quinta-feira, novembro 16, 2017

KABIR – 1440-1518

Bhagat Kabir Yi (San Kabir), ou simplesmente Kabir, ganhava o sustento como tecelão, mas foi um poeta, músico, místico e reformador religioso, que merece bem ser considerado como uma das vozes mais profundas e conseguidas do misticismo indiano expresso em verso.

Venerado ainda hoje como santo por muçulmanos, hindus e siks, teve como mestre espiritual (guru) Ramananda, também este um dos grandes santos-poetas da Índia medieval.

O pensamento de Kabir sofreu necessariamente as fortes influências do seu tempo e lugar, onde muito pesava a filosofia dos grandes místicos persas Sadi e Hafiz. Kabir foi um conciliador dos misticismos islâmicos e hindus; as suas expressões metafóricas comportam por igual crenças hindus e muçulmanas.

Ao ter adoptados as crenças no Karma e na reencarnação e repudiado a idolatria, o ascetismo e o sistema de castas, não é possível dizer-se se Kabir era sufi, vedantista ou vishunista, pese embora o seu nome a denotar claramente ascendência islâmica. Ele próprio se dizia filho de Alá e de Rama; os muçulmanos chamavam-lhe santo sufi e os hindus brahman.

Pregava a religião mística do amor, de idênticos contornos dos grandes poetas árabes e persas; uma pregação exigente, que requeria um grau de cultura espiritual muito elevado, susceptível de contrariar as crenças e as filosofias do seu tempo e lugar, o que lhe valeu muitas perseguições, que soube contornar.

Desprezava a santidade profissional dos ascetas e louvava «o gozo e a beleza derramados no mundo pela “Unidade Infinita”».

«Deus não está nem no templo nem na mesquita, está com todos os que o buscam», proclamava Kabir, concitando o espírito persecutório do poderoso clero de Benares, sua cidade natal.

Kabir

«Onde me procuras, meu servidor?

Repara: estou junto a ti.

Não estou no templo,

não estou na mesquita,

não estou no santuário de Meca

nem na morada das divindades hindus.

Não estou nos ritos,

não estou nas cerimónias,

não estou no ascetismo nem nas suas renúncias.

Se me buscas de verdade,

então me verás e há de chegar o momento

em que por fim me encontres.»

KABIR

(Versão portuguesa de Abdul Cadre)

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«O Senhor está em mim,

O Senhor está em ti,

como a vida está em cada semente.

Renuncia ao falso orgulho

e procura em ti o teu Senhor.

A Sua luz tem os raios de um milhão de sóis.» ​

KABIR

Versão portuguesa de

Abdul Cadre

quarta-feira, maio 17, 2017

AGOSTINHO DA SILVA - O PARADOXO E A VIDA CONVERSÁVEL

 

«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!» AGOSTINHO DA SILVA

Chegou a este lado da vida no ano de 1906, desembarcou na cidade do Porto sob o signo de Aquário e entendeu deixar-nos no Domingo de Páscoa de 1994. Neste entretanto, foi o mais que numa só vida se pode ser: filósofo (no mais profundo do conceito), professor contagiante, escritor polifacetado, conferencista, educador, poliglota, viajante, fundador de institutos e universidades…

À semelhança de Fernando Pessoa, usou vários heterónimos, não para produzir um drama em gente, como dizia aquele, mas como matriz de uma vida conversável.

Se quiséssemos um nome para o seu pensamento, podíamos chamar-lhe «filosofia da vadiagem». Em que consiste? Tornarmo-nos na criança que se maravilha com tudo o que observa, poetas à solta e arranjarmos maneira de criar as condições adequadas para cumprir o nosso destino (que é a nossa liberdade) de contemplar o mundo tornado conversável, isto é, pacífico, fraternal e solidário. Como fazê-lo? Ser cada um aquilo que verdadeiramente é e tornar-se contagiante. Contagiar pelo exemplo e não fazer batota com o vírus que o torna humano, que é a fala, não esquecendo que esta lhe vem do céu; o que se ganha ao nascer é a voz.

O seu pensamento místico profundo, ao convergir com o entendimento de várias escolas do campo do esoterismo, tornavam-no atracção dessas mesmas escolas, sendo visitado por alguns dos seus dirigentes. Agostinho da Silva tinha então o cuidado de sublinhar ser um místico e não propriamente um esoterista, ou um hermetista.

Quando alguém se referia ao seu discurso como o “seu pensamento”, logo ele retorquia não saber se o pensamento era dele; era bem possível que o pensamento andasse por aí e que o seu mérito teria sido encontrá-lo…

Nascido português – nacionalidade que só readquiriu em 1992 – naturalizou-se brasileiro, na sequência do exílio a que se viu obrigado, por razões políticas. Foi por isso no Brasil que desenvolveu a maior parte da sua longa vida académica e deu largas à sua produção literária e filosófica, onde nenhum género lhe foi estranho. Quando nos deixou, tinha dupla nacionalidade, a sua pátria era a língua portuguesa e a sua religião a dos fiéis do amor.

A riquíssima bibliografia de George Agostinho Baptista da Silva, de seu nome completo, pode consultar-se em http://www.agostinhodasilva.pt/. Nestas linhas, vamos tão-somente tentar interpretar a figura daquele que entre amigos e admiradores era chamado apenas de «Professor». Dizemos interpretar, sabendo bem que toda a interpretação implica limitação e parcialidade. Professor, aureolado de mistério, rodeado de alunos e de pombos, sob uma frondosa árvore, no Largo do Príncipe Real, em Lisboa, é também como é referido no romance Casa da Rússia, do escritor britânico John Le Carré, que o visitou um dia no nº 7 da Travessa do Abarracamento de Peniche, a bem conhecida morada, situada na 7ª colina de Lisboa, onde acorriam em peregrinação permanente os muitos amigos e admiradores, que tinham por ele uma atracção quase religiosa.

Após uma série de entrevistas televisivas, subordinadas à designação Conversas Vadias, o pensamento do professor Agostinho da Silva chegou ao grande público, tornando-se conversa de café, nem sempre fiel, antes pelo contrário.

O seu magnetismo e a aura pública que ganhara eram tais que o número daqueles que não gostavam dele seria bem reduzido, poucos se atrevendo a criticá-lo negativamente. Um dos seus poucos detractores, o melhor que achou para dizer – citamos de cor – foi: «como filósofo, é uma fraude, mas o que mais me aborrece nele é aquela postura presunçosa e anacrónica de profeta». Todavia, tal remoque mais se destacou pelo azedume do que pela originalidade, pois é certo que alguns comentadores de boa vontade e respeito o designavam como um misto de filósofo grego e profeta bíblico.

Do muito que se dizia e comentava, diríamos nós que aqueles mais virados ao orientalismo chamavam-lhe Mahatma; os tocados pelo new age diziam que tinha vindo do futuro; os esoteristas queriam-no como mestre; os ateus lamentavam que ele não repudiasse a crença em Deus, os cristãos que ele fosse budista e os budistas que ele fosse cristão; os monárquicos queriam-no para alferes da pátria, os conservadores chamavam-lhe comunista, os comunistas chamavam-lhe intelectual burguês, os amigos do autoritarismo chamavam-lhe anarquista.

Que bom, para quem dizia que não tinha discípulos, porque quem puxa carroça é burro; que discutir, que etimologicamente significa sacudir, é bom, porque, mais do que despertar-nos, não nos deixa adormecer; que se a natureza quisesse que todos pensássemos igual não dava uma cabeça a cada um.

Ele nunca quis discípulos, apenas procurou despertar no outro a chama tímida ou ignorada com que veio a este mundo. Além disto, sendo certo que não desprezava os livros, nem o saber de que eles são depósito, prezava bem mais a vida, que ela sim é que é mestra.

Quando lhe perguntavam se se considerava um esoterista, ou um ocultista, dizia que não, que o Pessoa é que sim, ele seria simplesmente, se lhe quisessem pôr uma etiqueta, um místico, cuja principal característica é o amor no seu sentido mais lato, implicando naturalmente o amor ao saber. Dizia ele: «Talvez o maior amor seja o dos místicos, porque esse tem consigo a suprema qualidade de nunca ser plenamente realizável».[1]

Quando lhe diziam do quão utópicas eram as suas proposições, respondia que pois claro, pois que se referiam ao futuro. Não seriam utópicas se havidas no passado, pois que utopia é aquilo que ainda se não realizou, aquilo que ainda não teve lugar, segundo a própria etimologia. Não se trata de coisas impossíveis. A utopia de hoje é a realidade de amanhã.

É bom que se diga que as propostas de Agostinho da Silva, classificadas por muitos como utópicas, partiam de exigências bem simples, que ele invocava como a base da verdadeira sociologia e chamava do princípio dos três esses: o sustento, a saúde e o saber.

Depois, quando afirmava que não era pelo heterodoxo nem pelo ortodoxo, mas sim pelo paradoxo,[2] punha em tudo isto o cerne do mistério da Religião e da Ciência, bem como de todo o conhecimento. Veja-se o grande paradoxo da Geometria: o ponto, que não tem dimensão, desenha todas as dimensões, toda a geometria conhecida. Também Deus poderá ser visto como o supremo ser paradoxal, pois tem a fatalidade de ser livre, sendo assim o modelo de todos os paradoxos e o poeta à solta por excelência. Então, se o concebemos como modelo, fundamos necessariamente o nosso dever de ascender ao paradoxo. A conquista do paradoxo impede que nos acusemos mutuamente. Quem é que não sabe que é sempre um ortodoxo que acusa outro ortodoxo de ser heterodoxo?

