas não do propósito da mesma, porque isso seria envolver-me em algo a que me esquivo o mais que posso, pois não me cabe catequizar ninguém, apenas me disponho a apresentar perspectivas pessoais e indicar fontes que considere interessantes.

Podemos ver a reencarnação numa perspectiva imediatista e restrita, o que não obsta, antes pelo contrário, a que submetamos tal perspectiva aos seguintes pressupostos

1) – A vida humana manifesta os dois opostos fundamentais integrantes do seu processo de renovação permanente: NASCER e MORRER.

2) – Nascer e morrer são transitoriedades, um processo pelo qual a consciência navega entre planos e assume estados evolutivos do ser.

3) – A morte caracteriza-se pela desagregação material e pelo esquecimento.

Postos estes quesitos, aceitemos ainda que nascer envolve morrer-se um pouco em cada dia, como inevitabilidade, e reencarnar a cada minuto, como assumpção. Viver plenamente é ter o entusiasmo da assumpção, dado que o contrário fará de nós apenas cadáveres adiados que procriam, como diria Pessoa.

Relembremos que a palavra entusiasmo deriva do grego «enthousiasmós», que quer dizer inspiração divina...

Cingindo-me, então, a escrever «a propósito», começaria por dizer que não existe um conceito pacífico e unívoco do que seja a reencarnação, tal como não existe para Deus. Em ambos os casos, encontraremos sempre quem negue e quem afirme, os que acreditam e os que não acreditam, e, dum lado e do outro das respectivas barricadas poucos cuidam das distinções, como se tudo estivesse claramente definido; como se cada um que com outro parece concordar concordasse mesmo e aqueles que discordassem em nenhum ponto pudessem estar de acordo.

Quem acredite na reencarnação e quem não acredita na reencarnação – uns e outros – não poderá provar nem a forma como acredita nem muito menos explicá-la convincentemente, mormente à luz da ciência.

Todavia, mesmo nos meandros da investigação submetida aos critérios da ciência, crescem os indícios de que a consciência sobrevive à morte física. Neste aspecto, há uma obra de excepcional interesse, intitulada «O que Acontece Quando Morremos», da autoria do Dr. S. Parnia, obra que vem na linha dos trabalhos publicados pelo Dr. Raymond Moody, v.g. «A Vida Depois da Vida».

Pode dizer-se que o interesse da ciência – o interesse académico – pelas possibilidades da sobrevivência da consciência se vem consolidando desde há mais de trinta anos, embora a nada de conclusivo esse interesse tenha chegado, permanecendo o presumido fenómeno da reencarnação confinado à metafísica. Neste campo, como é óbvio, as diversas posições a respeito envolvem muita controvérsia e muito desajuste.

As religiões em geral defendem a sobrevivência da consciência à morte física, mas nem todas aceitam a reencarnação, havendo até as que veementemente condenam tal crença, nem sempre por simples razões teológicas e estritamente doutrinais. De qualquer forma, há duas perguntas fundamentais que se podem e devem fazer:

Primus – O que é a reencarnação?

Secundus – Aceitando-a, o que é que reencarna?

Do meu ponto de vista, os livros populares ditos de divulgação esotérica – eu chamar-lhes-ia de confusão esotérica –, nomeadamente a literatura light inserida no fenómeno new age, têm espalhado um ror de crenças muito aceites, apesar de pouco aceitáveis, quer sob o ponto de vista metafísico, quer no âmbito religioso mais geral, quer especialmente e por maioria de razão no que respeita à Tradição. A facilidade com que se leva as pessoas a acreditar que se morre e se nasce como quem simplesmente muda de camisa, chega a ser chocante, podendo levar os mais desprevenidos à diabolização da carne e ao desprezo doentio do corpo.

Este que aqui escreve está convencido de que, quando morrer, morre definitivamente, por mais que quem o manda escrever e lhe orienta a mão lhe sobreviva e vá orientar um outro personagem, a quem lembrará ou não o que o tempo consumiu. No respeito a esta lógica, quiçá desagradável para muitas crenças profundamente instaladas, creiam que ele – que sou eu – não foi numa «outra vida» o Napoleão nem o D. Afonso Henriques...

Se eu me recordar de ter sido uma ou outra destas figuras históricas, não será por eu ser delas uma reencarnação, mas por mor de um outro fenómeno menos divulgado, que faz com que tudo esteja em tudo, de que poderemos falar em outra ocasião. E, no entanto, creio haver em mim um princípio individualizado, que se vem formando há milénios, servindo-se de diversos corpos físicos e constituindo-se naquilo que os rosacruzes chamam personalidade-alma (ou personalidade da alma). Se esta for a realidade, então, neste momento, a minha personalidade-alma, que é uma espécie de contra-regra no meu teatro particular, ao serviço da alma humana, é uma súmula, uma resultante, um compósito de muitas vivências (não apenas uma). É por esta razão que eu digo que não fui esta ou aquela personalidade conhecida, nem aqueloutra desconhecida e afirmo muitas vezes, para desespero dos crentes, que eu não tenho alma, é a alma que me tem a mim, sendo minha obrigação reflecti-la quanto possa. O mais que possa, todavia, nunca é quanto devo.

ABDUL CADRE

sábado, janeiro 14, 2012

PERSPECTIVAS

 

Imaginemos um pintor, diante da sua tela, em retoques finais, Acaba de pintar o que nenhum outro pintou ou pintará, mesmo que o seu quadro do momento possa não ser muito original.

Se for um grande pintor, aquela combinação única de luzes e sombras dar-nos-á a ilusão de algo vivo, que respira e vibra, aflorando-nos o mais íntimo do sentir.

Milagres destes conseguem-se afinal com pincéis, telas e tintas que se podem comprar com pouco dispêndio na loja do chinês. É, portanto, uma coisa ao alcance de qualquer um, mas convenhamos que não é qualquer que se dispõe sequer a aprender os rudimentos da arte, para vir mais tarde a aceitar o desafio da tela em branco.

Um pintor, mesmo que abstraccionista, é de imagens que se alimenta, é pela imaginação que realiza o que a tela, as tinas e os pincéis permitem e a sua sensibilidade proporciona.

Aceitemos agora que isto não é só válido para a pintura e que, mutatis mutandis, todas as artes vivem disto e é nisto também que a arte da vida assenta. Se a percentagem daqueles a quem podemos chamar artistas plásticos é pequeníssima, mais pequena ainda é a percentagem dos que dominam a arte de viver estética e conscientemente em todos os seus níveis. Para uns e outros há algo de essencial, condição sine qua non do seu mister: liberdade de espírito, liberdade de expressão e livre pensar. Deixe-se o pintor aprisionar pelos cânones estabelecidos e ele perder-se-á na redundância e na esclerose; submeta-se o artista da vida ao peso das gerações mortas, ao que parece bem e ao sempre foi assim e a sua alma estiolará, porque a alma é uma flor mimosa, demasiado frágil para viver obscuramente: murcha quando a aprisionamos. O melhor adubo que lhe podemos dar é pensar livremente, inventando e criando o mundo a cada dia, como se fôssemos afinal um grande pintor perante a tela em branco.

