Inspirado numa história oriental inserida no livro The Art of Living, de William Hart
terça-feira, junho 11, 2019
NATATORIALOGIA
Inspirado numa história oriental inserida no livro The Art of Living, de William Hart
quarta-feira, abril 03, 2019
EREMITAS, EREMITÉRIOS E MOSTEIROS
A ideia que formei acerca do assunto resultou dos seguintes pressupostos: se os humanos não tivessem crescido em número – lembremos o crescei e multiplicai-vos – não nos teríamos organizado em grupo, obviamente; sem o grupo (sem os grupos) não teríamos desenvolvido a fala, a linguagem, criado idiomas; sem a fala e os idiomas, instrumentos de comunicação por excelência não teríamos desenvolvido a razão – os raciocínios seriam idênticos aos dos primatas – e assim não construiríamos conceitos partilhados, nem saberes comuns, nem ideias, nem crenças. Se for atendível quanto acabo de expor, convenhamos que não só não falávamos de Deus – para afirmar ou negar – como não tínhamos religiões e, por maioria de razão, não precisaríamos de mosteiros, seria um absurdo. Se eremitas houvesse, não seria para buscar e encontrar Deus, mas por misantropia. Entendo que o homem se desenvolve humanamente em cooperação, que deve a todos os outros – aos que estão no mundo e aos que já não estão – tudo aquilo que é e tudo o aquilo que será.
Num livro meu, que deve sair ainda este mês, escrevi o seguinte:
Os dedos arrepiam os segredos
que a pele esconde;
a natureza deplora
a freira que de manhã chora
o orgasmo da noite
que mais ninguém lembra.
Penso que isto resume bem a minha não simpatia para com modos de vida feitos em ambientes de clausura, concentracionários, presumidamente indutores claustrofóbicos.
No Ocidente, os conventos (nomenclatura herdada do Império Romano), ou mosteiros (na etimologia grega monastetérion – latina monasteriu) têm a sua origem nas experiências ditas místicas dos padres do deserto, no Egipto, no século III da nossa era. Na Europa a prática acabou por ganhar adeptos, mas, faltando-lhe os desertos, sítios ermos, longe dos centros buliçosos, especialmente nas montanhas e nas florestas serviram perfeitamente para o fim pretendido, o isolamento proporcionador do silêncio, meditação e contemplação. Mas havia um obstáculo, a impossibilidade de conciliar a solidão total com as exigências vitais do corpo. surge a ideia de comunidade, surgem os cenobitas, a solidão dos cenobitas, solidão em comum, embrião dos conventos.
Falar-se de padres eremitas ou cenobitas parece-me paradoxal, pois é suposto que o padre esteja junto dos fiéis para os acompanhar, guiar e aconselhar. Padre significa pai e não é suposto que um pai abandone os seus filhos.
No Oriente, especialmente entre hindus, cultiva-se ainda a ideia de que o homem avisado deve corresponder a três etapas sucessivas da sua vida: uma primeira voltada para a maturação e a aprendizagem, uma segunda para constituir família e servir a sociedade, e a terceira para meditar e preparar-se para o momento de abandonar o corpo.
Os chamados «homens santos» da Índia parece que desprezavam todas as etapas de crescimento e realização, sendo vulgar dedicarem-se ao mais rigoroso ascetismo, sendo o ascetismo de muitos de uma violência inaudita sobre si próprios. Buda percorreu todos os caminhos de busca do seu tempo e lugar, inclusive o mais severo ascetismo, vindo a concluir que todos esses caminhos eram uma inutilidade. Ao abandoná-los, ao desistir de toda a busca, rendeu-se à vida, sentou-se à sombra da árvore baniana e, dizem os seus seguidores, nesse preciso momento atingiu a iluminação.
Krishnamurti dizia amiúde, e um dos seus livros tem precisamente esse título, que a Verdade é uma terra sem caminhos. Para Buda, a finalidade da vida era fazer cessar todo o sofrimento, pôr termo ao Samsara, o fluxo incessante dos renascimentos.
Os eremitas cristão parece que não terão entendido devidamente a essência da ideia cristã: amar o próximo como a nós mesmos, amar o próprio inimigo. Não entenderam que para isto é fundamental estar no mundo, o que não implica pertencer-lhe. Viver, estar no mundo, não fugir, não se esconder. Erro grave foi autoconvencerem-se que se escondiam do mundo por boas razões, para encontrar Deus, mas não foi por isso exactamente, foi sobretudo para fugir aos apelos da carne, mormente o desejo sexual, que a patrística transformou em pecado, dando desta forma ao mundo dois deuses: o do corpo, que era o diabo e o outro das boas coisas, o Bom Deus.
Dizia Goncourt (1822-1896) que «de todas as aberrações sexuais a mais singular talvez seja a castidade».