O seu contacto com a cultura japonesa – foi bolseiro da UNESCO no Japão – despertou-lhe o interesse pelo xintoísmo e pelo Zen budismo. O seu apreço pelo paradoxo fê-lo dizer que podíamos definir o Zen como um sistema paradoxal por excelência, aquele que admite que alguma coisa seja sempre alguma coisa e o seu contrário. Se perigo existe nisto, é a impossibilidade de um verdadeiro código moral.

Tendo estudado profundamente várias religiões, incluindo os cultos afro-brasileiros – participou em rituais de candomblé – dizia do islão que o critério da submissão – etimologia de islam – não lhe era simpático, já que a liberdade é o nosso dever ser, mesmo que paradoxalmente se possa dizer que o nosso destino é a nossa liberdade e a liberdade o nosso destino. O seu fervor ia para o que se referia à Idade do Espírito Santo,[3] na sequência do pensamento de Joaquim de Flora[4] e das propostas de Francisco de Assis, cuja anunciação ritual e simbólica remonta em Portugal às acções da Rainha Santa Isabel[5]: as festas (culto) do Espírito Santo, a coroação do Menino Imperador do Mundo, a libertação dos presos, a vida gratuita.

A sua grande admiração pela Fé Bahá’í, levou algumas pessoas a pensar que ele seria membro desse culto, mas Agostinho da Silva, poeta à solta, não pertencia a nenhuma igreja instituída, nem a partido político ou grupo. Todavia, do seu ponto de vista, a Fé Bahá’í constituía uma atitude religiosa que valia a pena estudar, entender e praticar, pois enquadrar-se-ia nos valores constitutivos do Quinto Império.[6]

Não se confunda Quinto Império com qualquer mando ou poder mundano, conote-se sim com quinta-essência, Idade do Espírito Santo, Era de Aquário. Veja-se em Fernando Pessoa, veja-se na Ilha dos Amores.

E saiba-se que as propostas Bahá’í,[7] agostinianas e pessoanas têm imensos pontos convergentes e coincidentes com a «Utopia Rosacruz», conforme contida no manifesto Positio.

Voltemos então à vida conversável: «… a pluralidade e até a contradição de opiniões «obriga a pensar e a escolher e é pela escolha que se afirma a liberdade de cada um»[8]. Será, pois, pela via do conversável – da poesia à solta – que a vida se desenvolverá, «porque o mundo acaba sempre por fazer o que sonharam os poetas»,[9] sendo que «poeta é todo aquele que cria».[10] Afinal, «o mundo é só o poema em que Deus se transformou»[11]. Então, bastas vezes o professor dizia que há duas coisas muito importantes que devemos aprender: o quão extraordinário é o mundo e sermos por dentro tão amplos quanto possível, para que o mundo todo possa entrar, sem esquecer que um dos significados da palavra mundo é limpo. Por isso, devemos querer o mundo e não o seu contrário, que é o imundo. Todavia, «seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau; mas é nessa mesma maldade que devemos procurar o apoio em que nos firmarmos para sermos nós próprios melhores e, como tal, melhorarmos os outros»[12]. Este melhorar os outros, porém, exige muita empatia e um cuidado apurado quanto à intransigência. «Ser intransigente com os outros não tem grande sentido; eles são o que podem ser e creio que seriam melhores se o pudessem; a Natureza ou o meio lhes tiraram as condições que os levariam mais alto; não os devo olhar senão com uma íntima piedade.»[13]Afinal, «o mal que se vê é aguilhão para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de aço, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso.»[14]

Quando o tomavam por vegetariano, costumava dizer que evitava comer bicho, porque os bichos não tinham culpa de que ele precisasse de comer…

Mas um certo dia, em sua casa, um grupo alternativo condenava com paixão a crueldade dos caçadores. Ele ouvia, ouvia pacientemente e a dada altura remata: pois é, matar os pobres dos pássaros, que não fazem mal a ninguém… Claro, é cruel. Mas por outro lado, já viram quanta perícia é necessária para apontar a arma a um bicho assim tão pequenino e acertar-lhe em pleno voo?

Era a sua forma de ver as coisas pelo seu conflito intrínseco e a aplicação didáctica do princípio cristão de «não julgarás». Nisto, por vezes, chegava a ser desconcertante. Numa entrevista, dizia: «Não há homem algum que não possa ser elogiado; às vezes os assassinos têm pontaria excelente; e não existe homem algum que não possa ser censurado; houve santos que não tomavam banho».[15]

De ser desconcertante poderia falar aquele franciscano que fora convidado para dar início à ideia do professor de uma Faculdade de Teologia e que, quinze dias depois da chegada ao Brasil, vindo de Portugal, continuava à espera, sem nada para fazer. Foi ter com o professor: «então, a Teologia?». Responde-lhe o Professor: «Meu querido irmão, faça o seguinte, escolha um lugar sossegado onde ninguém o possa ver ou perturbar, sente-se numa pedra e pense em Deus, sem nunca se distrair, pelo tempo que possa».

A ideia de Agostinho da Silva para uma Faculdade de Teologia, era um lugar onde residiriam em permanência teólogos de várias religiões com a missão de investigarem, ensinarem e trocarem experiências teológicas. Nunca tal concretizou e o máximo que conseguiu foi uma Faculdade de Teologia restritamente católica, entregue aos dominicanos, com quem acabaria por se dar excelentemente. Foi por eles convidado para falar sobre o ateísmo e acabou por converter um deles às suas teses.

Uma das teses era de que alguns dos ateístas «tinham uma vida mística tão forte e tão sensível quanto a de qualquer homem religioso»[16]. Outra tinha a ver com as relações entre religiosidade e mística, pois entedia que «há milhões de pessoas religiosas cuja vida mística é nula, sendo praticamente uma vida comercial, visto comprarem um certo número de coisas por meio de certos actos e cerimónias e mais nada»[17].

Em Julho de 1986, entrevistando o professor Agostinho da Silva para o Diário de Notícias, a jornalista Antónia de Sousa dizia a dado passo: "O professor é contagioso...", ao que ele retorquia: "Se o contágio é bom, excelente! Se o contágio for considerado ruim, péssimo!".

É que há palavras que são vírus de matar a Graça, a charis. Por exemplo: competição, produtividade e rendibilidade, que são formas de negar a fraternidade, a liberdade e a igualdade. Tal trindade agnóstica dos economistas deste tempo que passa, envolve o desprezo do homem, da natureza e do sagrado. O homem tornado ser descartável, a natureza como uma serva e o sagrado como postura tola de poetas vagos e beatas serôdias. E assim a vida se nega pela assunção da morte e esta nos despreza, porque a escolhemos por engano.

E há palavras que são vírus de enganar, como o moderno diálogo, que é o divórcio na fala pela emulação dos monólogos; a língua bifurcada com palavras de pontas aceradas, esperando a rendição. Falsamente polidas, envenenadamente sopradas. Eis o credo ainda insepulto e já cadáver, a sombra que passa. Diálogo que, como dizia o mestre, tem o mesmo prefixo que diabo, que é aquele que divide. Diabo que só existe quando lhe damos existência.

E há ainda palavras de ornamento, inúteis como togas, e outras de ruído que empapam a conversa. E há o discurso da promessa e do apelo, a ameaça e os esbirros de soslaio. Mas vem o menino imperador e diz: "basta!" Nem grades nem ornamentos. O menino tem o sorriso bondoso e matreiro do velho professor. Está como sempre esteve, no Príncipe Real, a dar milho aos pombos e palavras de eucaristia aos jovens atentos. Como o viu John Le Carré e quase assim o pôs na "Casa da Rússia" . O escritor só não viu que este era um ritual, um quase conjuro do grande banquete do Espírito Santo, que Isabel, influenciada por Joaquim de Flora, inventou para um dia – um dia de comer de graça para todos – e nós temos de ser capazes de em futuro mais ou menos próximo prolongar por todo o ano. E aí à mesa se conversa, que é o modo mais humano de comunhão dos alimentos do corpo e da alma.

Conversar sim, que é colocar-se a gente na posição do outro. Em conversão, que é um caminho de dois sentidos, uma postura de mútua descoberta.

NB:

Das obras mencionadas em rodapé consulte-se a bibliografia no site mencionado no corpo do testo


[1] “Sete Cartas a Um Jovem Filósofo”

[2] Uma das obras de Agostinho da Silva chama-se precisamente Reflexões, Aforismos e Paradoxos.

[3] Os esoteristas diriam Idade de Aquário

[4] Teoria das três idades: do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

[5] De educação e ascendência cátara, à Rainha Santa Isabel atribui a lenda o célebre milagre das rosas: teria transformado moedas de ouro nas mencionadas flores. O curioso é que à sua tia-avó, Isabel da Hungria, também a lenda diz o mesmo. De Santa Isabel, o que muito poderá despertar a curiosidade dos rosacruzes é a sua relação com o médico, astrólogo e alquimista Arnaldo de Vilanova. O túmulo da santa, com o seu corpo incorrupto, encontra-se no Convento de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra

[6] «Raízes Intemporais da Vida e da Alma de Agostinho da Silva», Ellys, editora Sete Caminhos, Lisboa, 2006.