No contexto acima, quando falo em alma não me refiro à alma humana em que nos inserimos como espécie, tida entre os espiritualistas como reflexo da alma divina, nem sequer à totalidade psíquica da construção da individualidade a que os rosacruzes chamam personalidade-alma, falo da base mortal em que esta última assenta: a sensibilidade, a emoção e os sentimentos. É de sensibilidade e emoção que falaremos mais adiante.

É pela sensibilidade e pela emoção, enaltecidas e exacerbadas, que entramos no campo vasto dos sensitivos e dos fenómenos psíquicos. Então, suponhamos agora alguém que tem frequentes visões, sonhos lúcidos, premonições e intuições de grande pertinência e acerto, sensações incomuns, os objectos em que toca despertam-lhe imagens vívidas de díspares acontecimentos, etc., etc. Chamamos-lhe o quê? Psíquico, como dizem os saxónicos? Sensitivo, como se diz em Parapsicologia?

Com estas condições, podemos estar perante um potencial artista da vida, se ele e a vida não decidirem entretanto outra coisa. É que pode a família levá-lo ao psiquiatra e este ache por bem diagnosticar-lhe uma esquizofrenia. De imediato, com drogas, choques eléctricos e outras torturas em que é pródiga a nossa esclerosada sociedade, aprisiona-se tão inconveniente psiquismo até à insensibilidade de um repolho.

Pode também este imaginado psíquico ter medo de quanto em si não é comum e negar o que a vida lhe escolheu. Poderá, no livre exercício da sua vontade, obter resultados idênticos aos das drogas e dos choques eléctricos da psiquiatria medieval que ainda prevalece. Basta que queira. Basta que fuja.

Neste preciso momento, convém que recordemos o que atrás se disse sobre a liberdade do artista, a não submissão aos cânones.

O sensitivo que queira ser um artista da vida não deve submeter-se a quaisquer critérios que lhe queiram impor, sem prejuízo de aprender com os seus iguais e com os consagrados os segredos particulares de cada uma das suas realizações. Não é bom para o sensitivo deixar-se reprimir pelos membros das igrejas estabelecidas, que vêem o diabo a dar ao rabo em cada esquina e em cada pessoa ou coisa que não entendam ou de algum modo contrariem os limites das crenças em que se deixaram aprisionar, mas não se deduza de imediato que é mais avisado ir pelos conselhos dos curiosos, venham eles do esoterismo em geral, do espiritismo, do ocultismo popular ou da fantasia à solta. Dizia George Bernard Shaw: «não me dêem conselhos, deixem-me errar por mim próprio».

Não devemos aprender dos outros, mas sim aprender com os outros, mesmo que os entendamos tão-só por reflexo mecânico do que nós próprios somos.

Por tudo isto, o que quer que seja que eu diga só terá valor pelo despertar que consiga das palavras e sentimentos eventualmente adormecidos na almofada desatenta de quem oiça ou leia, porque o que cada um pensa só é verdadeiramente importante para si próprio, embora cada um pense tanto melhor quanto mais for capaz de entender o mundo e o que pensam os outros do mesmo mundo. Todavia, melhor que pensar é ser pensado, isto é, ser cosmoagido e não perder em momento algum a noção de que neste plano concreto e material da existência de pouco serve o pensar que da experiência de vida se divorcie.

Ninguém vive por interposta pessoa nem afere a validade do que pensa e do que quer para a vida e para o mundo sem agir. Em abstracto, todos os pensamentos, mesmo que nos pareçam detestáveis, estão certos; na acção e na experiência é que se descobre o erro e quanto vale ou para que serve aquilo que se pensou, ou mesmo aquilo que nos pensou. Errar, reconhecer o erro e corrigi-lo é a maior virtude – não existe maior – que um mortal pode praticar. A outorga desta capacidade é aquilo que mais devemos agradecer ao cósmico e à nossa natureza. Isto porquê? Porque nascer cheio de virtudes não é virtude nenhuma, virtude é chegar à morte com um cabaz delas, o que só é possível confrontando-nos com o erro.

Cuidado, pois, com aqueles que acham óptimo que façamos assim ou assado, que dessa forma é que é bom para nós. Como sabem? Em que momento é que viveram por nós?

Como diria o professor Agostinho da Silva, cada ser humano «é uma estrela de incomparável brilho». Cada indivíduo é uma doutrina única, uma filosofia única, uma religião única, todas elas pessoais e intransmissíveis. Sem dúvida que podemos contagiar os outros – e isso é bom – ou tentar aprisioná-los – e isso é mau –, mas tudo o mais é nada, que mestra verdadeira é a vida e outro guru não há que nos valha.

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E veja-se: se a natureza, que é tão avara e inteligente naquilo que tão justamente nos proporciona, quisesse que duas pessoas pensassem da mesma maneira, não dava uma cabeça a cada uma, uma só cabeça chegava para as duas. Aqui, façamos um parêntesis, que eu não creio que a cabeça pense, julgo que seja tão-só uma espécie de antena parabólica ligada a um descodificador de pensamentos.

Abdul Cadre

sexta-feira, dezembro 02, 2011

DESALINHAMENTOS

Faz muitos anos, trabalhei para um judeu alemão que, na sequência da sua fuga ao nazismo, se havia estabelecido em Lisboa,. Uma das suas características mais marcantes era dominar a Língua Portuguesa de forma superior e muito difícil de igualar, o que, se por um lado, levava a quem com ele contactava a admirá-lo, era, por outro lado, motivo de algum despeito. Mais tarde, tive um professor de alemão, austríaco de nascimento, que se casou com uma portuguesa e se apaixonou por Portugal. Por estes exemplos e muitos mais, que seria fastidioso referir, fui-me apercebendo que os estrangeiros que se convertem ao nosso povo são, mais do que o são os naturais, patriotas por inteiro deste lugar e defensores quase religiosos dum passado que assumem e imaginam inteiramente seu, como se uma nova alma os tomasse.

Os portugueses em geral, em contrapartida, têm da sua cidadania uma visão obtusa, da sua História um conhecimento medíocre e, quanto à Pátria, só a sentem até aos limites da aldeia natal. Nos iletrados, sente-se ainda um leve patriotismo emocional, uma certa vontade de vibrar ingenuamente com o que, afinal, menos caracteriza a singularidade do seu lugar; nos letrados, o militantismo pretensioso de todos os modismos vazios – ontem francês ou italiano, hoje predominantemente americano – e uma vontade permanentemente expressa de denegrir tudo o que lhe cheire a português, fá-los pelo menos parecer aquilo que muitas vezes se atrevem mesmo a reivindicar: serem pouco virados para o patriotismo, que é coisa démodé, pois claro.

No entanto, uns e outros detestam – valha-nos isso – que gente estranha os amesquinhe, contrapondo aí inflamações avulsas e mitologias despidas de suporte.

