Histon, Cambridge, 05 AGO 2015
Mesmo nos meios espiritualistas, onde se
esperaria que o conceito fosse menos premente, há quem use e abuse do termo
evolução. Eu prefiro falar de progresso, de progredir, sobretudo para me
esquivar a equívocas conotações darwinianas, quase sempre inapropriadas fora do
seu específico campo. Não sendo esta então a única razão da minha preferência,
trago aqui uma outra, esta pessoalíssima.
Nos meus tempos de fumador inveterado –
isto foi há mais de trinta anos e não teve nada a ver com evolução –,
retirava-me por vezes para um recanto sossegado e punha-me, fazendo boquinhas
de peixe de aquário, a expelir argolinhas de fumo, que evoluíam no ar até se
desvanecerem completamente. Dizia então para com os meus botões: a evolução é
isto, andar em voltas até desaparecer. Qualquer que seja a perspectiva e o
contexto, é isto.
Pela mesma tónica, gostando eu de fazer
longas caminhadas, não gosto nada de ter de regressar ao ponto de partida pelo
mesmo marcador de passos. Sequela dos anéis de fumo, não gosto de andar às
voltas, isto é, de evoluir, porque eu não evoluo, apenas procuro progredir no
caminho que me escolha. Evoluiria sim – quem sabe? – se a memória me libertasse
e eu fosse por aí, às voltas, até desaparecer…
Curioso. E de certo modo paradoxal:
tenho um certo gosto em desaparecer, não de mim, que não sou fumo, mas dos
olhos que vendo-me de verdade me inventam da forma que lhes dá jeito. Ora, não
sendo eu de companhia – que isso são os gatos e os cães –, afasto-me, não vá
eu, por distracção, pôr-me a acreditar não invenção que de mim façam amigos e inimigos,
tanto faz.
Afasto-me, mas não excluo de modo algum
quem me invente, ou nem isso. Esses estarão mais presentes do que se perto
estivessem. E mais autênticos, porque não os invento nem os imagino, pois fazem
parte da minha circunstância. Eis a razão pela qual a minha adorada solidão é
tão povoada. Nela tudo incluo, não por recurso à memória e à nostalgia, mas por
ficar, como quem faz boquinhas de peixe de aquário, a expelir anéis de fumo que
evoluem. Eu que já não fumo. Eu que não evoluo.
Quando chego junto ao lago dos patos e
dos peixes e lhes atiro pedacinhos de pão, nem eles nem eu evoluímos, apenas
nos integramos na plenitude do momento, do instante onde a eternidade nos toca
e a morte nada pode.
ABDUL CADRE