[7] É bom esclarecer que os célebres colóquios «TRADIÇÃO E INOVAÇÃO – SUA UNIDADE EM AGOSTINHO DA SILVA», que tiveram lugar na Faculdade de Letras do Porto (1996-1999), se deveram ao grande empenhamento da associação agostiniana CADA, onde membros da AMORC e seguidores da Fé Bahá’í tiveram a iniciativa.

[8] “Carta Vária”

[9] “Conversação com Diodima”.

[10] “Conversas Vadias”, entrevistas televisivas. Foram publicadas em DVD

[11] “Quadras Inéditas”

[12] “Parábola da Mulher de Loth”

[13] “Diário de Alcestes”

[14] “Considerações”

[15] “Conversas Vadias”

[16] «Vida Conversável», textos organizados e prefaciados por Henryk Siewierski, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994

[17] Ibidem

sexta-feira, maio 12, 2017

DO ABSOLUTO EM IBN ARABI

 

 

Vendas Novas 13 de Novembro de 2013

Se é que não estou a deturpar o pensamento de Ibn Arabi, nele o ontológico prevalece sobre o teológico, o que, de certo modo, constitui uma heresia, se se tomar à letra o que diz o Alcorão. O seu entendimento de que Deus é uma forma fenoménica, isto é, manifestada, ou adaptada por algo precedente – O SER ABSOLUTO – levaria à histeria qualquer wahabita primário. Sorte de Ibn Arabi, porque Muhammad ibn 'Abd al-Wahhab veio ao mundo muitos séculos mais tarde.

Para Ibn Arabi, o Absoluto pode conceber-se em cinco planos: aquele que lhe é próprio – o da sua absolutidade – e mais quatro da sua manifestação (ou descida):

- O Absoluto manifestando-se como Deus;

- O Absoluto manifestando-se como o Senhor de tudo:

- O Absoluto manifestando-se como mundo sensível.

Este último plano é o dos minerais, vegetais, animais e humanos; é o plano da mundanidade.

O plano mais elevado, digamos assim, seria o do Uno, que em Ibn Arabi não significa nem conjunto de muitos nem o oposto a estes, dado que neste plano o conceito de oposição não faz qualquer sentido. Aqui, «uno» antecede qualquer manifestação, sendo, todavia, a sua fonte.

Todos estes planos, entendidos como uma descida até ao mundo onde vivemos e agimos, implicam a possibilidade de ascensão, cujo corolário é a chamada «união mística».

No pensamento de Ibn Arabi, o mais interessante, porém, é o conceito de perpétua criação, ou seja: o Universo não foi criado e pronto, está permanentemente a ser criado (ou recriado); ele existe e não existe a cada instante…

Trazendo à colação os conceitos rosacruzes de vibração e de teclado cósmico, podemos chegar também às metáforas de Agostinho Da Silva a este propósito e comparar a criação (atendendo a Ibn Arabi) com a feitura de um filme, que se constitui com imagens paradas, as quais, fazendo-se suceder (como sucedem as vibrações), produzem a sensação do movimento.

No filme da manifestação cósmica total, tudo se aniquila e recria a cada ínfimo instante, razão pela qual não podemos repetir a mesma vivência em momentos distintos; não podemos, nos dizeres de Hiraclito, banhar-nos duas vezes nas águas do mesmo rio.

Aceite este modo de pensar, pouco importarão as especulações à volta da natureza de Deus, da Sua vontade, ou da sua palavra na boca dos profetas – coisas da Teologia –, importará bem mais a descoberta dos caminhos de realização e ascensão, admitindo que cada instante de recriação cósmica permite novas e mais gradas qualidades.

Abdul Cadre

quarta-feira, maio 10, 2017

DIETA DO ASTRONAUTA

VIGIE A SUA SAÚDE CONTROLANDO O SEU PESO

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É um factor importante para a sua saúde

Na preparação dos Astronautas os problemas do controle do peso têm merecido a maior atenção Como resultado dessas preocupações foi criada uma tabela alimentar que permite muito facilmente um conhecimento, suficientemente exacto, do valor alimentar dos diferentes tipos de alimentos

O uso dessa tabela implica o conhecimento das seguintes regras:

1) As refeições devem ser tomadas a horas certas.

2) A manutenção do peso exige que não se ultrapassem 30 pontos diários.

3) Para perder peso devem somar-se diariamente o menor número possível de pontos, abaixo de 30.

4) Um regime alimentar, durante 20 dias, com pontuação nula, poderá proporcionar uma perda de peso à volta de 5 quilos.

Nota importante:

Não siga este regime alimentar se tiver problemas de saúde Só o médico poderá tratar o seu caso.

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terça-feira, março 28, 2017

A ALMA

Publicado primitivamente em VERSÍCULOS DO HOMEM

http://abdul.vhblog.zip.net/arch2015-03-08_2015-03-14.html#2015_03-14_18_25_21-100040881-0

 

«A fé não será mais do que uma superstição e uma loucura se não tiver por base a razão, pois não se pode supor o que se ignora sem ser por analogia com o que se sabe. Definir o que não se sabe é uma ignorância presunçosa; afirmar positivamente o que se ignora é mentir. » (Dogma e ritual da alta magia). Eliphas Lévi.

 

 

14/03/2015

Se observarmos neste nosso ocidente, seja dentro das fronteiras de um dado país, seja no concerto internacional, os meios espiritualistas como um todo, excluindo da observação as grandes religiões institucionalizadas, o que mais salta à vista, para além da enorme profusão de grupos místicos, esotéricos, ocultistas e afins é a multiplicidade das terminologias difíceis de conciliar e o excesso dos conceitos, por vezes pouco rigorosos, muitas vezes nada adiantando para o entendimento, mas pecando quase sempre no acrescento das confusões e das controvérsias. Pior ainda, no próprio seio de cada grupo específico, salvas as devidas proporções, como é evidente, o problema é similar.

As nomenclaturas excessivas são invariavelmente um prejuízo para a clareza das afirmações e dos entendimentos; tentar alcançar nomenclaturas convergentes e integrantes, sendo sem dúvida um esforço louvável, raramente é compensador.

De qualquer modo, cremos que o que mais agrava este problema é sobrarem os pretensos mestres e os portadores de certezas e escassearem, na mesma proporção, os verdadeiros buscadores com a humildade suficiente para perceberem que a “verdade” de cada um é apenas uma versão entre as inumeráveis versões possíveis. Diríamos assim que o verdadeiro buscador se caracteriza por esta humildade e por uma dedicação inexcedível à procura do propósito da vida. Por isso costumamos dizer que ele vive de propósito e se alimenta da incerteza, porque sem esta não há questionamento; todos aqueles pontos que outros julgam de chegada, para ele são invariavelmente de partida.

Para quem busca, perguntar é mais importante do que responder; responder é bastas vezes subsumir fenómenos plurais às causas únicas em que previamente se crê, justificando assim a crença. Ora, por mais que as crenças possam gerar lídimas expectativas, o que parece ser claro e insofismável é que tendem a criar e a enaltecer ilusões, a distorcer toda a experiência.

A crença alimenta o reducionismo e este é uma arma ideológica ao serviço das submissões organizadas, sejam elas políticas, religiosas ou simplesmente de poder. O reducionismo é o garrote mais tenaz nos fenómenos de empobrecimento intelectual. Mas adiante.

Para os idealistas desprevenidos que pretendem introduzir-se neste universo, por vezes delirante, dos saberes incomuns, onde a discussão sobre o sexo dos anjos se sobrepõe ao que é essencial, pode bem ser que quanto acabamos de dizer não seja coisa que mereça muita atenção nem constitua aviso sério ou sinal de perigo. De certo modo, pode até ser excitante, porque o pior talvez não seja isto, mas sim toda uma fancaria literária – especialmente a contaminada pelas perniciosas fantasias new age – que produz um sério envenenamento mental dos que não prestam atenção a que o papel aceita tudo o que lá se escreva. Nos carentes de espírito crítico, isto chega a produzir dependências similares às das drogas químicas.

Os que chegam aqui, desiludidos as mais das vezes com as velhas igrejas, mais não fazem que substituir uma ilusão gasta por ilusões que o hão de desgastar.

Não cabendo na presente exposição falar alongadamente da imensa confusão dos conceitos, provocada pela multiplicidade quase sempre desnecessária das designações e pela superficialidade das assimilações, nem muito menos – por falta de espaço – clarificar tudo isto que acabámos de referir à vol d'oiseau, queremos desde já prometer que nos esforçaremos por não aumentar a confusão criticada.

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Nesta oportunidade, é de alma que queremos falar, que é um conceito que todos pretendem entender, mas o facto é que o fazem de uma forma tão particular que não conseguem encontrar quem lhes diga: é isso mesmo. São tantas as imagens conceptuais que se inventam para a alma que, defini-la com precisão se torna uma tarefa impossível. Aliás, definir o que quer que seja é traçar limites, e bem dizia Heraclito que não encontraríamos tais limites, por mais caminhos que percorrêssemos, dada a sua profundidade.

Sendo assim, não esperamos, como é óbvio, a concordância do leitor, apenas lhe pedimos que reflicta sobre as muitas concepções a propósito, entre as quais a nossa. Verá, pensamos nós, que o entendimento não é unívoco e creia que a sua (ou a nossa) crença do momento não é defensável como sendo a crença definitiva para todos os momentos.