Esta falta duma verdadeira consciência coletiva do ser português, penso que tem a ver com a falta de um autêntico escol, duma elite patriótica capaz de induzir um suporte intelectual aglutinador da emoção dispersa, capaz de fazer compreender que o nacionalismo pode ser – é quase sempre – a negação do próprio patriotismo. É que ser patriota é dizermos: vejam como é bela a nossa terra, apreciem, sentem-se à mesa connosco, comam do nosso pão e bebam do nosso vinho. Ser nacionalista é outra coisa, é dizermos: somos os melhores e não queremos gente estranha ao pé da porta. O nacionalismo baseia-se na exclusão; o patriotismo na assunção da diferença, no amor à diversidade.

Pode dizer-se que o chamado Estado Novo era naciona1ista e que nunca conseguiu fomentar o patriotismo; entre outras razões, por detestar a diferença e ter do escol uma noção provinciana. Assim, aque1es que promoveu como elite intelectual entretiveram-se a reinventar o passado, para dar coerência aos seus espúrios devaneios. Vem deste falso fu1gor a instituição de mitologias que nada acrescentaram ao nosso orgulho, nem tampouco puderam confirmar o pessoano refrão: «O mito é o nada que é tudo.»

Todavia, persistem sequelas. Ainda hoje há muito boa gente que acredita que descende dos lusitanos, sem se interrogar sobre o que terá acontecido às gentes dessas tribos federadas – que nem sequer eram etnicamente homogéneas – depois de os romanos as terem massacrado.

Que sangue nos corre deles, se foram dados por extintos nos finais do século III da nossa era?

Que aconteceu ao sangue de gregos, fenícios, cartagineses, vândalos, suevos, visigodos, etc.?

Que complexos temos nós em relação ao sangue de mouros e judeus? Isto sem falar do muito e indisfarçável sangue negro nos traços fisionómicos de muitos habitantes do Vale do Sado, em especial entre os chamados malteses!

Contudo, a mitologia lusitana podia ter algum suporte se se fizesse uma outra leitura. Quando o neopitagórico renascentista Luís de Camões, quiçá com o intuito de nos deixar o testemunho velado da sua filiação na ordem sufista, cristã e cabalista dos «alumbrados», isto é, iluminados, nos chamou de lusitanos, numa clara alusão a LUZ, e pôs a Lusitânia a ser gerada por um inventado Luso, filho de Baco, quero crer que nunca esperou que levássemos tão à letra – essa letra que mata o espírito – o que era figura de estilo e necessário ocultamento e quiséssemos ostensivamente esquecer quanto de mouro e de marrano nos coube de herança histórica, cultural e genética.

 

Artigo revisto, originalmente publicado no nº 7 da revista «Humanidades», Lisboa, 2002  

                                                                            ABDUL CADRE

OS NOVOS TEMPLOS

Nunca será demais sublinhar que utopia não é aquilo que é impossível de realizar mas tão-só o que ainda não se realizou!

Eis a razão pela qual a utopia pode e deve estimular proficuamente os passos do homem: só o que ainda se não realizou merece verdadeiramente o nosso empenho e o nosso esforço, até porque o que está feito, feito está.

Os demitidos do sonho – e o sonho comanda a vida, como diz Gedeão – caracterizam-se, entre outras coisas, por nos atirarem à cara o rodriguinho pateta do «não sejas utópico», porque, nas suas precárias e cinzentas existências, substituíram os sonhos pelos pesadelos, pela miséria doirada com que a sociedade consumista nos ilude e robotiza a nossa humanidade. Esta sociedade é a realização espúria da mentira colocada no altar profano da verdade, dado esta ser habitualmente amarga para os que vivem sem vontade e aquela parecer doce, sobretudo ser doce na boca dos que se submetem e iludem.

Eis porque nos esvaímos em aparentes e efémeras felicidades, nesses fugazes momentos em que a posse nos possui entre o útil e o fútil.

A lucidez dói fundo sem bálsamo que a alivie. Por isso, Schiller gritava: «Porque me lançaste de olhos abertos na terra dos cegos, para lhes proclamar o vosso oráculo? Levai-me de novo esta agudeza de vista que me enche de tristeza! Tirai-me dos olhos esta luz cruel! Restituí-me a cegueira – as bem-aventuradas trevas dos meus olhos; levai-me, levai-me este dom fatal!»

Os templos onde dantes se cultuavam as inventadas divindades das nossas safadezas, dos nossos remorsos e de algum desejo de ascese foram há muito abandonados pela maioria, que ergue agora outros e novos templos de precários céus palpáveis. São os mini, os super, os híper e os megamercados da nossa conformação, da nossa tangível e falsa felicidade. Eis firmemente assente no chão o céu possível onde somos recompensados à medida da nossa bolsa, que é por ela que se afere o nosso merecimento. Os artigos comprados transformam-se paulatinamente em objetos de culto, círios e velas aromáticas, ex-votos. As prateleiras são facilmente muros de lamentação sobre as quais a nossa bolsa não tem poder e, para que tudo se enquadre na religião do palpável sem utopias nem lirismos, haverá os necessários bodes expiatórios, que serão todos aqueles que afrontem os nossos delírios induzidos.

Que belas catedrais concretas e tangíveis!

De entre esta maioria, destacam-se os iludidos de serem depositários da chama do desejo de altura. Afirmam não pertencer à corrente adormecida, mas estão igualmente infetados de mercado. Por isso, também eles inventam altares que, tal como os supermercados, têm santos para todos os gostos e para todas as bolsas em abundância e futilidade. É ainda e só o reino da quantidade, mas aqui no comércio blasfemo com o Alto e no engano de feira dos incautos. Num mercado e noutro, em tudo isto é o neopaganismo ctónico, desenfreado e inútil, onde tudo cabe e tudo se confunde para uso dos incautos e benefício dos astutos.

Mas não se creia que os incautos são inocentes. Não! Os incautos, tal como os escravos são sempre culpados da servidão a que se prestam, ou contra a qual não se revoltam.

Tampouco a ignorância pode atenuar a culpa, antes a agrava, pois que é bem mais grave que o homicídio, ou o suicídio, porque estes apenas matam o corpo, enquanto aquela mata a própria Alma. Uma Alma leva milhares de anos para atingir a maturidade, enquanto um corpo se faz adulto em uns escassos 25 anos.

Texto ligeiramente reformulado em relação ao original publicado em 2006 no Volume I da revista Lusophia.

ABDUL CADRE

quinta-feira, dezembro 01, 2011

SANTIDADES

 

SE acaso podemos chamar de santo àquele que não peca, então não será exagerado presumirmos que a santidade sirva sobretudo ao santo. Por outro lado – é o prejuízo dos mais –, pode dizer-se que o pecador se enche de remorsos, que é coisa que dói muito na alma e talvez não compense o prazer que o pecado sempre dá. Além disso, numa etimologia possível, remorso significará morrer uma vez mais...

Dum ponto de vista pragmático, bom seria que a santidade fosse social e humanamente útil; que mais do que não praticar o mal fosse sobretudo praticar e ser o bem; que santidade fosse algo de contagiante, de epidémico, sem hipótese de vacina que a debelasse. Que a santidade nunca ficasse fora de moda, que fosse coisa de que todos pudessem servir-se, servindo, sem que tempo algum sobrasse para mortes repetidas, isto é, para o remorso.