Não vale a pena fugir do mundo, porque o mundo nos encontra, inexoravelmente, mesmo que nos escondamos no mais secreto dos eremitérios. De qualquer forma, é certamente em profunda solidão que nos encontramos a nós próprios e expandimos a consciência. Ao expandi-la, paradoxalmente, não estamos sós, dado que nos sentimos um com todos os seres. É aqui que corremos o grande perigo de entrarmos na grande ilusão de Deus, quando o desejável seria o fim de todas as ilusões, e todas inclui a ilusão de Deus, o fim de toda a separatividade. Tal desiderato, num convento, num ermitério pode – quem sabe? – ser possível, mas duvido, porque o que me parece evidente é que a grande possibilidade é a loucura, a alienação.
Quando falo na ilusão de Deus, que fique claro que se trata do que nos habituaram a crer. Tudo o que se diga de Deus não é o que se sabe, é apenas o que se diz, é aquilo em que fomos condicionados. É preciso acabar com a submissão aos modelos, porque os modelos são apenas antolhos que nos impedem de ver quem somos, de ser quem somos.
Pessoa dizia – e isto não é um modelo para aceitar, mas ideias para reflexão – que para atingir a iluminação seria necessário vencer o mundo, a carne e o diabo. Diabo entenda-se como a força em nós que nos divide, como seja a separação da Razão e do Coração. A carne é tudo aquilo que nos vem dos baixos instintos, que são o inferno, e que devemos sublimar, se queremos ser humanos e não bichos. O mundo é tudo o que não nos deixa ser quem somos, a ilusão do ter, o não nos apercebermos que o que temos nos tem igual e reciprocamente.
Podemos expandir a nossa consciência – e se calhar não o podemos de outra maneira – no mundo concreto e dolorido, na nossa particular circunstância; meditar no meio do ruido, sentir por dentro a multidão, mas não pertencer ao mundo nem à. multidão.
É importante que estejamos aqui, mas não é importante que saibam que estivemos. Se queremos acordar, ou se julgamos estar já despertos, não precisamos de fazer nada que se veja ou que se saiba, basta que adoptemos a postura do catalisador. Nos processos químicos, o catalisador não faz parte da composição, mas sem ele a composição não se faz.
quarta-feira, janeiro 09, 2019
UM OLHAR SOBRE A CONTINGÊNCIA
Limitados Sentidos Temos
"Nossa psicologia pessoal é apenas uma pele física, uma ondulaçãozinha na superfície do oceano da psicologia colectiva. 0 factor poderoso, o factor que nos modifica toda a vida, que modifica a superfície do nosso mundo conhecido, que faz história, é a psicologia colectiva, e o inconsciente colectivo. move-se de acordo com leis inteiramente diferentes das que nos regem a ' consciência".
JUNG in, Psicologia Analítica
No passado dia 8, no programa televisivo CONVERSA AFIADA, de Joaquim Letria, o tema era Espiritismo, ou coisa semelhante. De quanto ali se disse bem se poderia resumir, utilizando as últimas palavras de um dos entrevistados, o Padre Fontes: "penso que as pessoas que tinham dúvidas ficaram com elas, ou com mais ainda. Eu penso o mesmo, mas estou convencido que tal não se deveu a falta de tempo para apresentar o assunto, antes a uma confusão de intenções, de que sobressaiu o confronto peregrino de duas coisas perfeitamente irreconciliáveis, pelo menos na época presente: Ciência e Religião. Queria o Dr. Divaldo Ferreira provar pelo positivismo científico a irrefutabilidade do espiritismo e do outro lado dizia o médico presente, de que não recordo o nome, que nada havia que provasse a existência da vida para além da morte. Para o Padre Fontes, visões são visões, não têm qualquer validade probatória, nem mesmo as de Lúcia, que só para eia eram válidas, já que nem o Francisco as teve, apesar de a acompanhar.
Pois é isto, sem sombra de dúvida, aquilo a que se pode chamar dialogo; monólogos intermináveis onde ninguém se converte e todos regressam da peleja com as mesmíssimas ideias com que para ié foram, frustrados talvez por não terem vencido o adversário, justificando com um sorriso amarelo o exercício das liberdades democráticas suportadas, ou desculpando-se mesmo, que o que é preciso é competir. Nem eles aprenderam, nem nós. Do meu ponto de vista, tal era inevitável, por uma razão muito simples: o espiritista não podia provar de ciência o que só ele subjectivamente experimentava; o padre não podia provar o que a Igreja condena e tão ferozmente perseguiu de Niceia até tempos bem recentes e o médico, que só acredita no que pesa ou no que corta, estava ali precisamente para dizer que tudo o que não é ciência é charlatanice. Ou seja: a paixão, que não se pesa, o amor, que não se corta e a saudade que não se mede, são coisas perfeitamente inexistentes, porque o equivoco fundamental é querermos provar racionalmente o que é do domínio do irracional. Eis a tendência persistente e doentia de nos limitarmos: não damos a César o que é de Cesar, fazemos exclusões. Isto é valido para a discussão em apreço, para outras similares que na pantalha têm passado e é válido para as nossas discussões filosóficas. Nestas, os argumentos e contra-argumentos só nos devem servir no sentido da conversão e como exercício insubstituível para uma desejável e profícua abertura de mente.