A plasticidade das ideias deriva do fluir do tempo. Os gregos pré-socráticos acreditavam na existência de duas almas: a alma alento (thymós), mortal, que usava privilegiadamente os pulmões e o coração e a alma intelecto (digamos assim), que actuava na cabeça e sobrevivia à morte do corpo físico: a psyché. Platão falava-nos, e Aristóteles também, de três almas. A nomenclatura das mesmas, para o primeiro era a seguinte: alma do desejo (produtora da concupiscência), alma do valor (donde nos vinham os impulsos elevados e a vontade) e a alma do entendimento (que nos conduziria à verdade e à compreensão). Na terminologia aristotélica, as três almas eram a alma vegetativa, a alma animal e a alma racional. Já Pitágoras não compartimentava a alma, que considerava de origem divina, diminuída, porém, pelo pecado original. A sua purificação far-se-ia pelo saber e pelas reencarnações.

Os chineses, na sua religiosidade popular, conseguem distinguir dez almas, organizadas em dois aspectos: o aspecto PO (mortal), contendo as sete emoções (cólera, desejo, medo, tristeza, júbilo, amor e ódio) e o aspecto HUN (imortal), composto pelo intelecto, a sensibilidade e a memória.

Quando a Psicologia era apenas uma introspecção – a chamada psicologia na primeira pessoa – tudo parecia claro a crentes e descrentes, aos que acreditavam na existência da alma e aos que negavam. Ligada ou não à herança grega, a teologia apontava para que a alma fosse uma entidade imaterial, que permaneceria para além da morte no céu, no inferno ou por aí. De qualquer forma o peso do significado do termo psicologia não podia ser aliviado. A Psicologia – ciência (ou estudo) da alma – era então uma disciplina integrada na Filosofia.

Com o advento da psicologia na segunda pessoa, o que mais mudou nas crenças e entendimentos foi a susceptibilidade de invadir intimidades, coisa muito apetecida por sacerdotes e conselheiros espirituais e que abriu a porta a terapias da alma e a cátedras inovadoras. Em consequência, para um grande número de pesquisadores, entendia-se a alma como um conjunto de qualidades emocionais, tidas como opostas às qualidades racionais e intelectuais.

Daqui até à psicologia na terceira pessoa foi um pulinho e o interesse pela alma em sentido espiritual desvaneceu-se; a «ciência da alma» afinal já não estudava a alma, mas sim o comportamento – até dos bichos – e, neste aspecto, não se lhe via qualquer vantagem ou distinção de relevo em relação à sociologia. Claro que, do ponto de vista académico, não se pode simplificar tanto, as coisas são um pouco mais complexas, pois várias são as escolas de psicologia e algumas tendem mesmo a repor certos valores próprios da metafísica. Tenhamos presentes os aportes da psicologia analítica de Jung, por exemplo. Mas deixemos isto.

O esoterista Louis Lucas, autor do livro Roman Alchimique, dizia que a alma é uma criação da nossa própria pertença, afirmação concordante com o seu contemporâneo Papus, para quem a vida é dada ao homem para que ele a transforme numa força mais alta: a alma. Para Papus, a alma não seria congénita ao ser humano, seria uma resultante: o produto da vontade bem dirigida e o efeito cuja causa está em nós.

A estes dizeres costumamos nós acrescentar que a alma humana é uma conquista, mas que a alma que nos ilumina é uma outorga, pelo que realizarmo-nos espiritualmente é fazer coincidir a conquista com a outorga.

É evidente que estas três concepções arrepiam completamente as crenças comuns de católicos e protestantes, para quem as almas são geradas por Deus uma a uma e de propósito para animar cada um que nasça…

De qualquer forma, nada disto nos diz de forma inequívoca o que é a alma e não ficamos mais esclarecidos se nos debruçarmos sobre os muito tratados produzidos a oriente e a ocidente sobre o assunto, até porque, muito do que se designa por alma se refere a realidades diversificadas. Por exemplo, Rodolfo Steiner chama alma ao que outros autores chamam corpo astral. E este será também o sentido que se pode retirar do que atrás referimos de Papus e Lucas.

Muitas das concepções sobre a alma, se as escalpelizarmos, negam o princípio de que partem, da sua “imaterialidade”, da sua invisibilidade. Isto dá aso a aparecerem nos meios de comunicação faits divers do género: descobriu-se quanto pesa a alma…

Neste sentido, no oriente não se pesam as almas, talvez porque se distingam muito acuradamente a alma humana (o verdadeiro eu – Atman), da alma universal ou Brahma.

Ao escrevermos atrás “imaterialidade”, entre comas, tínhamos em mente algo que não vamos desenvolver aqui. É que pode ter-se o entendimento de que tudo seja matéria em níveis diferentes de manifestação (ou de consciência). Neste caso – evidentemente – teríamos de assentar no que é que se entende por matéria. Veja-se que, para os pitagóricos, o homem representava uma unidade de contrários, uma harmonia entre o corpo finito e a alma infinita. Aliás, para eles, finito e infinito sustentavam-se mutuamente

Ultrapassando este quid pro quo e tendo em vista desembaraçarmo-nos de confusões improfícuas, caberá dizer-se que o nosso pensamento, contrariando muito do que é corrente no meio esotérico, vai no sentido de dizermos que existem dois – e apenas dois – planos de existência: o finito (mundano e objectivo), acessível às ciências académicas, e o infinito (espiritual ou metafísico), dito por vezes invisível. O que se queira conceber entre um e outro plano não poderá constituir um terceiro plano, mas uma twilight zone, uma zona onde o astral e o subatómico se misturam. Onde dissemos astral, poderíamos ter dito psíquico. Neste entendimento, falarmos de corpos, no invisível, só pode passar como retórica, estilo ou necessidade didática.

Os planos de existência catalogados pelos ocultistas não são lugares, mas tão-somente modos de ser e de estar. As concepções trinas, quaternárias, quinárias, septenárias (e outras) são tentativas de entender e explicar a existência fazendo uso de esquemas mentais simplificadores que, ao fim e ao cabo, mais confundem do que simplificam. Quando queremos falar da realidade mais profunda, podem sobrar as palavras – e elas são invariavelmente excessivas – mas o que elas signifiquem será sempre insuficiente e impreciso. Por outro lado, conceber-se um modelo para representar essa realidade, tem sempre o ónus de distorcê-la.

Quando se diz que o corpo humano se divide em cabeça, tronco e membros, estamos no campo da didática, queremos distinguir funções específicas, não estamos no campo da demonstração de três realidades diferentes. Separada que seja a cabeça do resto do corpo não será de corpo que se fala, mas de cadáver mutilado. Por maioria de razão, nada é separável no “invisível”, naquilo que é inconsútil por natureza. No invisível, isto é, no infinito o espaço não é concebível, a tridimensionalidade é um absurdo e o tempo perde o sentido. A seu respeito, o mais que podemos imaginar – por razão e por intuição – são escalas vibratórias. Mas cuidado com a imaginação, porque esta palavra não deriva apenas de imagem, também leva no ventre a palavra magia. E não há magia que nos faça ver nem imagem que se veja que nos desoculte o mistério, para além das crenças comuns de religiosos e esoteristas, de como é que o imaterial pôde manifestar o material, malgrado bem sabermos que o ponto (sem dimensão) deu origem a todas as dimensões, a toda a geometria conhecida, como diria Agostinho da Silva. Os cientistas, que detestam – e fazem bem – todo o mistério (no sentido de inexplicável), retorcem-se e não conseguem explicar como as partículas subatómicas se convertem em matéria, daí tanto se excitarem com o bosão de Higgs, popularizado como partícula de Deus, susceptível de aliviar tanto stress.

Pois bem. Chegados aqui, pedíamos ao leitor o seguinte esforço: tente aceitar, como puro exercício reflexivo, a concepção que mais abaixo tentaremos desenvolver, a qual não é apenas nossa, embora leve, obviamente, a nossa marca. É uma concepção muito grata aos rosacruzes dos altos graus que o leitor, se acaso tem facilidade de investigar psiquicamente, poderá comprovar por si. Se este for o caso, virá a concordar que as teorias dos cinco corpos, dos sete corpos e explicações semelhantes fazem parte de um modo de produção em que livros reproduzem livros, aos contos se acrescentam pontos, às crenças mais crenças e, da experiência, do estudo, da meditação pouco vem. Ou nada vem.

O exercício reflexivo é o seguinte: Vamos admitir que o Absoluto – a que podemos chamar Deus – contém em si tudo o que existe e tudo o que não existe e, sendo assim, toda a inteligência ali reside. Ao exercício dessa inteligência podemos chamar Consciência Cósmica, cuja manifestação e expansão se faz mediante um fluxo energético com duas polaridades: à polaridade negativa, de características pró-materiais, poderíamos chamar maré de vida; à polaridade positiva, de características imateriais, chamam os rosacruzes alma universal. Para os mesmos rosacruzes, este fluir, que designámos atrás por maré de vida conteria em si duas energias: a energia espírito e a força vital. Mas aqui surge uma pequena divergência da nossa parte às propostas tradicionais de base dos rosacruzes, que nem divergência será, mas apenas nuança, perspectiva e simplificação; nós, que somos estudantes apenas, identificamos a maré de vida com a própria energia espírito e estamos em crer que a força vital – o prana da tradição hindustânica ou Chi, segundo os taoistas – resulta da interacção com a alma universal. Não seria possível sem esta.