Os leitores que me desculpem, mas de santos do ocidente cristão e dos seus congéneres orientais, por mais de que por eles não tenha vindo mal ao mundo, será simpático recordar-lhes os nomes em folhas de calendário, mas creio que pouco mais lhes devemos. Evidentemente que foi bom não terem contribuído – os que não contribuíram – para os males do mundo, mas certamente haverá alguns que melhor fora rasgarmos a folha do dia que os evoca.

Muitos dos aureolados são-no devido aos caprichos humanos, já que o céu não se pronuncia – não pode nem deve – e passaram por aqui como se nunca tivessem existido. Se na renúncia, na omissão, no amor a Deus fora do amor aos homens houver alguma libertação, talvez esses santos, inexistentes fora do nosso remorso, se tenham libertado a si próprios. Talvez! Mas desprezaram a sua e a nossa humanidade. Sobretudo, desprezaram o nosso desterro e não tiveram em conta a nossa própria incomparável e insubstituível libertação. As vias friamente piedosas que escolheram, por intransmissíveis, tornaram-se para nós recordações inúteis e armas de arremesso e constrangimento nas línguas desatadas de pregadores tristes em domingos equivocados. São, objetivamente, instrumentos cruéis do nosso remorso sempre crescente.

Eis porque me é tão cara aquela crença sufi de que bem melhor do que o santo é o sábio, servido este por uma santidade superior que partilha com os mais. O sábio que ascende ao saber real e distribui quanto pode aos famintos de espírito e aos dotados de boa vontade do quinhão que lhe cabe do maná celeste, que é a inteligência pura, é uma semente prodigiosa de humanidade e de futuro.

O sábio mostra, enquanto o santo esconde. O santo vem e o santo vai e só o nome fica, quando fica; pela passagem do sábio muda o mundo, muda o homem e até a matéria bruta se torna um pouco mais compassiva.

O altruísmo do sábio é o contraponto do egoísmo do santo.

ABDUL CADRE

In Diário do Sul

Vendas Novas, 01 de Janeiro de 2010

quarta-feira, novembro 09, 2011

APROXIMAÇÕES À SABEDORIA ANTIGA

 

Dizia o grande místico Karl von Eckartshausen que «A verdade absoluta não existe no reino dos fenómenos. Nem sequer nas matemáticas a encontramos, porque as suas regras e princípios estão fundados em certas hipóteses respeitantes à grandeza e à extensão, já por si de carácter fenoménico. Mudem-se os conceitos fundamentais das matemáticas e o sistema inteiro será modificado».

Assim, dizer-se que uma dada ordem de coisas ou de saberes tem quatro, ou nove, ou doze graus, partes, modos ou o que mais se queira é falar-se de critérios quantitativos, de convenções, de codificações, de espírito analítico e nada mais.

O homem, para poder entender os enigmas, os segredos e os mistérios, divide — que é o pressuposto da análise — e estabelece convenções — que é o corolário de todas as sínteses — para que, a partir de um saber codificado e aceite o entendimento recíproco seja possível e as transmissões dos códigos e o método dessa transmissão se estabeleça.

Na administração do saber, nas universidades medievais, usava-se um conjunto de quatro disciplinas — Aritmética, Geometria, Astronomia e Música — que se designava por QUADRIVIUM. Esta base quadrangular requeria, de quem pretendia alcançar a mestria nas artes liberais, a coroa do TRIVIUM, que compreendia a Gramática, a Dialéctica e a Retórica, disciplinas estas que, vistas à luz dos nossos dias, poderíamos chamar de ciências da linguagem, para acrescentarmos que é precisamente a fala, organizada em sistema coerente e simbólico, o que mais nos distingue das espécies animais que habitam connosco este planeta.. Tal culminar em SETE remete-nos necessariamente para a simbólica da construção: uma casa, como a desenhará qualquer criança, é um triângulo sobre um quadrado.

Esta associação do triângulo com o quadrado também podia ser tomada de forma menos prosaica e menos profana se nos lembrássemos que o sagrado tetragrama da cabala aparece gravado no centro de um triângulo, símbolo que, por sua vez, se ostenta no pórtico de muitas igrejas cristãs. É o nome de Deus, que não se pronuncia e apenas se soletra: Iod, He, Vau, Hé.

Quando o Dr. Gerar Encausse, vulgarmente referido pelo seu nome iniciático de Papus nos propôs, no seu Traité élémentaire de Science Occulte, analisar as questões da Pristina Sophia, tendo em atenção as quatro realidades tradicionais — Deus, o Universo, a Natureza e o Homem — certamente que não ilidiu o pressuposto de que a chave mestra da descodificação humana é o triângulo, isto é, o número três. De tal forma não ilidiu que, na mesma obra, declarou que toda a doutrina oculta se pode classificar em três secções fundamentais: os princípios, as leis e os factos.

Quanto a nós, a convenção básica de todo o entendimento tradicional é a triunidade — como é Acima é em baixo — ou, em termos dialécticos: tese, antítese e síntese (mercúrio, enxofre e sal) e representa-se pelo triângulo. Em correspondência com esta convenção, que resulta duma dependência incontornável, todas as escolas esotéricas e iniciáticas, por mais que possam comportar uma grande pluralidade de graus, em boa verdade têm apenas três e não mais do que três, e tudo o mais será espelhismo, necessidades pedagógicas e convenções particulares que se justificam mais na História e na cultura do que na Tradição e nas condições de iniciação.

Voltando ao tetragrama e seguindo o pensamento de Papus, diríamos o seguinte: o Iod, como princípio activo e símbolo da Teogonia, falar-nos-ia de Deus, do todo primordial; o primeiro Hé, como princípio passivo e símbolo da Cosmografia, falar-nos-ia do universo; o Vau, como princípio equilibrante e símbolo da Androgonia, falar-nos-ia de como a relação alquímica Deus-Universo produz o sal, o traço de união que é o Adam Kadmon. Por fim, se quisermos ver representado no segundo Hé o regresso à unidade, ou realização total em todos os planos vamos ter de admitir, realçando o indisfarçável sinal de repetição do Hé, que realizar não é um grau, mas o escopo de todos os graus, e assim voltamos à simplicidade das coisas, propondo-se:

1º Grau do saber. Diz respeito aos FACTOS. Estes correspondem à natureza, ao plano onde o homem tem por veículo animal um corpo de carne. Neste grau, o homem de ideias e ideais é chamado, mas só o discípulo em prova se pode dizer que é escolhido.

2º Grau do saber. Diz respeito às LEIS. Estas correspondem ao universo e exigem do estudante consciência do corpo astral. Por isso lhe chamamos discípulo aceite.

3º Grau do saber. Diz respeito aos PRINCÍPIOS. Estes correspondem a Deus e exigem do estudante a consciência da alma imortal. O discípulo passa a ser um com o Mestre e é tradicional chamar-se-lhe filho do Mestre.