De qualquer forma, se me permitem um conselho, não tentem convencer ninguém da verdade da reencarnação. nem nela acrediteis pelos argumentos dos livros. Tomai as opiniões que puderdes, mas procurai sobretudo encontrar a vossa, sem esquecer que de nada vale ser como São Tomé, porque mesmo vendo e apalpando não temos a garantia de que os sentidos nos não enganem. Fizeram-se estudos experimentais em universidades norte-americanas onde se pedia a grupos de estudantes voluntários para caminharem ao longo dum comprido corredor e que parassem sempre que se acendesse uma lâmpada e metade dos estudantes paravam convencidos de terem visto uma luz acender-se. Também se utilizaram máquinas fictícias, isto e, máquinas a que se atribuíam efeitos de calor ou de passagem de corrente eléctrica completamente inexistentes e noventa por cento dos estudantes confirmavam os "efeitos". Há miragens e alucinações. Há o desejo de ver e o desejo de não ver.
Será que o encarnado existe? Quem tem razão, nós ou os daltónicos? Que sabemos nós do funcionamento das nossas portas privilegiadas de acesso ao mundo de relação?
II
Ora vejamos. Se colocarmos um par de auscultadores, sendo que de um lado recebemos uma mensagem incoerente e do outro uma mensagem devidamente organizada, a nossa atenção só capta aquela que a nossa educação preconcebeu. 0 nosso pequeno eu material é um produto histórico condicionado entre o medo e a recompensa. Neste plano, como muito bem disse Pavlov, somos reflexo condicionado: agimos como nos mandam, como mos amestraram e os homens acordados são tão poucos que dificilmente se cruzam dois numa vida. Para despertar, talvez seja bom não nos embriagarmos de certezas obtidas através dos nossos limitados sentidos, antes saber da amplitude de tais limitações através do exercício da razão. Mas à razão limita-a o frio da lógica e condiciona-a o mundo das necessidades e utilidades. Depois, a nossa tilinte é dupla e dificilmente se alcança o plano do pensamento puro. Esta dificuldade não advém dos tais nove décimos do cérebro que não se utilizam. Convém, desmistificar essa história: cérebro é cérebro e mente é mente; são órgãos (digamos assim, para facilitar) que pertencem a planos claramente diferenciados do ser. O cérebro tem o desenvolvimento perfeitamente adequado para coordenar as funções que lhe são próprias e servir de emissor/receptor dos pensamentos que nos estão mais à mão. Contrariamente ao que muitos pensam, nunca foi estabelecida irrefutavelmente uma razão directa entre a inteligência e a cor ou o tamanho do cérebro, por mais que alguns homens de ciência argumentem utilizando o que não consideram válido quando na boca de parapsicólogos e quejandos. Mas, para analisarmos o fenómeno da inteligência, nada melhor do que uma história verdadeira que a ciência bem conhece.
Há uma espécie de vespa que alimenta as suas larvas exclusivamente duma dada espécie de tarântula. Põe muito poucos ovos, mas por cada um que está para pôr sai à caça duma dessas enormes e venenosas aranhas. Ora, a tarântula é várias vezes mais corpulenta que a vespa e perfeitamente apta a enfrentá-la com êxito, tendo ainda a seu favor uma consistente e impenetrável carapaça. No entanto, não se sabe porque prodígio, a vespa consegue enterrar o seu ferrão com precisão cirúrgica num ponto frágil onde se articulam as patas e atingir a vítima num ponto vital, causando-lhe atordoamento e paralisia momentânea, não a matando, porque de nada lhe serviria morta. Previamente, a destemida caçadora havia aberto uma cova de cerca de vinte e cinco centímetros de profundidade, onde enfia a tarântula de modo a que fique impossibilitada de se mover passado o atordoamento. Depois, calmamente põe o seu ovo e prende-o ao abdómen da vítima. Mais tarde, quando a larva sai do invólucro, tem um manjar fresco à sua disposição, como frescos estão os líquidos do corpo da sua hospedeira, que vai devorando sabiamente sem lhe causar a morte durante as longas semanas do seu desenvolvimento. Deixa para o fim os órgãos vitais. Quando completa o seu desenvolvimento, sai em voo pronta com o seu ferrão para quando chegar a hora de nova caçada.
Quem ensinou estes prodígios à vespa, que não pode falhar?
Se esta espécie tivesse falhado, não tinha chegado aos nossos dias e teríamos eventualmente o registo fóssil da sua passagem como modelo falhado de vida. Temos tendência para, sem mais lobrigarmos que o mais denso de nós, por aí nos julgarmos o centro de tudo, só porque nos cabe a ilusão de gerirmos autonomamente uma inteligência muito própria, com que remendamos os nossos erros, mas não está garantido que um deles não seja fatal, vindo outra mais apta forme do anjo caído estudar o fóssil que por aí fique como recordação e aviso.
In ALVORADA
Nº 1 – 1992 Equinócio da Primavera