Nesta concepção, cabe referir algo que achamos muito interessante, que dizia Blavatsky: a matéria é espírito cristalizado e o espírito é matéria subtilizada. Isto levar-nos-ia à tal concepção de dizermos que tudo é matéria (ou que tudo é espírito).

Dado que nos temos referido a espírito e a espiritualidade – toda a pobreza resulta da imprecisão e insuficiência das palavras –, tenhamos cuidado, porque quando falamos de espiritualidade e dos valores e natureza espiritual do homem, não nos referimos propriamente à energia espírito, mas sim aos influxos superiores da Consciência Cósmica no homem. Acontece, porém, que falarmos destes influxos implica termos em mente que eles se exercem sobre alguma coisa, tal como em electricidade não podemos conceber o polo positivo sem o negativo, caso contrário não haveria corrente. Eis, nisto tudo, a dualidade nos seu esplendor,

É bem-sabido que para muitos entendimentos, verbo gratia religiosos, espírito e alma são a mesma coisa; para outros, nomeadamente para os rosacruzes, trata-se de duas essências igualmente divinas, mas de frequências vibratórias distintas: mais elevadas as da alma, mais baixas as de espírito, que por serem, digamos, mais densas manifestam-se primariamente nas formações subatómicas.

A alma, pela sua subtileza e altíssima vibração é indivisível e inseparável da sua fonte. Ela infunde no homem as características psíquicas e só psiquicamente se pode manifestar, nomeadamente como veículo de consciência. Esta é a razão dos campos intermédios, que referíamos atrás com a expressão pouco rigorosa de twilight zone. O corpo psíquico (nomenclatura rosacruz), o envoltório fluídico (nomenclatura martinista) o corpo astral (nomenclatura mais comum na literatura esotérica) é a ponte entre a alma e o corpo físico.

E não se veja contradição à nossa crítica atrás, de acharmos inapropriado falar de corpos no invisível, porque as vibrações mais baixas do astral, em certas condições, podem estimular os nossos sentidos objectivos, nomeadamente a visão. Se tivermos acesso a um bom microscópio não vamos dizer que os micróbios são invisíveis.

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Para terminar, diga-se então que o corpo psíquico (ou astral) não é a alma; aquele é mortal e esta é imortal, porque inseparável da fonte. Esta é a razão de costumarmos dizer em tom de brincadeira, mas que todavia é uma afirmação séria, que nós não temos alma, é a alma que nos tem. Temos, obviamente, o seu influxo, que produz na nossa personalidade um desejo de eternidade e um desejo de altura, que a leva a querer reflectir, a querer parecer-se com a alma. Daqui o conceito personalidade-alma (personalidade da alma ou alma personalidade), que pode justificar a afirmação de Louis Lucas de que a alma é uma criação da nossa própria pertença. Criação progressiva, diríamos nós, porque esta alma humana ascende e progride em sucessivas reencarnações.

quinta-feira, março 09, 2017

FALAR DE AMOR SEM RECURSO AO MANUAL

 

Falarmos de amor nem sempre se entende na dimensão que lhe queremos dar. A nossa sociedade hedonista pensa o amor em termos estritamente físicos e mundanos. Por virtude disto (ou defeito) ouve-se amiúde a estafada frase «fazer amor», como se o amor fosse uma espécie de artesanato. O que quem usa a frase quer dizer na sua é copular, ter relações sexuais, etc., e bem andam os jovens quando lhe chamam curtir. Mas isto não é amor? Não, não é, é curtir. Alimenta-se da energia global que chamamos amor, mas não é amor, é uma componente biológica deste, estreitamente ligada ao instinto de sobrevivência, ao repúdio da morte. Cabe na dicotomia Eros e Tanatos, não mais do que isso. Se não, qual a componente de amor relacional no sexo comprado? Qual o amor – se o ódio (sua inversão) o não assiste – da prostituta com o seu cliente?

Mas impõe-se que se diga que, no amor pessoal entre um homem e uma mulher, a sexualidade, para além da sua função reprodutora, tem um papel extremamente relevante na sintonia emocional e no equilíbrio fisiológico, mediante o princípio do prazer. Toda a energia gasta no acto é energia que se recupera em termos de saúde e saciedade, o que reforça o amor conjugal, por mais que se queira ver aí apego apenas. Sê-lo-á certamente se a condição de dádiva for prejudicada pela de posse.

Perguntar-se-á então o que se passa na homossexualidade. Do meu ponto de vista, o acto sexual entre pessoas do mesmo sexo estará inevitavelmente diminuído das principais componentes que tornam a sexualidade necessária e apaziguadora, por muito que possa ser gratificante.

A intimidade física, emocional e intelectual entre dois seres que mutuamente se atraem, envolvendo sexo u não, prendem-se com o que o amor impessoal tem de mais englobante e unificador da humanidade, que é o sentido libertador dos limites do eu. Uma expansão do eu, digamos assim. Aqui é preciso fazer notar que usamos o conceito «eu» como o usa a filosofia, a psicologia e o senso comum. Nada daquelas confusões ocultistas e dos navegantes nas fumaças New Age. O eu é o eu, a faculdade de dizer tu. Cresce quando somos capazes de dizer eu sou tu. Cresce ainda mais quando somos capazes de sentir sermos um com toda a humanidade, um com todos os seres, com todas as coisas.

Falamos de expansão da consciência.

sábado, dezembro 24, 2016

O EU E O EGO PELAS RUAS DA AMARGURA

 

Vendas Novas 20 de Outubro de 2016

Para os rosacruzes, o ego é o nosso eu objectivo, isto é, o «eu» com o qual nos identificamos quotidianamente. A alma é bem outra coisa, embora por vezes se lhe chame «Eu espiritual». Seguindo a tradição oriental, há quem lhe chame centelha divina, ou eu superior.

Os jargões próprios de cada área de conhecimento não conseguem ser, tanto quanto os seus utilizadores gostariam que fossem, pessoais e intransmissíveis. Uma ou outra área quase o consegue, mas a regra é a interpenetração. Já repararam como conceitos económicos são usados a propósito e a despropósito de tudo e de nada, como por exemplo mais valia?

E falar de quanta? É uma delícia. Não há quem confesse que não sabe do que se trata.

Nas conversas com os meus amigos ligados ao esoterismo (rosacruzes incluídos) muito me cansa, para além das confusões de nomenclaturas, o uso de certos convencimentos mecânicos e alguns preconceitos que roçam os complexos de superioridade. Por vezes encontro-me a pensar que levam pouco a sério a principal qualidade de um buscador: ser um ponto de interrogação que caminha, não um ponto de exclamação que se pavoneia.

No campo do esoterismo, pouco interessa a quantidade do que se possa saber; a forma, a qualidade, a especificidade do que se sabe é que importa. Encontrar aqui pretensas superioridades, dá que pensar. Antes de afirmarem coisas, seria bom procurarem múltiplas perspectivas e assimilarem a humildade de quem está em actualização permanente. Já viram o que acontece com os programas de computador? Sempre em actualização. Como dizia o grande vate, toda a vida é composta de mudança. Tudo muda quando mudamos. Ou muda o nosso entendimento. Ressalve-se que não deveríamos olhar o esoterismo como apenas um intelectualismo.

A falta de respeito que comummente se tem nestes meios pelo saber académico só tem comparação com a mesma falta de respeito que os meios académicos nutrem pelos conhecimentos esotéricos, mas creio que tal desprimor se justifica bem mais por parte destes do que daqueles, dado que uns – os académicos – se esforçam por saber e por mudar, enquanto os outros se agarram ao que julgam saber, sem se preocuparem com outros saberes, numa auto-suficiência imprópria de quem busca. Aquelas frases feitas de que os esoteristas sempre souberam, ou o saber oficial não entende são de uma pesporrência um tanto irritante. Pregar-se depois a humildade é de bradar aos céus. A humildade é coisa que só podemos exigir de nós próprios, não dos outros, desde que afinal não seja usada como o seu contrário. A humildade não cabe sequer em intenções, é uma prática de poucos, mas nestes poucos nem sempre é virtude.

Digamos então que o conhecimento não é nem pode ser um exclusivo das academias. Além disto, deve entender-se que o conhecimento não é a verdade, faz parte da sua busca, mas não é a verdade. A verdade é o horizonte e, como tal, nunca se alcança, apenas se persegue. Que se desiludam os esoteristas que pensam ter alcançado o horizonte. Lastimemo-los e lastimemos também os académicos que limitam o conhecimento estritamente ao mensurável, porque o que é verdadeiramente importante na vida não se mede, sente-se apenas.

Por vezes, um certo voluntarismo dos esoteristas ultrapassa o aconselhável bom-senso; o uso de jargões da ciência, deslocando-lhes o sentido ou dando-lhes sentido outro, justificar-se-iam se objectivasse a clareza ou o enriquecimento dos conceitos, mas invariavelmente é o contrário que acontece.