Este tratamento esquemático pode parecer uma tentativa de subverter o entendimento teosófico dos cinco estágios do discipulado, mas afirmamos que não. Segundo o nosso ponto de vista, a razão é esta: a Teosofia fala de um quinto estágio, que seria o de Iniciado... Ora, iniciado não é estudante, ou não é estudante neste plano. Por outro lado, não se pode considerar estágio autêntico e autónomo de discipulado o de «homem de ideias» porque não está na senda; quando estiver, como mais atrás dissemos, será então um discípulo em prova.

Esta é uma aplicação, se se quiser, da navalha de Occam, princípio de busca respeitado em ciência, nomeadamente em Parapsicologia, o qual postula que a teoria explicativa mais simples de um facto ou fenómeno é mais válida do que aquela que introduz complicações desnecessárias

Vendas Novas (Portugal), 29 de Janeiro de 2004

Abdul Cadre frc

UMA VERDADE PUDICA


Uma verdade pessoal e íntima exige uma grande dose de pudor e humildade, coisa difícil nesta sociedade-espetáculo, hedonista e publicitária. Podemos e devemos partilhar a felicidade que tal verdade nos dê, mas não podemos exigir dos outros que sejam felizes de acordo com o nosso entendimento, nem muito menos sujeitá-los aos caprichos das nossas crenças; nem sequer à justiça que julguemos haver na nossa verdade pessoal, que deve permanecer pudicamente íntima. Partilhá-la, só a pedido e com o cuidado de prever o benefício de quem a solicita e não o exercício da nossa vaidade.
Cada ser humano tem uma forma particular de se sintonizar com a sua verdade mais íntima, mas nem todos conseguem sintonizar-se harmonicamente e, por maioria de razão, têm dificuldade em expressá-la. É plausível que expressar a nossa verdade seja útil ao outro e a nós, que nos eleve a qualidade da sintonia, mas teremos de ter presente que não será útil indiferenciadamente para todos; para alguns será até prejudicial.
Igualmente, para cada ser humano, haverá um Deus por inteiro, plantado no seu mais fértil entendimento, feito todo Ele de crenças, descrenças, dúvidas, ansiedades, desejo e medo.
Naturalmente, como contraponto ou não, haverá também e do mesmo modo o anti-Deus que a noite sempre traz e a sombra perpetua.
Afirme-se como se afirme ou negue-se quanto se queira, é do entendimento de Deus que se fala quando se fala de crer ou de descrer. Paradoxalmente, ou nem por isso, negar Deus não deixa de ser entendê-Lo da forma mais global, direta, despida e pura que livra o Ilimitado dos atributos com que os crentes pouco profundos invariavelmente O limitam, O diminuem, ao mesmo tempo que a si mesmos se apoucam e nisto se comprazem.
Por ser muita a minha ignorância, eu nem sequer sei se Deus existe ou se foi a nossa sede de absoluto que O inventou e, sendo muito pobre a nossa imaginação e demasiado pequeno o copo para a água pura de matar a nossa sede, Dele fizemos caricaturas propiciadoras do riso e do choro, mas pouco susceptíveis ao amor impessoal. Quando não se conhece o modelo é natural não ter apreço pelo retrato e apenas ridicularizar a caricatura.
Eis que, apesar da minha declarada ignorância, há uma coisa que julgo que sei – apenas por julgar saber – e que não peço sequer que aceitem como justo saber: o Deus popular das religiões instituídas é o avesso daquilo que uma imaginação fecunda e pura, destituída portanto de medo, ódio e conformação, é capaz de acalentar, construindo a verdade pela intuição e pela experiência espiritual, naturalmente que pessoal e intransmissível, embora susceptível de ser contagiosa. Impô-la é que não. Impô-la é negar aos outros a capacidade e o direito de descobrir o que têm plantado no seu mais profundo entendimento.
ABDUL CADRE

DA VERDADE ÍNTIMA


Admitindo a existência de Deus, para entendê-Lo, admitindo também que só vale o que se entende, não deveríamos, penso eu, concebê-lo como um todo que deixaria de fora o nada: o ser a excluir o não-ser.
Ora, para chamar-lhe ser, seria usar uma forma equivalente à que usamos em relação à Terra, que sabemos que não é o Sol, ou em relação ao sistema solar, que sabemos que não é a Via Láctea, que tudo isto são seres com inteligências muito peculiares, mergulhadas todas elas numa inteligência muito mais vasta, tal como cada célula do nosso corpo é um ser imbicado e participante do soma habitado pela nossa consciência, que por sua vez é uma centelha ínfima da consciência humana global e esta duma consciência maior ainda…
É por tudo isto que fico um tanto incomodado quando oiço alguém, creio que falsamente conformado, dizer: «são os desígnios de Deus», imaginando-O caprichoso; ou «Deus castiga», inventando-O vingativo; ou «Deus disse», tomando-O como um pregador de Domingo; ou «é Deus quem determina», aceitando-O prosaica e profanamente como um qualquer ditador do mundo; ou «é Deus que quer», concebendo-O como um cobrador do dízimo.
Mais incomodado fico ainda quando O discutem infra-humanamente pelos critérios de formais conveniências, pensando que Aquele em que afirmam acreditar é sujeito de malquerenças, ciúmes, concupiscências e lascívias.
Um dia virá em que a Ciência, não querendo ser religião de empedernidas mentes, se espiritualiza e se infunde no entendimento geral tornado superior. Então saberemos de experiência feita e pelo uso consciente da inteligência pura das leis que verdadeiramente nos regem.
Aí, fecharemos os templos onde, por falta de espaço, Deus não pode habitar e dispensaremos os sacerdotes, por obsoleta a profissão.
Deixaremos de precisar que nos falem de Deus, pois teremos as janelas do nosso coração abertas ao sol do universo mental. Do mesmo modo, não precisaremos que nos condicionem pelo medo com critérios do bem e do mal, pois estaremos condenados pela Lei a ser o próprio Bem ou desaparecer.
Até lá, o teatro do mundo continuará com os seus atores medíocres, palavras de conveniência e lágrimas verdadeiras.
ABDUL CADRE