Já repararam, por exemplo, como à revelia da Psicologia, se persiste em distinguir Ego de Eu, o que faz Freud e Jung darem voltas na tumba, porque o que distingue verdadeiramente ego de eu é apenas a origem etimológica, respectivamente grega e latina. Assim, por razões específicas e necessárias é bom que o termo EGO fique entregue às ciências psíquicas e se deixe o EU para a linguagem comum e a literatura. Afinal, toda a gente sabe o que é o eu, mesmo que não seja capaz de o definir. Não há qualquer benefício em complicar e confundir: eu é o que nos permite tratar o outro por tu. É assim na Gramática, na Psicologia, na vida,

Querer distinguir ego de eu, para falar do objectivo e do subjectivo não aquenta nem arrefenta. Por outro lado, para referirmos acepções transpessoais, há sempre o recurso aos qualificativos. Podemos ver isso, por exemplo, ao falar-se de morte clínica, morte cerebral, etc. Assim, quando ouvimos alguém dizer «eu superior», percebemos evidentemente o que se quer referir. Todavia, se é alma que se pretende invocar, por que se não diz?

Por favor, meus amigos, deixem o ego, o self, o id e quejandos com aqueles a quem faz imenso jeito e não usurpem nem deturpem, porque não é necessário.

ABDUL CADRE

sábado, dezembro 10, 2016

PARTICULARIDADES COMUNS

 

Vendas Novas, 2 de Junho de 2005

Na vida só temos duas horas que são realmente nossas: a hora de nascer e a hora de morrer. Todas as outras são comuns, colectivas, mais dos outros do que de nós. E pouco importantes, nem sequer são horas, são minutinhos com as suas minudências.

Os pingos de chuva são muito aborrecidos, porque parecem todos iguais; divertida é a paisagem que os pingos de chuva reverdecem; divertida por ser vária, por ser plural, por nunca se despedir de nós.

Nós é que nos despedimos da paisagem e isso acontece quando julgamos que não lhe pertencemos ou que somos os culpados da queda da folha.

Abdul Cadre

terça-feira, setembro 06, 2016

REFLEXÕES A-CIENTÍFICAS

 

V. N. 4 Set 2016

Querida Soror,

A sua exposição «postada» (como agora se diz) no FB, em 1 do corrente está muito bem-feita. Assim, o que se segue não é uma crítica nem suprimento para qualquer lacuna, trata-se tão-só de um conjunto de reflexões a partir dos seus pontos de vista.

A primeira reflexão é que um dos grandes problemas de quem se move no campo da espiritualidade é querer conciliar as nomenclaturas do que se crê e sabe neste campo com aquilo que o pensamento comum diz por dizer e o que a ciência com empenho prova. Desta forma, o termo consciência, por exemplo, para um espiritualista tem um significado incompreensível para as massas que falam pelo eco do que ouviram e um significado controverso para a ciência dos pesos e medidas.

Quando um popular diz para outro «és um inconsciente» ou diz de outro «fulano é muito consciente», não se refere à consciência como entendida pelos espiritualistas nem à consciência proposta pelos cerebristas das ciências de proveta, que muito sabem e dissecam mas não nos conseguem explicar por que as amibas, não tendo cérebro, todavia têm consciência, procuram alimento, nadam, reproduzem-se e aprendem.

Para colmatar este despropósito das nomenclaturas, pensam muitos que seria bom que os espiritualistas pudessem ter e usar jargões inequívocos, mas talvez isto não seja possível nem útil. As tentativas havidas que se conhecem têm saído goradas. Então, uma solução mais cómoda poderá ser esta: procurarmos usar a nosso favor os termos da psicologia, mais concretamente fazendo o percurso psicanálise, psicologia das profundidades, psicologia humanista e psicologia transpessoal, relegando, por razões óbvias tudo o que se prenda com o behaviorismo, dado que uma psicologia comportamental é um absurdo, contém uma contradição nos termos. Ficaria bem, talvez, na sociologia.

Também os modismos, new age ou outros, deverão merecer alguma parcimónia e, em muitos casos, a crítica ou mesmo a rejeição. Um modismo de grande uso acrítico é o de inteligência emocional, conceito atribuído a Wayne Payne, e que enfeitou a sua tese de doutoramento em 1985; daqui a crença no cientismo da coisa, Mas é muito pouco científico. Pascal conhecia muito bem a profunda separação que existe entre a inteligência e a emoção e afirmava que os dois principais sustentáculos da verdade – a razão e os sentimentos – «se enganam mutuamente» (Pensamentos – 1662). Com a sua apurada clarividência, Fernando Pessoa, que não era cientista, mas via mais de olhos fechados que a maioria, que se reivindica do saber científico, de olhos abertos, dizia que «Toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem, portanto, uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que se não sente». É por aqui que eu justifico os meus dizeres de que a palavra serve mais para mutuamente nos enganarmos do que para nos entendermos…

Mas, o que é a inteligência?

Uma brincadeira de psicólogos diz que inteligência é aquilo que os testes de inteligência medem. Sem brincadeira, uma das coisas que muitos psicólogos não conseguem entender é que, por exemplo, a estupidez não seja – porque para eles é – o contrário da inteligência. Custa-lhes aceitar que a estupidez faça parte da inteligência, que esteja nela contida; que seja uma deficiência, uma avaria na inteligência, que é o mesmo raciocínio de Santo Agostinho em relação ao bem e ao mal e que ecoa no pensamento rosa-cruz no dizer: «o mal é uma luz menor». A palavra de engano, como atrás referi, integra-se nesta lógica da deficiência, do defeito.

É evidente que isto só fará sentido para quem entenda que a inteligência, em termos absolutos, não nos pertence, embora esteja ao nosso dispor. Se aceitarmos que é assim, teremos de olhá-la como um desiderato, um desejo de perfeição que só a estupidez permite. Como é que alguém pode desejar ser inteligente se já for inteligente, ou querer ser perfeito se se julga perfeito? Só podemos querer ser inteligentes se o não formos. E aqui valem as teorias dos quanta: se por acaso observarmos a perfeição, ela deixará de estar onde a observámos. É como caminharmos para o horizonte: damos dois passos na sua direcção e ele afasta-se de nós os mesmos dois passos.

Então, recorremos às técnicas meditativas que, na maioria dos casos, não são verdadeiramente meditativas, mas reflexivas, actos de contrição, congeminações, discorrências, cogitações. A meditação exige que calemos a nossa estupidez para que a inteligência possa fluir sem tropeçar nos defeitos; exige que a nossa mente não se envenene com os nossos pensamentos. Aquilo a que chamamos evolução depende disto? Talvez. Basta que entendamos que evoluir é fazer com que a personalidade se identifique com a natureza da alma, pois que falar de evolução fora deste entendimento obriga a admitirmos o seu contrário, a involução, tal como falar de saúde implica aprendermos o que é a doença. E é assim que voltamos às explicações de Santo Agostinho sobre o bem e o mal: a doença só existe como deficiência da saúde, não tem autonomia, tal como a estupidez não tem autonomia.

De evolução também podíamos dizer, acompanhando Gurdjieff, que é passar do estado animal ao hominal, entendendo-se que o animal está condicionado pela necessidade e pelo medo, sensações que têm como resposta natural a agressão e a fuga. A mudança de estado – de reino da natureza – só é possível mediante a transformação do nosso condicionalismo bruto a uma etapa superior, onde seremos condicionados pelo amor, que é a força motriz do bem. O amor impessoal, note-se, não o apego nem a sexualidade, seus componentes menores, que aliás já nos condicionam por apelo simples e natural. Mas não se trata de aprisionar o animal que habitamos, mas de usá-lo adequada e inteligentemente.

Querida Soror, na sua exposição, o que me parece de argumentação mais frágil é o que concerne à felicidade e à identificação de mudança com a criação de consciência. Dizia Pessoa: «eu não evoluo, viajo»; e digo eu com frequência que felizes são os gatos com a barriga cheia na sua almofadinha de veludo, mas talvez não se sintam infelizes se perdem uma coisa e outra, vão em busca do conforto perdido, naturalmente.

A palavra felicidade, com a sua conotação romântica e burguesa traduz um conceito muito equívoco. Ela quer dizer o quê? Contentamento? Bem-estar? Alegria? Satisfação? Bem-aventurança? Júbilo? Plenitude? Beatitude? Felicidade ou momentos de felicidade?

No que concerne à consciência, sendo a inteligência um dos seus aspectos, teremos de argumentar como atrás fizemos para esta: a consciência é algo de global, não nos pertence; ela não evolui, ou antes, não podemos saber se sim ou não evolui, tal como o nosso gato, na sua almofadinha de veludo, não sabe se nós evoluímos ou não, porque o seu foco de consciência é a almofada, o conforto e a comida; o que ele poderá notar é se o conforto é maior ou menor que o habitual. Sendo nós a consciência que condiciona a sua consciência de gato – ambas consciências reflectidas, infundidas – o que ele julga de nós será mutatis mutandis o que nós pensamos da Consciência-Deus. Dito tudo isto de outro modo, a nossa consciência individual dizemo-la evoluindo e crescendo, ou melhor expandindo-se, quando viajamos mais e mais – como Pessoa – nesse mar inconsútil que é a Consciência Cósmica. O desejo dos rios é serem mar e o desejo do mar é acolher os rios. Este é, a meu ver, o processo de consciência e os pequenos rios que são as infusões individuais de consciência que chamamos nossa não evoluem, fluem e são mar quando podem, quando chegam ao mar, quando com o mar se identificam. E repetimos o que atrás dissemos: evoluir é fazer com que a personalidade se identifique com a alma.

Posto isto, vou tentar ser mais minucioso e preciso quanto ao meu entendimento de Alma, Consciência e, inevitavelmente de Mente. Este entendimento não será melhor do que outros bem pensados, mas parece-me bastante coerente e equilibrado. Não o tenho como proposta acabada, mas como tentativa de sintonizar os ensinamentos da ordem com as vertentes mais estritamente académicas e, em simultâneo, torná-los acessíveis a quem os procura movido pela espiritualidade.

Há muitos anos, quando nos liceus se ensinava Psicologia integrada na Filosofia, enaltecendo-se a metafísica, isto é, valorizando o conceito de alma mais do que as respostas comportamentais, dizia-se que as potências da alma eram memória, entendimento e vontade. Se a isto acrescentarmos o ensinamento rosa-cruz de que só há uma alma; que quando falamos da Alma do Homem – que é Deus no Homem – podemos estar a confundir o conceito ou a levar outros a confundirem-se. Por isso, havendo uma só Alma, teremos de vê-la como a Consciência Absoluta, a Consciência Vivente de Deus onde se aplica com todo o rigor e propriedade Memória, Entendimento e Vontade. É apropriando-nos destas três potências que logramos navegar pelos processos de consciência. Neles, podemos atender aos três graus básicos tradicionais das escolas iniciáticas: Aprendiz, Companheiro e Mestre:

- Aprendiz –» Consciência Objectiva –» sentidos físicos

- Companheiro –» Consciência Subjectiva –» pensamentos, sentimentos

- Mestre –» Consciência Supra-sensível –» êxtase, projecção psíquica

Como é evidente, o processo de consciência inicia-se pela autoconsciência, que é a reacção dos seres vivos aos influxos da Consciência Divina. É por aqui que surge o entendimento da generalidade das escolas iniciáticas de que a mente é uma elaboração e expressão do fenómeno da consciência. Eu prefiro dizer que a Mente é o papel onde a Consciência se escreve (ou inscreve).

Se tudo isto for como aqui se diz, a consciência individual (inseparável do todo que é a Consciência Cósmica) não cresce verdadeiramente e quando dizemos que se expande, ou falamos em processos alterados de consciência, o que queremos dizer – ciente ou não do facto – é que a nossa capacidade de leitura na cartilha paternal que é a Mente Cósmica cresce; que a nossa memória, o nosso entendimento e a nossa vontade se encontram em perfeita sintonia e se identificam com as potências da alma.

ABDUL CADRE

segunda-feira, agosto 10, 2015

TORRE DE CONTROLO

 

Histon, Cambridge, 10 AGO 2015

Gravamos a nossa voz numa cinta magnética e podemos reproduzi-la as vezes que quisermos, mas é evidente que de modo algum nos ocorreria dizer que o reprodutor fala. Aliás, dá-se um fenómeno curioso, que é a dificuldade de identificarmos a voz gravada com a nossa verdadeira voz. De modo um tanto similar, quando ouvimos na rádio alguém a falar, sabemos perfeitamente do que se trata: não é o receptor que tem o dom da fala – ele é apenas um meio –, quem fala é o indivíduo que está no estúdio; a autonomia do aparelho não vai além dos seus circuitos eléctricos.

Também podíamos pensar do cérebro e admitir que a mente cerebral não existe por si, é um meio através do qual se reproduz, nos limites que lhe são próprios, aquilo que chamamos de mental.

É por demais evidente que sem cérebro não comunicaríamos, não raciocinávamos, não recordaríamos, ou, pelo menos, não o faríamos de forma organizada e voluntária, do modo superior que sabemos. Haveria, certamente, reflexos mecânicos originados pelas células, mas nada mais do que isso.

Sem a torre de controlo, os automatismos somáticos seriam muito limitados e a nossa humanidade não tinha como se reflectir no mundo.

A nossa vida seria muito baça.

Abdul Cadre

quarta-feira, agosto 05, 2015

O INSTANTE



Histon, Cambridge, 05 AGO 2015

Mesmo nos meios espiritualistas, onde se esperaria que o conceito fosse menos premente, há quem use e abuse do termo evolução. Eu prefiro falar de progresso, de progredir, sobretudo para me esquivar a equívocas conotações darwinianas, quase sempre inapropriadas fora do seu específico campo. Não sendo esta então a única razão da minha preferência, trago aqui uma outra, esta pessoalíssima.
Nos meus tempos de fumador inveterado – isto foi há mais de trinta anos e não teve nada a ver com evolução –, retirava-me por vezes para um recanto sossegado e punha-me, fazendo boquinhas de peixe de aquário, a expelir argolinhas de fumo, que evoluíam no ar até se desvanecerem completamente. Dizia então para com os meus botões: a evolução é isto, andar em voltas até desaparecer. Qualquer que seja a perspectiva e o contexto, é isto.
Pela mesma tónica, gostando eu de fazer longas caminhadas, não gosto nada de ter de regressar ao ponto de partida pelo mesmo marcador de passos. Sequela dos anéis de fumo, não gosto de andar às voltas, isto é, de evoluir, porque eu não evoluo, apenas procuro progredir no caminho que me escolha. Evoluiria sim – quem sabe? – se a memória me libertasse e eu fosse por aí, às voltas, até desaparecer…
Curioso. E de certo modo paradoxal: tenho um certo gosto em desaparecer, não de mim, que não sou fumo, mas dos olhos que vendo-me de verdade me inventam da forma que lhes dá jeito. Ora, não sendo eu de companhia – que isso são os gatos e os cães –, afasto-me, não vá eu, por distracção, pôr-me a acreditar não invenção que de mim façam amigos e inimigos, tanto faz.
Afasto-me, mas não excluo de modo algum quem me invente, ou nem isso. Esses estarão mais presentes do que se perto estivessem. E mais autênticos, porque não os invento nem os imagino, pois fazem parte da minha circunstância. Eis a razão pela qual a minha adorada solidão é tão povoada. Nela tudo incluo, não por recurso à memória e à nostalgia, mas por ficar, como quem faz boquinhas de peixe de aquário, a expelir anéis de fumo que evoluem. Eu que já não fumo. Eu que não evoluo.

Quando chego junto ao lago dos patos e dos peixes e lhes atiro pedacinhos de pão, nem eles nem eu evoluímos, apenas nos integramos na plenitude do momento, do instante onde a eternidade nos toca e a morte nada pode. 
ABDUL CADRE

segunda-feira, agosto 03, 2015

MEDITAÇÃO

Histon, Cambridge, 02 AGO 2015

Com propriedade ou sem ela, há muita prática mental a que, não o sendo verdadeiramente, ou não o sendo no sentido do êxtase, da contemplação, é uso chamar de meditação,.
Muitas dessas práticas não ultrapassam o nível de exercícios de pacificação e condicionamento mental, caracterizando-se comummente pelo uso da auto-hipnose, do pensamento criativo, da reprogramação neuro-psíquica e toda a sorte de induções imagéticas.
Ora, todas estas práticas, independentemente do método ou sistema seguido têm um handy cap incontornável: carecem da liberdade essencial que constitui a não sujeição a modelos. Estabelecer ou aderir a condições prévias impede o verdadeiro estado meditativo, ou êxtase.
Contorcionismo, posições exóticas, mantras, música celestial podem induzir um relaxamento profundo, mas não nos livram da tagarelice da corrente do pensamento nem do desejo de alcançar algo, de ter um objectivo, quando o verdadeiro estado meditativo se caracteriza pela morte do eu que o pensamento inventou com a cumplicidade do tempo. Querer calar o pensamento é todavia pensar e esta mesma intenção é de qualquer forma um desejo, o assumir de um objectivo.
A meditação exige um estado contemplativo (um estado inclusivo de observador, observado e circunstância) proporcionado pelo silêncio e pela atenção; uma ausência de conflito, o qual é inevitável quando o pensamento joga a sua dialéctica do prazer e do remorso.
De meditação, sobram os gurus que a moda acomoda e sobram os processos ilusórios de fuga e rendição.
Faz alguns anos, naqueles encontros havidos na casa do Professor Agostinho da Silva, apareceu por lá um desses gurus em sobra, tido como destacado dirigente de um certo grupo esotérico (?) que resolveu, vejam bem, ensinar o Professor a meditar. «Ó Professor, faça assim, ponha as mãos assado». Até que o visado, incomodado com tanta presunção e estontearia, exclamou: «Ó homem, deixe-me! O que é que pensa que eu faço todo o dia?»
É isso. A meditação só pode ser o que fazemos todo o dia, tem de estar em todos os nossos actos, num modo de atenção e percepção que nos conduza ao autoconhecimento, porém, o autoconhecimento não é o que mais comumente se pensa que seja.
Ilude-se aquele que afirma conhecer-se – eu conheço-me muito bem – porque só se conhece quem não julga nem se julga, quem não projecta no eu os seus desejos e crenças, a sua sombra, na linguagem junguiana. No autoconhecimento não se fazem conjecturas nem juízos morais sobre o que somos ou não somos, apenas se percebe o que somos com todas as nossas características indivisíveis em conceitos de vícios e virtudes.