quinta-feira, outubro 27, 2011

UM OLHAR CIBERNÉTICO


Haverá quem duvide que o nosso cérebro, por si só, é despido de toda a memória, entendimento e vontade?
Eu estou em crer que este órgão complexo não passa de um codificador/descodificador das funções mentais, um emissor/receptor de pensamentos. Está no mais alto do nosso corpo como as antenas parabólicas estão nos telhados. É por isto que sempre me causou algum engulho ouvir dizer em certos meios que o ser humano só usa dez por cento do seu cérebro. Ora, sabe a ciência que isso não faz qualquer sentido. Quando ligamos um receptor de rádio, ele trabalha a cem por cento; ouvir uma estação em detrimento de todas as outras não diminui as funções do aparelho, apenas lhe caracteriza a atenção. Basta um pouco de raciocínio, usando todo o cérebro que nos coube, para concluirmos que todos nós, que cada um de nós usa a cem por cento e a todo o momento esse maravilhoso interface mental.
Ninguém dirá que um sujeito trôpego de andar só usa uma certa percentagem das pernas. Não. Ele usa-as a cem por cento, mas elas não têm a qualidade suficiente para se inscrever na maratona. Se não usarmos um determinado órgão, ele atrofia, mas dentro da sua atrofia ele estará no seu sítio por inteiro, até que desapareça, igualmente por inteiro…
Não é o órgão que faz a função, mas sim a função que faz o órgão. Se não fosse assim, os desportistas não treinavam, os estudantes não estudavam, ninguém cuidaria de se autovalorizar.
O cérebro não nos foi outorgado prontinho e acabado com uns quartos às escuras à espera da vinda do electricista. O nosso cérebro desenvolveu-se ao longo de milénios, correspondendo às necessidades da nossa evolução e em cada era sempre esteve a cem por cento, primeiro reptiliano, depois mamífero e agora hominal. A natureza serve-se muito da lei do menor esforço e da economia de meios.
As crenças e mitos mais comuns inerentes ao cérebro advêm, antes de mais, de se confundir cérebro com mente. Ninguém provou ainda que o cérebro pensa e, no entanto, é comum ouvirmos esta soberba afirmação: eu cá só penso pela minha própria cabeça. Ora, mesmo que se admita que o cérebro, chamado assim de cabeça, tem a faculdade de pensar, presumo que só um autista pensa exclusivamente pela sua cabeça, porque o natural e saudável seria pensarmos com o máximo de cabeças que conseguíssemos.
Nascemos no seio de uma determinada cultura e num dado ambiente que nos forma e condiciona. A própria língua materna se torna a pauta de pensarmos. Eis que um chinês não pensa como um brasileiro; o meu vizinho da frente não pensa como eu e eu pensaria de algum modo diferente do que penso hoje se o meu vizinho da frente fosse outro que não aquele.
Nos nossos dias, sabendo nós como funcionam os computadores, podemos tomá-los para analogia com o nosso próprio funcionamento, tendo sempre presente o seguinte: tudo aquilo que nós fazemos, inventamos, construímos, ou inclusive amamos, resulta de projecções, de exteriorizações de nós próprios. O homem acrescentou o seu braço agressivo com a invenção da espada e, achando-a curta, logo chegou à lança, à seta, à bala, ao míssil. Ampliou a memória com o computador e quer dotar o mesmo de inteligência artificial.
Mas vamos lá às comparações: admitamos, como defendem algumas filosofias, que o homem depende biologicamente duma energia universal que o penetra até ao mais íntimo das suas células (que muitos usam chamar de força vital) e que deve a sua consciência a uma emanação divina que se costuma chamar de alma…
Pois bem: no computador a alma chama-se software e é emanada dos deuses do Olimpo chamados programadores. A energia vital do computador vem da rede eléctrica, penetra no seu plexo solar, que é a fonte de alimentação, e espalha-se pelos seus órgãos e células. Por si só, o computador é uma máquina estúpida e inerte. O nosso cérebro também. O computador descodifica a matemática que lhe é própria como mente; o cérebro interpreta o que a mente lhe induz. O anjo da guarda do computador, que é o operador, liga-lhe a força vital, carregando no botão do «power» e faz correr a inteligência divina que é o sistema operativo. Depois, servindo-se das dispensas do Olimpo que são os diversos programas instalados no disco rígido, que é a subconsciência do sistema, põe-no a pensar velozmente. Na consciência, que é a memória de trabalho (RAM), o yin e o yang fazem a sua dança e até caminham pelo ciberespaço, se for caso disso, nesse artificioso campo morfogenético que chamamos de Internet.
Sou um anjo da guarda razoável, mas o meu computador portátil é um pouco fraco e um tanto trôpego, tem uma consciência muito limitada e o seu subconsciente deixa muito a desejar. É o seu e meu Karma. É por isso que ainda me sirvo de cadernos de apontamentos. Torna-se evidente que o meu portátil não serve para a maratona. Bem mais possante é o meu computador de mesa. Tem uma grande cabeça. Todavia, quer um quer outro, ambos trabalham a cem por cento, salvo qualquer vírus ou avaria que lhe afecte a mente ou lhe queime neurónios.
ABDUL CADRE

terça-feira, julho 05, 2011

A CONCEPÇÃO MATERIALISTA DA VIDA


 

Por muito que possa entender-se paradoxal, o facto é que mais do que uma vez tivemos a oportunidade de nos referirmos a José Saramago como um místico materialista.

Para quem tome esta classificação como um disparate, lembramos de memória uma entrevista deste Nobel da literatura, aquando da publicação do seu Evangelho Segundo Jesus Cristo. Disse ele que, visitando a Feira de Frankfurt, lhe pareceu ver num escaparate um livro precisamente com aquele título. Quando foi por ele, com a ideia de o folhear, ou comprar, já não estamos certos, constatou que afinal tal obra não existia. «Pois, se não existia, então eu tinha de a escrever», concluiu na referida entrevista.

Coisa apenas insólita?

Então remetemos quem tenha interesse e oportunidade para a entrevista que Maria Leonor Nunes fez a Saramago (JL nº 994 de 5 @ 18 de Novembro de 2008), a propósito da publicação de A viagem do Elefante. Na referida, recordando os episódios do estado de coma por que passou, o escritor disse coisas assim: «… Durante um tempo, talvez umas horas, um dia ou dois, apresentou-se-me, por exemplo, uma imagem com um fundo negro e quatro pontos brancos formando um quadrilátero irregular (…) … Tive a certeza que esses pontos eram eu. (…) Não foi imaginação. Vi e soube que eu era aqueles quatro pontos. (…) … Não havia traços fisionómicos, apenas a consciência de que podia estar reduzido a esses quatro pontos. (…) … Uma espécie de total despersonalização. Eu tinha deixado de ser quem julgava que era, ao mesmo tempo que me reconhecia nesses quatro pontos (…).

Estranho?

Quando se houve
alguém afirmar: «só acredito no que vejo», logo surge quem pense estar na presença de um materialista. Não está. O materialismo é uma outra coisa e não será assim tão paradoxal encontrarmos místicos materialistas.

Aquele que só acredita
no que vê desmentir-se-á a si próprio se nos disser que a Terra anda à volta do Sol, porque o que ele vê é precisamente o contrário. Quem apenas acredita no imediatismo dos sentidos despreza a razão. Ora, o materialista caracteriza-se precisamente pelo uso da razão. Usa-a por vezes tão fortemente que ela toma contornos de divindade, a divindade suprema da religião chamada ciência. A divinização dos nossos entendimentos cega-nos de modo similar ao dos fanáticos de hoje e aos grandes conversores medievais, por mais que os sinais sejam contrários.

Por muito que a Ciência se proponha afastar a crença, há sempre um substrato de crença em toda a experimentação/comprovação.

Quando falamos, por exemplo, de Big Bang — fenómeno que poderá ter acontecido, mas não tem irrefutável demonstração — não explicamos de modo científico a existência dos mundos e da vida, apenas imaginamos um princípio que a si próprio se desmente. Não se trata, como é óbvio, do grande início, porque se há explosão alguma coisa previamente existente explode, havendo por detrás da explosão um "bombista" que acende o rastilho.