Não há meditação sem autoconhecimento nem este sem aquela. Sem autoconhecimento, o que quer que se entenda ou faça como meditação é do domínio do ilusório, da sujeição aos caprichos, aos modelos, às crenças, às superstições, tudo coisas que nos limitam, quando a verdadeira meditação, que podemos chamar de êxtase, ou de contemplação implica liberdade plena. Tal liberdade exige romper com o fluxo do pensamento e quebrar as cadeias do próprio conhecimento, todo ele feito de memórias encadeadas e raciocínios tramados pelo tempo passado. Todo o conhecimento produzido pelo intelecto é uma arqueologia, um reviver do passado, uma coisa morta – todo o passado é morte – uma negação da eternidade. Damos de barato que é a nossa circunstância, mas contrapomos que não é a nossa natureza mais íntima, a qual só perscrutamos quando o tempo se dissolve, o pensamento se detém e a mente se aquieta.
Abdul Cadre

quarta-feira, janeiro 07, 2015

A CONSCIÊNCIA

Vendas Novas, 06 JAN 2015

  • A ciência, aquela abstracção a que chamamos ciência real ou concreta, é sempre como aquelas casas para cuja ampliação se aproveita cantaria de outras.

Agostinho da Silva

Há conceitos que se usam com o maior dos à-vontades como se fosse pacífica a sua invocação e unívoco o seu entendimento. Tal é o caso, entre muitos outros, de «consciência». Afinal, quando dela falamos, de que falamos verdadeiramente?

Elaborados ou não, vários são os entendimentos. Por exemplo, confunde-se bastas vezes carácter com consciência quando, se atentarmos bem, o primeiro refere-se à disposição habitual e à reposta comportamental típica consequente ao temperamento e à sensibilidade, enquanto a última é aceite geralmente como significando a percepção do dever, o sentido do bem e do mal.

Mas temos mais.

Perante um acto impensado e perigoso, diz um amigo ao outro: és um inconsciente; daquele que trabalha com muito esmero e responsabilidade, diz-se que é um trabalhador muito consciente; da vítima gravemente ferida num acidente de automóvel poderá dizer-se: está ainda encarcerado, mas perfeitamente consciente...

Em português, consciente tanto pode querer dizer «que sabe que existe» (autoconsciência), como «que sabe o que faz», que é cônscio, sabedor, ciente. É o «concienzudo» castelhano, que se pode traduzir por cuidadoso. E vale a pena lembrar que na língua castelhana, que muitos chamam língua espanhola, temos o termo «conciencia», que é a consciência conotada com a moral e o termo «consciência», que significa conhecimento. O interessante, como curiosidade divertida, é que muitos portugueses, conhecendo ou não o castelhano, em vez de pronunciarem consciência, pronunciam erradamente conciência, que é um termo que a língua portuguesa não regista nem está previsto nas tropelias da aberração conhecida como «acordo ortográfico».

É evidente que a polissemia do termo pode confundir a conversa e obnubilar o entendimento, e do que queremos falar é de consciência em sentido mais restrito do que o corrente mas de modo algum tão restrito que fique subsumido ao sistema individual de valores morais, ao certo e ao errado da conduta, sem prejuízo, no entanto, de querermos privilegiar a vertente metafísica do assunto, mas sem descurar os importantes e significativos aportes dos grandes investigadores da ciência académica da Psicologia.

Queremos também que não se confunda mente com consciência e se aceite que cada ser humano, sendo uma unidade de consciência, transporta em si, em cada célula, em cada órgão, unidades escalonadas dessa mesma consciência.

Para a ciência moderna, mente e consciência são produtos da actividade cerebral. Platão e Descartes não entendiam assim, defendiam mente e cérebro como entidades separadas. Se nos perguntamos se são os acontecimentos baseados no cérebro que causam a experiência consciente ou se é a experiência consciente que causa mudanças no cérebro, não raro somos empurrados para a velha história do ovo e da galinha. Entendemos perfeitamente que a ciência se preocupe apenas com o que ode pesar e medir e que reduza a consciência à electroquímica, às ondas e às localizações cerebrais. No nosso entendimento, que não é científico, tudo isso nos parece pouco, porque é apenas a parte visível (digamos assim) de um imenso iceberg; é a redução da consciência aos fenómenos do comportamento, da atenção e da percepção. Todavia, por mais que seja um handy cap não sermos cientista, e sem carregar excessivamente na perspectiva metafísica, diríamos que a consciência individual – o eu – é um processo potenciado pela consciência humana global, sendo esta infundida pela consciência cósmica que emerge da mente total e absoluta, que muitos designam por Deus. Como energia subtil, é universal; como função, é critério nos humanos e instinto de sobrevivência nos animais e no que em nós há de animal.

Eis então que a nossa assim delimitada consciência constitui um processo mental, certamente com implicações fisiológicas, mas não apenas, não meramente um processo fisiológico. Do nosso ponto de vista, não é um produto do cérebro, sendo que este é, sobretudo, um interface entre o soma e a psique. Veja-se, por exemplo, que as amibas não têm cérebro e todavia têm consciência, não ao nosso jeito, como é evidente, mas ao jeito delas.

É nossa convicção que não foi o cérebro que inventou o pensamento, mas que foi o pensamento puro – que é uma potência cósmica – que infundiu e desenvolveu essa estrutura em nós. A nossa mente é o reflexo em nós da mente cósmica, o que implica entendermos que tudo é mente, que o universo é mental. É por isso que a nossa mente (individualmente considerada) não é tão independente quanto comummente se julga, pois está mergulhada no mar imenso da mente humana colectiva de hoje e de ontem e nem sequer está apartada da sua infusão nos reinos vegetal e animal, dado sermos um com todos os seres.

Do ponto de vista esotérico, a mente é parte da alma e da personalidade, ressalvando-se desde já que a utilização destes termos e destes conceitos é tudo menos pacífica.

Também não será pacífico dizer-se que a razão, a intuição, a emoção, a imaginação, a criatividade e a erudição, por exemplo, são produtos básicos da mente. Assim sendo, então a consciência humana identifica-se claramente com este compósito, susceptível de conduzir quer à sabedoria, quer à santidade, ou ao contrário de uma e outra coisa, por inversão de polaridades.

Conclua-se então que os nossos órgãos físicos são estruturas desenvolvidas pelas necessidades funcionais, porque é a função que determina o órgão, não é o órgão que inventa a função.

Não foi a caneta que inventou o escritor, pois não?

Para interpretar o mundo terrestre e nele agir adequadamente, desenvolvemos os sentidos físicos que tal possibilitaram: cinco virados para o exterior e vários outros (virados para dentro), tendentes à protecção e conservação do corpo. Estes sentidos são assim faculdades objectivas ao serviço das nossas faculdades subjectivas, mormente da capacidade reflexiva.

Dando tudo isto como bom, facilmente entenderemos que a vida é a grande função de que o nosso soma é a estrutura global da nossa acção mundana, o nosso grande veículo neste plano de manifestação. Nesta estrutura, os sentidos (os órgãos dos sentidos) permitem-nos – permitem a todos os seres vivos – reagir no seio da nossa circunstância. Pela razão, – e a razão, como atrás dissemos, é um produto da mente – a nossa reacção torna-se racional e inteligente; a consciência, através dos sentidos, faz de nós seres sensíveis.

Todas as células do nosso corpo estão impregnadas de consciência, toda a nossa bioenergia a reflecte, porque, sendo um produto da alma, age sobre todo o ser e sobre todos os seres.

Então, está errada a ciência?

É evidente que não. Ela apenas se ocupa do que deseja ocupar-se e a metafísica não lhe diz respeito. Da consciência estuda a parte objectivamente constatável, os fenómenos que resultam da percepção, da memória, da razão, da inteligência funcional, do básico, digamos assim, daquilo a que os metafísicos chamam actividades da consciência objectiva, sejam elas automáticas ou voluntárias. O mais longe que a ciência académica se atreveu, aliás com bastante relutância, prende-se com as propostas despoletadas por Freud e por Jung, nomeadamente com a introdução do conceito de inconsciente, que é algo que afinal não se mede e nunca foi localizado, seja no cérebro, seja em qualquer outro lugar físico, o que constitui, naturalmente, uma grande contrariedade.

Como diria Schiller, a percepção sensorial e a autoconsciência manifestam-se independentemente da nossa própria vontade e do nosso conhecimento. E ainda bem, acrescentaríamos nós, para nossa segurança e comodidade. Todavia, sem a vontade, que é a consciência em acto, e sem o conhecimento, que é sobretudo evocar e relacionar campo da memória, não nos distinguiríamos dos animais tanto quanto nos distinguimos, ou nos julgamos distinguir.

Os automatismos inscritos na nossa consciência objectiva, actuando através do nosso sistema nervoso, dos nossos sentidos e coordenados pelo nosso cérebro, automatismos a que poderíamos chamar pré-consciência, ou consciência elementar, podem e devem ser condicionados pela vontade e pelo propósito, pois que o descontrolo desta consciência elementar constitui uma alienação e, sob o ponto de vista dos costumes, leva à corrosão dos critérios do bem, do belo e do justo; sob o ponto de vista da sanidade física e mental, conduz à neurose e mesmo à loucura.

Para finalizar, por mais redundantes que possamos ser nesta exposição, julgamos que o que importa reter é que a consciência humana – colectiva ou individual – é um reflexo (uma infusão) da consciência cósmica global, não reside no cérebro, contrariamente ao entendimento maioritário dos cientistas. Ela é um atributo da Alma, agindo nas dimensões corpóreas e incorpóreas do ser humano, utilizando o corpo físico por inteiro e não apenas o cérebro, embora este tenha privilégios de comando e coordenação.

O cérebro é, com certeza, uma grande obra da nossa evolução; enorme, porém, é a função que o determinou e requer.

ABDUL CADRE