Apesar disto que acabamos de dizer é bom ter em conta que as convicções e explanações dos materialistas são tão válidas quanto as de sinal contrário, porque pensadas, reflectidas e interrogadoras da verdade, desiderato que não se pode atribuir a quem se limita a crer, porque assim o ensinaram de menino, nem muito menos às fantasias dos criacionistas, obcecados e cegos, que pretendem submeter a realidade às suas crenças empedernidas, esgrimidas sempre «com a palavra de Deus» na mão.

Os materialistas sabem que a matéria é eterna — e nisso concordam com os espiritualistas — e acreditam na antimatéria, presumidamente do mesmo jeito eterna. Não podem é admitir que haja outras coisas igualmente eternas, que afinal até não são coisas e por isso não podem ser analisadas, retalhadas, criogenizadas, etc.

Eles não se importariam que Deus existisse, desde que fosse rã e pudesse ser dissecado.

Vida para além da morte? Nem pensar!

Afinal, tudo se resolve com três badaladas e um balde de cal.

ABDUL CADRE



 

quinta-feira, junho 02, 2011

PARA ESCONJURAR O MEDO

Unindo e, simultaneamente, dividindo os povos da Terra, muitas e diversificadas são as culturas, mas apesar de algumas serem tão diferentes que se chega a pensar serem inconciliáveis, há algo de comum a todos os homens e a todas as mulheres, qualquer que seja a cultura em que se insiram: o desejo profundo de amarem e serem amados.

É esta a raiz da nossa humanidade e é por ela que nos tornamos iguais, saciados e compassivos. Teremos muitas outras características e atributos comuns, que certamente definirão a nossa espécie por exemplo, o medo , mas que todavia não nos distinguirão tanto quanto se julgue dos animais que nos são próximos.

Descobrir isto na escola da vida, se mais ganho nos não der, dá-nos pelo menos serenidade, pacifica-nos por dentro, faz-nos desejar um mundo materialmente próspero, socialmente justo, humanamente digno; um mundo onde reconheçamos no outro a nossa própria humanidade. Não o conseguimos ainda, mas afinal é isto precisamente que procuramos há milhares de anos. Não o conseguimos porque nos metemos por caminhos e veredas que nos desviaram do destino. Por isso, desembarcámos neste mundo organizado por poucos e para poucos, permitido pela apatia e rendição generalizada, justificado e prometido como sendo para o bem de todos. E este «melhor dos mundos» em que nos desumanizamos quotidianamente não nos deixa ser quem somos, impele-nos ao desejo, não de amar e ser amados, mas de consumir e de lucrar. Trata-se de uma doença grave, de um cancro espiritual: consumir cada vez mais, lucrar cada vez mais, usar o prazer até à anestesia dos sentidos e exaltar os sentidos até à anulação do sentimento. Que lástima!

Há quem queira explicar tudo isto com a globalização, usando para tal aquele dialecto sombrio e alienante a que alguns chamam de «economês». Tudo é subsumido à economia e os dogmas desta astrologia sem astros substituíram os dogmas religiosos do passado. Agora há só uma religião, que é o mercado, e maldito seja quem dela não for crente. Há até quem ache que tudo estaria luminoso e ungido não fora a crise. Crise? Qual crise? Aquilo a que chamam crise é um processo de obtenção de lucro como qualquer outro. Como qualquer outro, não, porque este radica numa voragem financeira nunca antes vista. Aliás, só haverá crise se a galinha dos ovos de oiro, de tão depenada e espremida, morrer de exaustão. Aí, nem com uma canjinha podemos contar.

Embora verdadeiramente ninguém nos persiga, corremos de um lado para o outro como se fugíssemos. Ou será que é o tempo que nos foge?

No nosso morrer de cada minuto, alienamos doze ou mais horas por dia em tarefas que apenas visam a remuneração que nos permita pagar contas e contas e contas, numa rotina robótica que nos corrói a própria natureza e deixa a alma exangue.

O uso da violência nos meios de «excitação social» que são os media, medido pelo share e justificado pelo lucro sempre o lucro! embota-nos a sensibilidade, aliena-nos a compaixão. Já não somos capazes de sentir como nossas as dores alheias. Entre a crueldade e a apatia agiganta-se a nossa sombra. Não nos indignamos nem pomos objecções a que os nossos líderes promovam guerras para o saque dos recursos alheios. Sabemos que isso é errado, mas pode ser que ajude a pagar as nossas contas. Depois, sossegamos a nossa consciência com o que de conveniência se justifique; os milhares de mortos e estropiados são apenas danos colaterais, gente que estava no lugar errado do tempo certo.

Sentimo-nos em desconforto, mas o medo pode ainda muito. Medo de que tudo piore, medo de qualquer mudança, medo de que doa, medo do amanhã, medo do de aqui a instantes. Medo do medo.

Por mais que saibamos que não há dragões, o medo de dragões é sempre verdadeiro, não nos deixa caminhar, ata-nos ao chão.



ABDUL CADRE   


sábado, janeiro 01, 2011

SANTIDADES

Da rubrica FADO CORRIDO, no Diário do Sul, reproduz-se aqui a seguinte crónica
Vendas Novas, 01 de Janeiro de 2010

SE acaso podemos chamar de santo àquele que não peca, então não será exagerado presumirmos que a santidade sirva sobretudo ao santo. Por outro lado – é o prejuízo dos mais –, pode dizer-se que o pecador se enche de remorsos, que é coisa que dói muito na alma e talvez não compense o prazer que o pecado sempre dá. Além disso, numa etimologia possível, remorso significará morrer uma vez mais...

Dum ponto de vista pragmático, bom seria que a santidade fosse social e humanamente útil; que mais do que não praticar o mal fosse sobretudo praticar e ser o bem; que santidade fosse algo de contagiante, de epidémico, sem hipótese de vacina que a debelasse. Que a santidade nunca ficasse fora de moda, que fosse coisa de que todos pudessem servir-se, servindo, sem que tempo algum sobrasse para mortes repetidas, isto é, para o remorso.

Os leitores que me desculpem, mas de santos do ocidente cristão e dos seus congéneres orientais, por mais de que por eles não tenha vindo mal ao mundo, será simpático recordar-lhes os nomes em folhas de calendário, mas creio que pouco mais lhes devemos. Evidentemente que foi bom não terem contribuído – os que não contribuíram – para os males do mundo, mas certamente haverá alguns que melhor fora rasgarmos a folha do dia que os invoca.

Muitos dos aureolados são-no devido aos caprichos humanos, já que o céu não se pronuncia – não pode nem deve – e passaram por aqui como se nunca tivessem existido. Se na renúncia, na omissão, no amor a Deus fora do amor aos homens houver alguma libertação, talvez esses santos, inexistentes fora do nosso remorso, se tenham libertado a si próprios. Talvez! Mas desprezaram a sua e a nossa humanidade. Sobretudo, desprezaram o nosso desterro e não tiveram em conta a nossa própria incomparável e insubstituível libertação. As vias friamente piedosas que escolheram, por intransmissíveis, tornaram-se para nós recordações inúteis e armas de arremesso e constrangimento nas línguas desatadas de pregadores tristes em domingos equivocados. São, objectivamente, instrumentos cruéis do nosso remorso sempre crescente.

Eis porque me é tão cara aquela crença sufi de que bem melhor do que o santo é o sábio, servido este por uma santidade superior que partilha com os mais. O sábio que ascende ao saber real e distribui quanto pode aos famintos de espírito e aos dotados de boa vontade do quinhão que lhe cabe do maná celeste, que é a inteligência pura, é uma semente prodigiosa de humanidade e de futuro.

espiritu-santo

O sábio mostra, enquanto o santo esconde. O santo vem e o santo vai e só o nome fica, quando fica; pela passagem do sábio muda o mundo, muda o homem e até a matéria bruta se torna um pouco mais compassiva.

O altruísmo do sábio é o contraponto do egoísmo do santo.

A PROPÓSITO DE CAIM

 
Crónica publicada no Diário do Sul
Vendas Novas, 4 de Novembro de 2009

OS AMORES e os desamores que Saramago concita alimentam-se muito mais da sua assumida militância político-partidária do que da sua qualidade indiscutível e originalidade de escrita, sendo que a generalidade das críticas e diatribes que lhe são dirigidas provêm invariavelmente de bocas e penas de quem o não lê ou o faz apenas com ligeireza.

Saramago

Não posso deixar de recordar aqui que o «originalíssimo ex-ministro Lara lhe censurou o Evangelho Segundo Jesus Cristo, sem o ter lido sequer, e que aquele ilustre desconhecido a quem calhou a sorte de ser deputado europeu, o tal que nega a Saramago a qualidade de português, declarou urbi et orbi que não leu Caim, nem o fará, pela desrazoada razão de ser católico, embora não praticante. Feitios.

Se alguém diz: «sou nadador mas não sei nadar», não será levado a sério, mas português comum adora dizer que é católico sem praticar... e ninguém se ri. Como consegue tal proeza é para mim um enorme mistério.

Bom, indo ao que mais interessa: Saramago, que produz a sua ficção utilizando invariavelmente o método de partir do irreal para o real, do impossível para o lógico realizável, lembrou-se de pegar na Bíblia, catar, no Antigo Testamento, uns episódios dos mais popularizados e submetê-los todos a Caim. Episódios estes tomados completamente à letra, sem direito a qualquer possibilidade metafórica, numa leitura mais restrita que de advogado a decreto-lei, que sempre falará do seu espírito. A partir daí, vá de negar coisas em que ninguém acredita, mas que ele julga que são a essência doutrinal condicionadora das múltiplas crenças que se inspiram na Bíblia. Nada de concessões à lenda, ao mito e ao maravilhoso. Nada de se preocupar com aquilo que podemos chamar de níveis de interpretação de um texto, seja pela perspectiva histórica, seja pela perspectiva filosófica.

Ora, sendo a Bíblia uma obra literária produzida ao longo de milhares de anos pela pena de inúmeros e díspares autores, é evidente que teria de reflectir as suas vivências e entendimentos, naturalmente com os condicionalismos resultantes de cada lugar e momento. Não podemos, ou antes, podemos mas não devíamos, ater-nos à letra que mata, fazer interpretações restringidas ao mais primário literalismo e o pior de tudo: ver o ontem com os olhos de hoje, como faz Saramago, passando à margem de qualquer alegoria, símbolo ou contingência moral segundo o circunstancialismo histórico e geográfico.

Quando se confronta o laureado escritor com estas insuficiências, ele diz que não tem de interpretar, só tem de ler o que lá está em letra de forma. Neste aspecto, não será abusivo dizer-se que, por razões inversas, pede meças aos prosélitos das Testemunhas de Jeová e torna merecedores de crédito os fundamentalistas cristãos, todos tomando a Bíblia como a palavra de Deus, em vez de a ver como a palavra os homens a tentar explicar o que não sabem para dar consistência ao que crêem.

De qualquer forma, lido Caim, não se percebe onde está o escândalo nem o motivo das polémicas desbragadas que por aí se agitam. Digamos que o livro é bastante divertido – mais no sentido sarcástico do que no humorístico –, não distorce o texto bíblico, mas é uma obra menor que fica uns pontos abaixo das tolices do Dan Brown. Tem algumas imprecisões. Os amores de Caim e Lilith não têm suporte bíblico e parecem introduzidos para dar algum sabor erótico à novela. Segundo a tradição judaica, Lilith era um demónio que foi a primeira esposa de Adão, antes que Eva fosse criada.

O capítulo mais interessante do livro – o 13º e último –, parodia o Dilúvio. Por curiosidade se diga que este mito não é original, é uma adaptação de um texto bem mais antigo: A Epopeia de Gilgamesh.

Para terminar, é bom que se diga que todos os remoques que têm sido debitados gratuitamente sobre as tentativas de Saramago provar a inexistência de Deus são completamente descabidos. O homem limita-se, dentro de um direito que ninguém lhe pode negar, a justificar o seu ateísmo e merece que o julguemos suficientemente inteligente. Uma pessoa inteligente não procura provar nem a existência nem a inexistência de Deus. Crenças e descrenças não podem ser levadas à retorta.

SE ME DISSER O QUE É DEUS...

Da minha rubrica Fado Corrido, no Diário do Sul , transcrevo aqui a seguinte crónica:
Vendas Novas, 12 de Novembro de 2009

TENDO ainda como referência as espúrias polémicas reactivas à última obra de Saramago, não me parece todavia que exista uma guerra entre ateus e não ateus, por mais que os seguidores de Richard Dawkins aluguem autocarros para garantirem que Deus não existe ou um qualquer aiatola lance uma fatwah contra os incréus. O que há, como é saudável, é discussão entre lídimas filosofias antitéticas.

Bertrand Russel, um dos fundadores da lógica moderna, , no seu livro Porque não Sou Cristão, explicava porque não se afirmava ateu, mas sim agnóstico. Ser ateu é ter uma fé, uma religião que defende o mistério da não existência de Deus.

E curioso. Fé é algo que se tem ou não se tem, não é do domínio do racional, mas a crença, sua irmã menor, é sem dúvida racional (ou racionalizável), mesmo que inviamente, porque crer é dar crédito ao que nos dizem.

Cada crente, atrevo-me a dizer, imagina Deus à imagem e semelhança do pai que lhe faz falta; discutir depois se Deus existe ou não existe, é algo de redondo, gratuito e mesmo inútil, uma ociosidade desvirtuada pelo enorme paradoxo de racionalizar a fé.

Já experimentaram racionalizar o amor?

Quaisquer «provas» que se usem para afirmar a existência de Deus servem igualmente para negar.

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Quem assistiu na televisão, faz já muito tempo, às celebradas Conversas Vadias, talvez se recorde desta pergunta de Esteves Cardoso a Agostinho da Silva: «Acredita em Deus?»

Ao que o mestre respondeu: «Se me disser o que é Deus, pode ser que eu acredite, ou que não acredite...»

domingo, novembro 13, 2005